Especial Rascunho e JUP

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De olho em 2010

Não foi esta edição de 2009 o que mais se comentou nos últimos dias do Fantasporto. O assunto a respeito do futuro do festival perpassou pela direcção do evento, pelos media e pelo público.

No discurso de encerramento, na noite de 28 de Fevereiro, o director do Fantas, Mário Dorminsky, afirmou que o festival pode estar a correr o perigo se 80 por cento do orçamento continuar a ser coberto por patrocinadores privados. Dorminsky fez apelo à SuperBock – «que vem sendo o nosso papai e a nossa mamãe» –, cujo contrato de três anos acabou neste festival, e ao Ministério da Economia (revezando com o apelo feito ao Ministério do Turismo no discurso de abertura realizado por Beatriz Pacheco Pereira), para que emita mais subsídios para os festivais, pois «são eles que ainda sustentam grande parte das actividades culturais e ainda ajudam a divulgar o turismo da região Norte».

Durante os quinze dias de ecléctica programação, corroborando um Fantas cada vez menos focado no nicho do universo fantástico, foram mais de 50 mil espectadores com bilhetes, além dos 150 lugares reservados em cada uma das 50 sessões realizadas, considerando apenas o Grande Auditório do Rivoli.

Apesar do aumento de espectadores na ordem dos 17 por cento, fica a dúvida de como serão angariados os quatro milhões de euros necessários para realizar o festival com a mesma qualidade deste ano. A 30ª edição do Fantasporto será realizada entre 26 de Fevereiro e 6 de Março de 2010. O período pré-Fantas será dedicado à Ciência e à Robótica. «Será uma festa menor, mas iremos fazê-la com a mesma alegria e determinação que nos fez chegar a 30 anos na direção desse festival», completou Beatriz Pereira. Agora é esperar para ver.


Mário Dorminsky: «Solução para o Fantas tem que aparecer até ao final de Abril»

dsc_6070Numa altura em que a 29ª edição do Fantasporto caminha para o final, o JUP/RASCUNHO foi falar com um dos fundadores e director do Festival Internacional de Cinema do Porto, Mário Dorminsky.

Há 29 anos atrás o jornal Correio da Manhã trazia na primeira página, em letras grandes, o título: «Sangue invade as ruas do Porto». Desde então, nunca mais o Fantasporto se conseguiu descolar da imagem de cinema fantástico. Hoje, a um ano de completar trinta anos, o Fantas, que se tornou num dos 25 melhores festivais de cinema do mundo, vive dias de incerteza. Se não aparecer uma solução financeira até Abril, a edição 30 pode mesmo não se realizar. Aquela que tem sido a cara do Fantasporto desde sempre, Mário Dorminsky, explica-nos como é organizar um festival que se tornou «num monstro burocrático gigante». Fotos de Manuel Ribeiro

Para o ano o Fantasporto faz 30 anos. Afirmou há dias que a próxima edição pode estar em risco – porquê?
Sim, pode. É a edição 30, como podia ter sido a edição 21, a 22 ou a 14. Todos os anos, no meio cultural, sentimos um problema extremamente complicado, que é saber a capacidade financeira que possa existir pela parte quer do Estado e das autarquias, quer, sobretudo, dos privados. É preciso não esquecer que o Fantasporto talvez seja exemplo único em Portugal, ao ter cerca de 80 por cento de apoio dos privados e apenas 20 por cento de apoio das entidades públicas.

dsc_6052Essa percentagem incomoda-o?
Incomoda. O Estado devia ser responsável pela existência de projectos culturais considerados de interesse e, no caso do Fantasporto, isso é um facto. Ainda agora, o Instituto do Turismo nos atribui o Prémio Nacional do Turismo pela imagem internacional do festival e pela imagem que levamos de Portugal para o estrangeiro. Somos considerados um dos 25 melhores festivais do mundo, pela Variety, como somos considerados o melhor festival de cinema fantástico da Europa, a par do festival de Sietges perto de Barcelona. Outro aspecto que me parece muito importante é o facto de o Fantasporto estar a Norte. Como temos tido governos muito centralizadores, Lisboa e o Vale do Tejo são o centro do país, o resto é província.

Um dos próximos passos será a criação da Fundação Fantasporto. Quais são os principais objectivos e vantagens desse projecto?
Enquanto, neste momento, temos apoio do Estado e o apoio dos privados, ao nível de empresas, com a fundação poderemos ter outro tipo de apoios dos privados, isto é, das pessoas. E há pessoas que têm muito dinheiro e que podem ajudar.

É essa a ideia dos «amigos do Fantas»?
Há os mecenas, que são as empresas, e os patronos, que são os individuais, e depois há os amigos, que são aquelas pessoas que vêm ao Fantas há muito anos. É mais uma questão de simpatia para ter as pessoas perto de nós, como sócias. É curioso ver que já vamos em cerca de duzentos participantes e, neste festival, algumas pessoas já assumiram essa categoria de sócios do Fantasporto.

Passando para a recente edição. Tivemos no Pré-Fantas um ciclo dedicado à arquitectura. Qual é o balanço dessa iniciativa?
Foi fantástico. O ciclo de arquitectura foi uma ideia que substituiu o que fazíamos no Pré-Fantas, que era um conjunto de antestreias. Decidimos apresentar um programa com cabeça, tronco e membros, um programa envolvendo a Ordem dos Arquitectos, sendo co-organizado com o arquitecto Jorge Patrício, que é uma  pessoa em quem temos toda a confiança. A escolha dos filmes foi nossa e eles fizeram os textos e os conceitos. Eles desenvolveram um projecto contra a «escola» do Porto, isto é, a escolha dos arquitectos convidados para as conferências, como é o caso do japonês Sou Fujimoto, ou de Marcos Cruz, que tem conceitos completamente diferentes da Escola de Arquitectura do Porto. Quando estávamos a preparar o programa pensamos fazer as conferências no pequeno auditório, para duzentos e muitas pessoas, mas acabamos por optar pelo grande e tivemos cerca de 600 a 700 pessoas em cada uma das conferências, o que é notável.

dsc_6067Na mensagem do programa oficial pode ler-se que a crítica do cinema acabou. Revê-se nessa afirmação?
É verdade. Revejo-me nessa afirmação por uma razão muito simples. Basta pegar em todos os diários nacionais que trazem notícias do Fantasporto e nenhum deles fala dos filmes que passam no festival, só falam do ambiente e das pessoas que estão cá. Onde é que está a crítica? Onde é que está o falar sobre os filmes? Não está. Tirando dois ou três críticos, os outros não gostam de cinema. Dizem sempre mal de tudo e mais alguma coisa. A crítica de cinema a sério terminou, em Portugal, no final dos anos 90. Nessa altura havia um conjunto de pessoas que ainda olhavam para o filme e o enquadravam no país onde era produzido e depois envolviam a sua crítica em torno desses conceitos. Isso não só acontece no cinema, mas também nas artes plásticas, na literatura e em praticamente todas as artes. Ainda há o crítico que diz gosto e não gosto, mas ponto final, acabou. Em termos genéricos, dizer que há um conceito de crítica que permita às pessoas ter uma leitura diferente em relação àquilo que é o produto cultural é uma situação que já não existe. E falo à-vontade porque durante vinte anos fui jornalista da área cultural dos três jornais do Porto.

Imaginando que tinha todos os apoios necessários. A 30ª edição do Fantas vai ter uma programação especial?
Sabemos o que queremos fazer. Agora não vamos anunciar nada porque não tem lógica estar a anunciar aquilo que vamos fazer e, ao mesmo tempo, dizer que pode não haver festival. Por isso, enquanto não tivermos a certeza, não vamos anunciar rigorosamente nada.

Ao fim de quase trinta anos ainda lhe dá gozo organizar o Fantasporto?
Dá muito gozo. A única coisa que acontece é que, cada vez mais, para além dos problemas para obter apoios do Estado, é necessária uma burocracia gigantesca, coisa que não existia no passado. E, ao nível dos privados, estamos a fazer contratos que metem advogados e tudo isto, que era feito com uma certa frescura, transformou-se num monstro burocrático gigante que ocupa as pessoas durante todo o ano. Dizem que sou a cara do festival, mas há mais – a Beatriz Pacheco Pereira e o António Reis. Infelizmente as coisas recaem muito sobre mim, as pessoas querem falar comigo e, nesse aspecto, é complicado porque tenho outras vidas, mas isso já é outra história.

Leia a entrevista integral no RASCUNHO