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Crítica: «Palermo Shooting», de Wim Wenders

Palermo Shooting não é só um filme. Da forma como o fim para o qual foi pensado pelo realizador transformam-no quase automaticamente num filme de culto. Um filme com uma fotografia exemplar pensado quase fotograma por fotograma, sensível ao movimento e com um ritmo lento mas propositado para nos arrastar para a forma como sentimos a passagem do tempo.

Os ingredientes estão todos lá e passando pela homenagem até ao ponto do ensaio, as referências para a filosofia inerente ao acto da captação de imagem agiganta-se sobre o público causando um rol de sensações que nos acompanham por muito tempo depois de sair da sala. Bergman e Antonioni são assumidos, mas há no filme muito mais. Há Dziga Vertov no Homem por trás da Camera de Filmar, há Barthes na procura do entendimento entre o fotógrafo e o objecto. Há um pouco de nós todos e não foi por acaso que na apresentação do filme Wenders disse que era o primeiro filme interactivo a passar pelo Fantasporto.

A história do filme é simples. Um fotógrafo famoso de renome mundial quer nas artes como na moda, Finn leva uma vida agitada, dorme pouco, o telemóvel nunca pára de tocar e a música dos seus auscultadores são a companhia mais constante e que lhe dão o poder de se isolar completamente do mundo. Na verdade a música é o primeiro tijolo na construção de um mundo só seu que tenta recriar nas fotografias que faz. A verdade fotográfica e a manipulação, o drama do fotógrafo perante a impossibilidade de capturar o momento e a preocupação atenta com o que rodeia caracterizam esta personagem tipo com a qual é fácil, para qualquer fotógrafo, se identificar.

Subitamente, a sua vida fica fora de controlo, uma viagem que o transporta para fora de si mesmo leva Finn a partir e deixar tudo para trás. A sua viagem leva-o de Dusseldorf até Palermo. Aí, vê-se perseguido por um misterioso atirador que o segue com um propósito de vingança. Sobre o resto, contá-lo seria um spoiler. O melhor conselho é que o vejam atentamente e o interpretem da forma que o realizador nos aconselha: sintam-se atingidos pelo shoot deste filme e interajam com ele.

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Retrospectiva de Wim Wenders

20_643-wimwendersA edição deste ano do Fantasporto conta com dois convidados de grande influência no cinema, respectivamente Paul Schrader e Wim Wenders, realizador alemão nascido em 1945.

O trabalho do Wenders começa nos anos 60 com curtas de baixo custo como Schauplätze, daí até 1984 foram uns vinte filmes, todos eles de baixo custo. Até que em 1984 um rasgo de soberania provocou o Paris, Texas, que arrecadou inúmeros prémios entre eles, A Palma de Ouro em Cannes. Este filme é uma obra-prima, pelo elenco muito bem dirigido, pela fotografia extremamente bem cuidada por Kate Altman.

O que faz de Wim Wenders um nome influente e com rasgos de loucura saudável é a polivalência que o caracteriza. Notória, esta polivalência no filme de ficção, que neste caso é para aqui chamado pelo tema fantástico intrínseco ao Fantas, intitulado Bis ans Ende der Welt, primeiro filme que introduziu efeitos especiais. Dentro ainda desta polivalência existem documentários, extremamente bem executados, como Buena Vista Social Club, ou então do ponto de vista mais experimental podemos ver o Lisbon Story, que aproveita a ausência de som para ser provocado uma sensação de atenção contemplativa, filmes de 1999 e 1994, respectivamente. Mais recentemente podemos ver um filme que voltou ao registo do Paris, Texas, caso do Don’t Come Knocking, um filme de 2005, que conta com um elenco muito bem dirigido.

palermo

Este ano no Fantas podemos ver o seu mais recente filme, Palermo Shooting, um trabalho esteticamente americanizado.