Crítica: «Immortel», de Enki Bilal
Uma pirâmide suspensa na Nova Iorque de 2095. O deus Horus tem a sua condição de imortal abjurada e precisa de garantir a perpetuação da espécie humana, numa sociedade em que os seres artificiais são a maioria. Nikopol (Thomas Kretschmann), um revolucionário preso há 30 anos, é o escolhido para «emprestar» o corpo a Horus e fazer com que este fecunde a mutante Jill (Linda Hardy).
É assim que se desdobra Immortel (2004), um filme de extremos: perpassa-se da mitologia egípcia directamente para o futuro criado por Enki Bilal. O mais curioso é que, sem assentar necessariamente no presente, o filme é claramente uma referência a questões que permeiam a humanidade hoje, como os desdobramentos da genética, as intrigas políticas e as revoluções sociais imanentes.
O tom satírico é o principal termómetro do filme. O «deus falcão» satiriza atitudes humanas quando, na verdade, ele mesmo comete acções tão igualmente inferiores. Assim, podem ser lidas várias ironias à nossa condição actual: as falhas que apontamos nos outros são também as nossas; a artificialidade dissemina-se não só nos meios materiais mas nas próprias relações (letreiros anunciam: «Nada de amor e sexo, procriem geneticamente»); as fraudes políticas continuam as mesmas, apesar da desenvolvida sociedade do fim do século.
Immortel tem uma plasticidade intrigante, numa linha ténue entre ficção e realidade. Os efeitos 3D estão em harmonia com as três dimensões reais e não há nenhuma contaminação entre as duas balizas – define-se bem por que se adoptou o real para determinados cenários e personagens e por que a escolha do virtual para as outras criações. Num roteiro linear, Immortel parece vir do futuro para nos falar, em tom quase caricatural, sobre os nossos tempos de crise – ou sobre a crise dos nossos tempos.



