Especial Rascunho e JUP

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Como tornar o cinema português mais competitivo

Desde "A saída dos operários da Fábrica Confiança" de Aurélio Paz dos Reis, em 1896, que o cinema português tem feito um longo caminho mas ainda há muito por fazer. (Foto: DR - fotograma do filme)

No dia 2 de Março, realizou-se uma conferência no Rivoli intitulada “The International Film Scene – How Portuguese Cinema Can Become More Competitive”, com a presença dos oradores Ian Haydn Smith, editor do International Film Guide, e Martin Dale, representante da revista americana Variety e também colaborador do Ministério da Cultura português, como consultor na área de cinema.

Não houve dúvidas quanto à boa qualidade de muitos filmes portugueses, notando as aparições em vários rankings de melhores filmes do ano, mas ao longo da hora e meia de conferência foi debatido o pouco sucesso doméstico do cinema luso e o porquê desta situação. Os que vêem filmes portugueses são como conhecedores de vinhos finos – não é para todos. Na maior parte dos países europeus a produção nacional contribui em média para 20% das receitas do box office, porém em Portugal este valor oscila à volta dos 3%. É também de realçar que, mundialmente, os filmes mais vistos do ano tendem a ser os mesmos – blockbusters de origem americana.

Foram dadas várias possíveis razões para esta disparidade entre qualidade e sucesso, muitas das quais por intervenientes do público. Portugal, ao contrário de países como a França ou a Índia, não tem uma cultura do cinema: as salas estão concentradas nos centros urbanos de Lisboa e Porto e os poucos cinemas das cidades pequenas não têm clientela e fecham. Assim, torna-se difícil ver cinema em Portugal, quanto mais filmes portugueses.

De um modo geral, o cinema não é valorizado em detrimento da televisão, talvez um artefacto dos tempos do Estado Novo. É de salientar que se esperaria a seguir a uma revolução como a de 25 de Abril que houvesse também uma revolução cultural e por conseguinte um boom na produção e qualidade da 7ª arte, como aconteceu em países como a Espanha, Itália, Grécia e muito recentemente Marrocos. Portugal, como afirmou Martin Dale (que vive cá há 15 anos), “parece que nunca ultrapassou os tempos da ditadura”.

Para remediar o panorama, foram dadas várias sugestões. O mote é “pensar localmente, e depois globalmente” – ou seja, o cinema português tem que começar a apelar à situação em que se vive e ao contexto em que se insere. Um exemplo disto é o vencedor do Óscar de melhor filme deste ano, “O Discurso do Rei”, que mesmo sendo uma produção britânica atingiu sucesso mundial, devido ao facto de ser ano de casamento real e da economia estar em baixo, tal como na época retratada. Outra via para atacar este problema é aumentar o investimento no cinema pela parte do Ministério da Cultura, emissoras de televisão e distribuidoras para um maior empenho na sua produção e promoção. Poder-se-ia também envolver o Turismo de Portugal em promover o nosso cinema lá fora e atrair realizadores estrangeiros com isenções de impostos. Além disso, a co-produção entre países, em especial na Europa, tem dado resultado e seria vantajoso para Portugal, uma vez que tem bons profissionais mas poucos recursos financeiros.

Apesar disto tudo, Ian Haydn Smith mostra-se optimista, admitindo que Portugal tem capacidade de evoluir, se ultrapassar a crise financeira e o pessimismo que nos caracteriza.

Veja um excerto da conferência no JPN.


Baile dos Vampiros – Fotograma

Fotos: Pedro Ferreira


Entrega de Prémios e Encerramento – Fotograma

Fotos: Pedro Ferreira


Espectadores Fantásticos II

Entre filmes há sempre para procurar, na loja montada no foyer do Rivoli, outros filmes, já conhecidos ou para descobrir. (Foto: Pedro Ferreira)

Poucos momentos antes da exibição do filme “The Chameleon”, Pedro Morgado, de 37 anos, encontra-se com amigos na primeira fila: “Fico sempre aqui porque gosto de esticar as pernas. (risos) E não gosto de ter gente à frente.” As visitas ao Fantasporto já duram “há muitos anos, desde ’89, ‘90”, principalmente pela preferência pelos filmes de terror, mas também “pelo ambiente”. Pedro Morgado manifesta a sua preferência em relação aos anos em que o Fantasporto se realizou no Teatro Carlos Alberto, pois considera o Teatro Rivoli “muito impessoal”.

O gosto pelo cinema, e particularmente pelo cinema fantástico, levam Rui, de 45 anos, a visitar o Fantasporto há 28 anos. Para Rui, o Fantas é um evento “muito importante para a cidade e para o país, porque é o único que tem projecção internacional e porque é um factor de promoção turística para o país e para a cidade também, porque está ligado ao Porto”. O espectador adianta ainda que esta iniciativa contribui para levar a cidade do Porto a ser mais conhecida internacionalmente: “Não é só o vinho que é famoso lá fora, mas é também o nosso Fantasporto do Oporto”. Em relação à organização, Rui afirma que não tem qualquer tipo de críticas: “Acho que isto é muito bem organizado. Ao fim de 31 anos, o piloto automático já funciona muito bem, não tenho nada a apontar”.

Diogo Mendonça, de 30 anos, vem ao Fantasporto por ser aqui que encontra uma grande variedade de cinema alternativo e considera que a organização tem evoluído de forma “neutra”. Quanto à passagem desta iniciativa para o teatro Rivoli, Diogo Mendonça não tem quaisquer críticas pois gosta do espaço.

À porta do Pequeno Auditório encontra-se um ‘espectador fantástico’ mais recente: David Marreiros, de 21 anos. Quando questionado quanto ao motivo que o leva a vir ao Fantasporto há 4 anos, David Marreiros afirma que é difícil responder a essa questão mas adianta que é “uma referência a nível nacional da parte do cinema e para além do mais é uma grande festa do cinema que nos permite não só ver os filmes, mas também ter contacto com todas as pessoas da área”. O espectador aconselha o Fantasporto a outras pessoas mas defende que “é necessária uma certa selecção de quais é que são realmente os filmes que vamos visionar”. David Marreiros defende que “a organização melhorou imenso, sem dúvida”, embora demonstre alguma desilusão em relação à restrição dos espaços de exibição ao Rivoli, pois considera “importante dinamizar” outros espaços do Porto. Em relação às melhores memórias, o espectador afirma que guarda “bons filmes” e que passa a associá-los ao espaço e ao evento do Fantas. “Aqui há uma oferta totalmente mais underground, enquanto no resto temos uma via muito mais comercializante”. Para David, o facto de este festival se realizar no Porto também se torna importante “principalmente para combater Lisboa”.

No Grande Auditório quase todos os lugares se encontram ocupados, por antigos fãs deste evento ou por novos curiosos. Os funcionários que estão nas portas do Grande e Pequeno Auditórios, remunerados apenas com senhas para refeições e com a oportunidade de poder ver os filmes de graça, não deixam de aproveitar a oportunidade de poder fazer parte do Fantas.

As palmas no final de cada exibição já se tornaram um ritual, onde o silêncio durante os filmes é muito mais respeitado do que nos cinemas dos habituais centros comerciais. Apesar de espectadores muito heterogéneos e com gostos muito diferentes, há sempre uma coisa em comum: o gosto pelo Fantasporto e pelo cinema independente e generalista que faz com que, cada vez mais, o Rivoli reconheça caras dos anos anteriores. Tal como a espectadora Bárbara Lopes afirma: “Sempre que um Dorminsky quiser, há Fantasporto”.

Maria Eduarda Moreira
Luís Mendes


Espectadores Fantásticos I

Entre filmes aproveita-se para fazer alguma leitura, programas e catálogos do festival ganham preferência (Foto: Pedro Ferreira)

O Fantasporto 2011 trouxe, como já é habitual, alguns ‘espectadores Fantásticos’, daqueles que não perdem uma edição deste evento.

Frederico Figueiredo vem “de Lisboa de propósito para vir ao festival” há 8 anos. O espectador afirma que são os géneros de terror e de cinema fantástico que o levam a frequentar este evento ano após ano. Quando questionado quanto à organização e qualidade dos filmes, Frederico Figueiredo defende que “a qualidade se tem mantido e existe uma boa variedade de filmes, não só a nível de géneros mas também a nível de novos realizadores e de novas propostas” e que “a organização, desde o início, sempre manteve a qualidade”. Compara ainda o Fantasporto ao festival Motel X, em Lisboa, e elogia o evento portuense por não se dedicar apenas à projecção de filmes de terror e pela sua “oferta mais variada”. O espectador aconselha o evento a outras pessoas, embora realce o facto de nem toda a gente ter essa possibilidade, devido à distância geográfica.

Apesar de não “ser muito dada ao terror”, Catarina Santos, de 28 anos, continua a vir ao Festival de Cinema Internacional do Porto, pois afirma que consegue “encontrar um bocadinho de tudo”. A espectadora assegura que o que a leva a frequentar o Fantas há 10 anos é o gosto pelo cinema e elogia a organização: “Já vão 31 anos, mas conseguem pôr sempre isto de pé”.

Bárbara e Pedro Lopes visitam o Fantas há 6 anos. Bárbara define o evento como algo “fora do normal” e deixa o elogio: “É fantástico. É um marco”. Como fã do cinema na baixa do Porto, afirma ainda que “muita gente não sabe a quantidade de salas de cinema que o Porto tem”. Já Pedro Lopes tem sentido que a organização tem decaído ao longo dos anos e afirma que “já houve mais apoios”. Em 6 anos de visitas ao Fantasporto, o espectador defende que “o cinema morreu um bocado”.

Em 27 anos, Paulo Gomes já viu muitos filmes e observou muitas mudanças num festival que define como “ímpar em Portugal”. O espectador aplaude a mudança para o Teatro Rivoli e descreve-o como “a melhor sala da cidade”. Para Paulo Gomes, o Fantasporto enaltece o “cinema fora do comercial” que define como “essencial para alargar o leque de ofertas”. Quanto ao progresso ao longo dos anos, o espectador diz que o evento “evoluiu favoravelmente”.

Ana Moreira trabalha a servir café no Fantasporto há dois anos. Como espectadora, é o quarto ano que visita o festival, que descreve como “diferente” e com “qualidade”. “Proporciona cultura, que está em falta”.

Marta Ribeiro e Manuela Carneiro são amigas que já vêm ao Fantasporto há “muitos anos”. Marta Ribeiro confessa que é uma espectadora assídua do Fantas devido ao gosto que tem pelo cinema mas também por ter trabalhado no Rivoli durante vários anos. Marta afirma que “a organização está a funcionar muito bem, dentro dos possíveis”, e que “os filmes cada vez são melhores”. Considera que o público-típico do festival de cinema é “a geração dos 30 anos”. Manuela Carneiro vê este evento como algo que “já faz parte da cidade” e afirma que “em Fevereiro ficamos todos à espera do Fantasporto”. A espectadora realça a importância deste tipo de eventos: “Que venham mais iniciativas destas, porque trazem as pessoas para o centro da cidade com actividades culturais, estamos todos à espera que isso aconteça. Gostaríamos nós que houvesse mais salas de cinema na cidade e que não fossem dentro do shopping”.

Maria Eduarda Moreira
Luís Mendes


“Se o Fantasporto fosse todos os dias…”

Aspecto do exterior do Rivoli durante o Festival (Foto: Pedro Ferreira)

Domingos Alves trabalha há 22 anos no Café Garça Real, a 50 metros do Teatro Rivoli, e admite que o Fantasporto tem um impacto positivo no negócio. Todos os anos, o festival atrai portugueses de Norte a Sul do país e estrangeiros amantes da arte do cinema, “maioritariamente gente nova”. Cafés, lojas e restaurantes vêem aumentar o número de clientes durante a quinzena do evento cinematográfico. “É indiscutível, estamos sempre à espera que estes dias cheguem”, explica Domingos Alves.

A Baixa da Cidade tem vindo, progressivamente, a perder centralidade no que diz respeito à localização de habitações e escritórios, que se transferem para zonas periféricas. Assim, “são os espectáculos que chamam as pessoas”, não só o Fantasporto como todos os outros eventos realizados no Teatro Rivoli. As encenações de Filipe La Féria, que duram “meses e meses”, têm um efeito particularmente positivo, ao atraírem espectadores por um período mais prolongado.

Ao contrário de Domingos Alves, que não é “adepto dessas coisas”, Manuel Augusto Marinho é um admirador fervoroso do cinema do Fantasporto. O Sr. Manuel trabalha há 60 anos no Restaurante Regaleira, na rua do Bonjardim, e não esconde gostar “daqueles filmes de Terror”. O restaurante que viu nascer a Francesinha recebe, sobretudo “quando o filme puxa”, um maior número de fãs do festival, principalmente à hora do jantar. Para além destes clientes esporádicos, a Regaleira reencontra, todos os anos, um grupo de jornalistas ingleses, representantes de uma revista de cinema. Manuel Marinho serve ainda realizadores, cinematógrafos e convidados do evento espanhóis, franceses e italianos, todos eles “uma mais-valia para o negócio.”

Culturalmente enriquecida pela sétima arte e todas as suas representações nacionais e internacionais, a Cidade das Pontes vê favorecido o seu sector económico. O espectáculo chama as pessoas, e as pessoas usufruem dos serviços em seu redor. Assim, Domingos Alves lamenta que o Fantasporto dure apenas 15 dias, porque “vão-se os artistas, vai-se a gente, não é?”

Mariana Sousa
Raquel Teixeira


Premiados Fantasporto 2011

Prémio Melhor Filme
Grande Prémio Fantasporto 2011

“Two Eyes Staring”
Elbert Van Strien
Holanda

Prémio Especial do Júri
“A Serbian Film” – Srdjan Spasojevic – Sérvia

Melhor Realização
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul

Melhor Actor
Axel Wedekind – “Iron Doors” – Stephen Manuel – Irlanda

Melhor Actriz
Seo Yeong-hie – “Bedevilled” – Jang Cheol-so – Coreia do Sul

Melhor Argumento
Elbert van Strien, Paulo van Vliet – “Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda

Melhores Efeitos Especiais
“La Herencia Valdemar II: La Sombra Prohibida” – José Luís Alemán – Espanha

Melhor Curta-metragem
“Brutal Relax” – David Muñoz – Espanha

Secção Oficial 21ª Semana dos Realizadores

Prémio Melhor Filme da Semana dos Realizadores – Prémio Manoel de Oliveira
“The Housemaid” – Im Sang-Soo – Coreia do Sul

Prémio Especial do Júri
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão

Melhor Realizador
“Carancho” – Pablo Trapero – Argentina

Melhor Argumento
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão

Melhor Actor
Jung-Jae Lee – “The Housemaid” – Coreia do Sul

Melhor Actriz
Do-yeon Jeon – “The Housemaid” – Coreia do Sul

Secção Oficial Orient Express

Prémio Melhor Filme Orient Express
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul

Prémio Especial do Júri Orient Express – Prémio International Film Guide (IFG)
“Enemy at the Dead End” – Park Soo- Young – Coreia do Sul

Prémio da Crítica
“Rabies (Kalevet)” – Aharon Keshales, Navot Papushado – Israel

Prémio do Público
“The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec” – Luc Besson – França

Homenagem
Super Bock – 25 anos de patrocínio ao Fantasporto

Prémios Carreira

Mick Garris – Estados Unidos da América

Maria de Medeiros – Portugal

Paulo Trancoso – Portugal

João Meneses – Portugal

Prémio Melhor Filme – Grande Prémio Fantasporto 2011
“Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda 

Prémio Especial do Júri
“A Serbian Film” – Srdjan Spasojevic – Sérvia

Melhor Realização
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul

Melhor Actor
Axel Wedekind – “Iron Doors” – Stephen Manuel – Irlanda

Melhor Actriz
Seo Yeong-hie – “Bedevilled” – Jang Cheol-so – Coreia do Sul

Melhor Argumento
Elbert van Strien, Paulo van Vliet – “Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda

Melhores Efeitos Especiais
“La Herencia Valdemar II: La Sombra Prohibida” – José Luís Alemán – Espanha

Melhor Curta-metragem
“Brutal Relax” – David Muñoz – Espanha

Secção Oficial 21ª Semana dos Realizadores

Prémio Melhor Filme da Semana dos Realizadores – Prémio Manoel de Oliveira
“The Housemaid” – Im Sang-Soo – Coreia do Sul

Prémio Especial do Júri
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão

Melhor Realizador
“Carancho” – Pablo Trapero – Argentina

Melhor Argumento
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão

Melhor Actor
Jung-Jae Lee – “The Housemaid” – Coreia do Sul

Melhor Actriz
Do-yeon Jeon – “The Housemaid” – Coreia do Sul

Secção Oficial Orient Express

Prémio Melhor Filme Orient Express
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul

Prémio Especial do Júri Orient Express – Prémio International Film Guide (IFG)
“Enemy at the Dead End” – Park Soo- Young – Coreia do Sul

Prémio da Crítica
“Rabies (Kalevet)” – Aharon Keshales, Navot Papushado – Israel

Prémio do Público
“The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec” – Luc Besson – França

Homenagem
Super Bock – 25 anos de patrocínio ao Fantasporto

Prémios Carreira

Mick Garris – Estados Unidos da América

Maria de Medeiros – Portugal

Paulo Trancoso – Portugal

João Meneses – Portugal


Alexis Taylor dá-nos Baile

Alexis Taylor, dos Hot Chip, uma banda britânica de electropop formada em 2000, é um dos nomes sonantes desta edição do Baile dos Vampiros.

Num formato renovado, em 2011 a organização propõe um anfitrião. Esta tarefa ficará a cargo do vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal.


Paciência de santo

(Foto: Fantasporto)

Qual é a diferença entre vintage e kitsch? E qual a diferença entre kitsch e piroso? Isto porque “Camino”, o filme de Javier Fesser que ontem encerrou a competição oficial do Fantasporto, fica a meio caminho entre as boas intenções e o mau gosto mais insuportável e irritante.

Porque na verdade, não se percebe se a intenção de Fesser é elevar a força da fé católica ou se, pelo contrário, é gozar indecentemente com os dogmas da igreja e com a hipocrisia de alguns dos seus agentes. Confusão essa, gerada por uma realização desequilibrada, com uma especial apetência pelo piroso e que exagera na transmissão de uma mensagem, Seja ela qual for.

Baseado em factos verídicos, “Camino” é a história de uma menina de 11 anos que, por ter um cancro no cérebro, conquista a hipótese de ser beatificada. Passo a explicar: filha de uma senhora extremamente devota, Camino, de seu nome, está condenada a vir a ser freira, tal e qual como a sua irmã mais velha. Rodeada de religião por todos os lados, a jovem vê o seu calvário ser confundido com uma sequência de milagres e que atingem o seu ponto mais alto quando, já no leito da morte, o seu delírio moribundo é confundido com uma presença às portas do céu e um primeiro contacto imediato com Jesus.

Jesus, é na verdade o nome do rapaz por quem Camino se havia apaixonado, e é a ele que as últimas palavras e pensamentos da menina são dedicados. Estes equívocos chegam a ser tão ridículos que pensamos estar na presença de uma comédia de mau gosto. É precisamente por aqui que começamos a duvidar das verdadeiras intenções do realizador: é “Camino” uma crítica feroz ao comportamento da igreja ou um retrato apaixonado dos milagres de fé?

Convém referir que o filme de Javier Fesser coleccionou prémios em festivais um pouco por toda a Espanha e que o processo de beatificação da pequena Camino está ainda em curso. Se é que alguma destas informações é realmente importante…

No entanto, nem tudo são dúvidas, em “Camino”. Na verdade, saí do filme convencido de duas coisas que parecem não ter discussão: em Espanha, é muito fácil conquistar prémios de cinema, assim como é tremendamente simples ser-se beatificado.

Nuno Matos


A febre do amor

(Foto: Fantasporto)

Eu sei, o título desta crítica é um tudo ou nada piegas. Mas “Febre da Fieno”, filme de estreia da italiana Laura Luchetti, é uma história de amor e de como esse sentimento nos deixa doentes, febris e incapazes de racionalizar normalmente.

A realizadora, presente no Rivoli, fez questão de descrever o seu filme como sendo um moderno conto de fadas. Não diria tanto, mas que é um filme simpático, despreocupado e bem disposto, lá isso é, E produziu esse mesmo efeito nos poucos espectadores que tiveram disponibilidade para o ver.

Passado em Roma, “Febre da Fieno” mostra-nos a vida de um grupo de pessoas, unidas em torno de uma loja de artigos vintage, mas acima de tudo ligadas pelo amor; pelo amor que se sente, pelo amor que se perde e pelo que se conquista. E isso chega para fazer deste um filme bonito, suave e demasiado agradável para se levar a mal alguma pieguice em que incorre, eventualmente.

E depois, como seria possível não gostar de um filme que tem uma banda sonora de eleição, encabeçada por esse génio sentimental de seu nome Devendra Banhart?

Em suma, ” Febre da Fieno” foi um dos filmes simpáticos do Fantasporto 2011 – a par de outra obra italiana, “18 Anno Dopo – e de tal forma influenciou positivamente o público no Rivoli, que ninguém sequer sentiu o choque de transitar da violência de “Secuestrados” para a delicadeza proposta por Laura Luchetti.

Esta é a prova de que todos os géneros cinematográficos podem coexistir pacificamente no mesmo festival, na mesma sala e para o mesmo público. Basta, para isso, que tenham qualidade.

Nuno Matos


Última noite antes dos prémios


“The Rite”, de Mikael Hafstrom


“Splice”, de Vincenzo Natali


“Bedways”, de Rolf Peter Kahl


Como nos bons velhos tempos…

(Foto: Fantasporto)

É tão bom, entrar no Rivoli, acomodar-me naquelas cadeiras que, ao fim de uma semana , o corpo já não suporta, e ser transportado para um tempo em que o Auditório Nacional de Carlos Alberto ainda era uma sala confortável e acolhedora, e em que o Fantasporto era um festival interessante e surpreendente.

 

Momento destes foram raros, na presente edição do Fantas. Até ontem, só por duas ou três vezes, me tinha realmente sentido preso ao ecrã. “Secuestrados” agarrou o público pelos colarinhos, e durante 80 minutos não parou de o sacudir, empurrar, agredir e assustar. Foi, a todos os níveis, o filme mais intenso e violento que passou pelo Rivoli este ano.

Realizado por Miguel Àngel Vivas, “Secuestrados” conta a história de uma família que, na primeira noite na sua casa nova, acaba por viver um pesadelo nada condizente com o que deveria ser uma ocasião festiva. O tema não é original, e a organização do festival compara-o mesmo a “Funny Games”, de Michael Haneke.

A comparação não é descabida. A grande diferença, é que enquanto Haneke realizou um filme que atacava o nervoso miudinho dos espectadores, Vivas apostou na violência pura e dura, não escondendo nada do público. Aliás, essa é uma das qualidades de “Secuestrados”: não há segredos, não há grandes surpresas guardadas e tudo é muito simples e, de certa forma, próximo da realidade.

Genial é a opção do realizador em construir o seu filme através de planos-sequência, alguns de largos minutos, sem no entanto perder qualquer energia, tensão e emoção. E “Secuestrados” é, de facto, um filme que leva estes três atributos ao limite do suportável. Culpa da mão firme do realizador espanhol, e culpa também de um elenco irrepreensível e que se entregou totalmente ao desempenho de papéis nada simples.

Único defeito de “Secuestrados”: não querendo abdicar dos planos-sequência, Miguel Àngel Vivas opta, por vezes, em mostrar duas acções em simultâneo, recorrendo, para isso, ao ecrã dividido. Não funciona. E não funciona porque a acção é tanta e de tal maneira electrizante, que o espectador acaba por não se conseguir concentrar em nenhuma.

É pena. Assim não fosse, e estaríamos perante um filme perfeito. Ainda assim – e pese embora mais uma decisão pouco compreensível da organização, que o empurrou para uma pouco digna primeira sessão da tarde – é muito possível que “Secuestrados” não saia deste Fantasporto de mãos a abanar.

Nuno Matos


Sala cheia para ver uma mão cheia de inadaptados sociais

Bazil é a personagem que desencadeia toda a acção (Foto: Fantasporto)

Micmacs, de Jean-Pierre Jeunet é um filme a jogar em casa. Assim foi, sala completamente cheia, com bilhetes esgotados durante a tarde. Mesmo assim minutos antes do inicio bastantes pessoas ainda tentavam a sua sorte na bilheira e entrada do Rivoli.

A história tem como pano de fundo os bairros da periferia de Paris, da mesma forma como fez  em “A Fabulosa História de Amélie Poulain” e mesmo com essa previsibilidade, “Micmacs” consegue prender a atenção dos espectadores, divertir e trazer à tona um assunto para deixar a pensar. A começar pelo nome dos personagens: Remington, um homem que escreve histórias na máquina de escrever; Fracasse, um homem que só fracassou na vida; e Calculette, uma rapariga que consegue calcular tudo, desde as medidas do seu corpo, até à distância relativa entre dois carros em movimento. Vivem todos em familia, unidos pelas desgraças, motivados a viver um dia depois do outro, numa casa construída em cima de um lixeira, feita apenas com materiais reciclados.

A expectativa era obviamente alta e Com actores acostumados a trabalhar com o realizador, como Dominique Pinon – actor fetish do cineasta que participou em “Delicatessen” e “Amélie”, Dany Boon e André Dussollier, entre outros, “Micmacs à tire-larigot” leva Jeunet a um mundo mais surreal, mais perto de “Delicatessen”, mas esticando mais os limites da farsa. O resultado é um filme bastante cómico, que por vezes porém excede-se na surrealidade e repega em pequenos detalhes já esbatidos, na forma, em outros trabalhos anteriores.

No meio de tanto absurdo é de realçar a sátira à indústria bélica e pela forma como no meio do humor se pode passar uma mensagem bastante critica à forma como a linguagem da guerra se torna tantas vezes a linguagem do nosso dia-a-dia.

Como aperitivo e para abrir o apetite para um filme que não deve demorar muito a estar nas salas aqui ficam umas perguntas para responder:

“É melhor viver com uma bala alojada no cérebro, mesmo que isso signifique que possas morrer a qualquer instante? Ou preferias retirar a bala e viver como um vegetal para o resto da vida? As zebras são brancas com listas pretas, ou pretas com listas brancas? Valem mais os estilhaços que as minas? Cabe uma mulher num frigorífico? Qual o recorde mundial de um homem lançado num canhão?”

Pedro Ferreira


Mais uma noite no Rivoli


“Micmacs”, de Jean-Pierre Jeunet, o realizador multi premiado de “O Fabuloso Destino de Amélie” e “Delicatessen”


“Camino”, de Javier Fesser, filme espanhol premiado com seis Goyas (prémio do cinema espanhol)


Carancho, um abutre vindo da Argentina

As duas personagens principais do filme (Foto: Fantasporto)

Um advogado chamado Sosa, que perdeu sua licença para praticar, mas que continua a trabalhar nas ruas durante a noite de Buenos Aires. Oferecendo aos clientes lesados o serviço de seguros e indemnizações de uma empresa predatória que irá paga-los, entre um quarto ou um quinto do valor, é conhecido nas ruas como abutre. Quando ele encontra pela primeira vez Luján, uma médica que tem um horário sobrecarregado entre emergências de ambulância para ganhar dinheiro extra e a urgência no hospital, ela parece ser o anjo que pode resgatar a existência deste advogado.

Estas duas almas feridas acabam por se apaixonar, é claro, mas este é o tipo de história onde cada um tem segredos que não consegue dizer ao outro não poderá ter um final feliz. Sosa está em dívida com algumas pessoas e acaba fazendo algo que é criminoso e quase imperdoável para Luján.

Trapero mantém a tensão crescente, gradualmente forte, e o director de fotografia Julián Apezteguia alterna entre cores saturadas e nightscapes. Num estilo de filmagem que faz lembrar o filme “Amor Cão”, a velocidade é quase a mesma. Com um esquema de argumento e filmagem como este, seria fácil para “Carancho” ser implacável, até mesmo comicamente sisudo, e há alguns momentos de espiral dos personagens que arrastam toda a história com eles. Entre o advogado que tenta conciliar as contradições inerentes a um homem que foi violentamente empurrado para um mundo violento, mas que parece estranhamente a jogar em casa, e a médica com nuances de junkie, em que o consumo de drogas são consequência quer do ritmo do seu trabalho quer de uma dependência voluntária. Trapero conduz-nos até ao fim com integridade e  para uma chocante conclusão do filme.

É um retrato fiel da corrupção enraizada na sociedade urbana da Argentina. Interessante tanto pela caracterização social como pelas voltas do guião que não nos deixam acomodar. A chave está precisamente na forma como nos obriga a atenção mesmo até ao último frame.

Pedro Ferreira


“R U There”

 

(Foto: Fantasporto)

O cinema, como qualquer outra arte, suponho, é altamente influenciado por acontecimentos marcantes na história da humanidade, modas, tendências e gerações marcantes por uma razão ou outra.

Hoje em dia, é visível a influência da Internet, e especialmente das redes sociais, em muitos dos argumentos que chegam ao grande ecrã. “R U There”, do holandês David Verbeek, por exemplo, tem como ponto de partida as competições de jogos online e o mundo virtual do Second Life, mas é muito mais do que isso.

Jitze, interpretado por Stijn Koomen, é uma espécie de super-estrela dos jogos em rede, e está em Taipé para disputar uma importante competição. Reservado e muito concentrado nos seus objectivos, Jitze vive fechado no seu mundo virtual, pouco dado a contactos de índole social. Até ao dia que conhece Min Min e se apaixona.

É a partir desse momento que percebemos que “R U There” não é um filme sobre o fenómeno da Internet mas sim sobre o isolamento e a dificuldade em comunicar e sobre as diferenças entre culturas. No limite, “R U There” é também uma história de amor. Bonita, diga-se.

O problema reside no ritmo que Verbeek impôs ao seu filme. Tudo é demasiado lento e excessivamente contemplativo. A comparação é exagerada, mas por vezes “R U There” faz lembrar “The Thin Red Line”, de Terrence Malick. Por ser tão pausado, tão silencioso e, aqui e ali, tão poético.

Só que não é Malick quem quer, e as boas intenções do realizador, acabam por prejudicar um filme simpático e de que apetece gostar. Fica a ideia de que um pouco menos de ambição não lhe teria feito mal nenhum.

Nuno Matos


Para molhar o pãozinho

(Foto: Fantasporto)

Não se preocupem, esta crítica não tem nada a ver com culinária. «Molhar o pãozinho» era a expressão favorita do público do Fantasporto quando este ainda era (literalmente) um festival de sangue, tripas e mortes violentas.

Este ano, apesar de já se terem visto algumas coisas do género, nenhum dos filmes tinha cumprido as regras de ouro do bom cinema gore. A espera terminou ao 6º dia de festival e com um improvável filme de terror israelita de seu nome “Rabies” (Kalevet, em hebráico).

Realizado por Ahron Keshales e Navot Paposhaddo, o filme demonstra na perfeição a velha Lei de Murphy, que defende que “se algo pode correr mal, correrá mal da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. E em “Rabies” as coisas correm terrivelmente mal para um grupo de pessoas que, por uma razão ou outra, se encontram na mesma floresta, no pior momento e na pior altura.

Não se sabe se seria essa a intenção dos realizadores, mas é possível ver nestes acontecimentos tenebrosos uma metáfora da condição humana e de como esta facilmente se transforma numa selvajaria irracional. Porque de facto, e pensando bem, nada faz prever a barbárie com que somos presenteados durante uma bem passada hora e meia.

Quando um filme arranca palmas a cada uma das mortes, isso significa duas coisas: que é um filme de «molhar o pãozinho», à boa moda do antigo Fantas, e que, por isso mesmo, diverte o público.

Já aqui foi dito, num post anterior, que o Fantasporto deste ano tem sido marcado por filmes pouco entusiasmantes e, sejamos sinceros, bastante chatos. Por essa razão, ver “Rabies” em clima de festa foi, ao mesmo tempo, nostálgico e muito, muito divertido. Mais um ou outro como ele, e o Fantas 2011 seria bem mais interessante.

Nuno Matos


O diabo no Fantas

(Foto: Fantasporto)

Comecemos por uma previsão:  “I Saw The Devil” vai vencer o Fantasporto 2011.  Já sei, prever estas coisas pode muito bem ser um risco desnecessário. Mas enfim, tantos anos como espectador do Fantas ajudam a perceber quais são os filmes que ainda conseguem impressionar o júri.

Não é a primeira vez que Jee-woon Kim apresenta um filme seu no Fantasporto. Em 2004 venceu o festival com “A Tale of Two Sisters” e em 2009 trouxe o delírio western-spaghetti de seu nome “The Good The Bad The Weird”. Ou seja, é um daqueles nomes cuja descoberta é gritada a plenos pulmões pela organização do Fantas.

Falando do que realmente interessa: o novo filme de Jee-woon Kim é realmente bom e se a previsão se concretizar, e o principal prémio do certame lhe for dirigido, será inteiramente justo. Por todas as razões.

O argumento é genial, a acção e tensão são magistralmente doseadas, e os actores estão em absoluto estado de graça. Min-sik Choi e Byun-hun Lee não são nomes propriamente conhecidos do grande público, mas assinam interpretações electrizantes, de intensidade acima do normal e são os principais culpados por passarmos mais de duas horas agarrados à cadeira. Por prazer, não por medo ou desconforto.

Choi já tinha surpreendido o público do Fantas com um papel igualmente intenso no filme “Oldboy”, de 2003. Em “I Saw The Devil” leva ainda mais longe as suas capacidades e mostra todo o seu potencial de actor. Concorre, sem dúvida, para o prémio de melhor actor do festival.

Em suma: o filme de Jee-woon Kim parece ter enchido a barriga do público presente no Rivoli. Simultaneamente, deu a este Fantas, até agora tão pouco entusiasmante, um cheirinho do que era o bom velho Fantasporto. O festival de cinema de que tanta gente sente ainda falta.

Nuno Matos


Finalmente, ar fresco

(Foto: Fantasporto)

É sabido, o Fantasporto há muito que deixou de ser um festival de cinema de terror e de fantástico. A decisão mudou significativamente o cartaz do certame, que, logicamente, passou a contar com uma maior variedade temática.

As consequências dessa mudança são muitas e, provavelmente, discutíveis, mas a verdade é que essa abertura a outros géneros trouxe ao Porto algumas pérolas da sétima arte. “18 Anni Dopo”, de Edoardo Leo, pode não ser uma pérola, mas é sem dúvida a primeira obra de qualidade indiscutível desta 31ª edição do Fantasporto.

A história é simples e bem contada, sem grandes reviravoltas e complicações desnecessárias. O sentido de humor tipicamente italiano conquista-nos, e o pequeno (sem exageros) drama familiar comove o suficiente para nos sentirmos na pele daquelas pessoas. É uma história simples, repito, mas tocante e muito bem gerida por um realizador que se estreia, da melhor maneira, no grande ecrã.

De Edoardo Leo interessa dizer que é um actor italiano com larga experiência na televisão, que havia já realizado um tele-filme e que, nesta obra, assina, não só a realização, como também um dos papéis principais. E que papel! O seu Mirko é, indiscutivelmente, o ponto mais alto de um filme que prima pelo equilíbrio e pela discrição. Mirko é, simultaneamente, a personificação do drama e da comédia em “18 Anni Dopo”.

É realmente uma pena, um filme destes não ter honras de horário nobre no Fantasporto. A haver alguma justiça na hora de decidir prémios, “18 Anni Dopo” pode muito bem ser um dos mais galardoados e Edoardo Leo distinguido como o melhor actor.

Nuno Matos


Rumo ao Oriente no comboio do cinema Sul Coreano

Cena do filme “Siworae” de Lee Hyun-seung, adaptado mais tarde por Hollywood com o título “The Lake House”

Em 1999, “Shiri” tornou-se o filme de maior sucesso na história  do cinema sul-coreano, campeão de bilheteira não só na Coreia do Sul, mas também de Hollywood. Na verdade, o filme é tão assertivo e emocionante como qualquer produção americana a que estamos habituados. Enquanto os especialistas em cinema, apesar de cientes do sucesso e do porquê, do realizador Im Kwon-taek, as entradas em festivais multiplicaram-se pelo mundo todo. Em casa, “Shiri” marcou o início de um renascimento de uma indústria comercialmente viável, artisticamente aclamada que lançou a Coreia no palco global.

Apenas dois anos após a sua produção, filmes coreanos no próprio país conseguiam o domínio de bilheteira, algo que não acontecia antes perante o monstro concorrencial de Hollywood.

Enquanto o cinema americano continua cheio de filmes adaptados da BD, jogos de computador, “remakes” e sequelas, as coisas não são o mesmo no resto do mundo. Como o cinema mundial se está a tornar menos dominado por uma constante saturação de filmes americanos, destaca-se hoje uma das escolas que nos tem chegado muito por culpa do Fantasporto.

A Coreia do Sul tem visto um aumento de produção e distribuição do seu cinema nos últimos dez anos. Produzindo filmes que são experimentais e divertidos ao mesmo tempo, as histórias abraçam facilmente as plateias. Não são só os fãs de cinema puro que o reconhecem mas Hollywood também, ao tentar produzir “remakes” de alguns dos mais conhecidos filmes da geração actual de realizadores sul-coreanos.

Qual a chave para o sucesso do cinema sul-coreano? É sobre a história, não é apenas como criar uma boa história mas com a qual o público se pode relacionar. Fazem-no sobre a vida familiar disfuncional, tradicional ou não-tradicional e como cada um de nós lida com ela. Sobre a violência física e psicológica, tantas vezes sobre vingança. Sempre com muita reflexão sobre a condição humana e sobre a forma como vivemos na sociedade actual. Desligados pelos telemóveis, computadores e todos os outros meios de relacionamento. Depois, é só adicionar as explosões, as ondas gigantes, monstros, vampiros, loucos ou qualquer trama secundária que toda a gente gosta de ver em cinema mas sempre no meio do caos já instalado.

Sem viver lá ou alguma vez ter visitado sequer a Coreia do Sul, só resta especular sobre aqueles que crescem num país que teve e tem uma história turbulenta com o país vizinho a norte e variados sistemas políticos presentes nos países em torno dele. Serão as razões históricas e sociais factor para despoletar este tipo de cinema?

Pedro Ferreira


À noitinha no Fantas


“The Chameleon”, de Jean Paul Salomé


“I Saw The Devil” de Kim Jee-woon, vencedor do Fantasporto em 2004 com o filme “A Tale of Two Sisters”


Fantasporto: site de cara lavada

Imagem de abertura do novo site do Fantasporto

Visita em: Site Oficial do Fantasporto


Mistérios do Fantasporto

(Foto: Pedro Ferreira)

Quem acompanha o Fantasporto com regularidade, já se terá deparado, certamente, com dois dos maiores mistérios do festival. O primeiro, saber quem, afinal, escreve as delirantes e irreais sinopses dos filmes a concurso; o segundo, perceber como é gerida a programação e calendarização das sessões.

Em relação às sinopses, o melhor que delas se pode dizer é que são verdadeiramente um exemplo de uma de duas coisas: ou de uma criatividade sem limites, ou de como é possível descrever um filme sem o ter visto. Porque estão tão longe da realidade que é fácil acreditarmos que o erro foi nosso e que o filme que acabámos de ver, obviamente não é o mesmo cuja descrição havíamos lido. Ontem, por exemplo, e segundo a organização do Fantas, a programação apresentava “Red Nights”, um «fantástico thriller fetichista sobre sadismo», e “Two Staring Eyes”, um «sofisticado thriller psicológico com tons de horror» e que, ainda segundo o escriba responsável pelas sinopses, «a fazer lembrar os filmes de David Lynch e Alfred Hitchcock»

Vamos por partes: “Red Nights”, para além de ser um filme absolutamente desinteressante, não é sobre sadismo e é superficialmente fetichista, já que uma das personagens retira prazer da tortura física. E mais nada.

No caso de ”Two Staring Eyes”, o delírio da sinopse atinge níveis preocupantes. O filme não de forma alguma sofisticado e em nenhum momento apresenta parecenças com Hitchcock ou Lynch. Nem de perto nem de longe. Das duas, uma: ou o autor da sinopse nunca viu os filmes destes dois mestres absolutos da sétima arte, ou está intencionalmente a fazer publicidade enganosa. Ou seja, o problema poderá ser mais grave do que parece.

O segundo mistério do Fantasporto está relacionado com o programa do festival. O que leva a organização a empurrar filmes de qualidade para horários que, à partida, implicam uma sala quase vazia e, por outro lado, a dar a obras desinteressantes, honras de horário nobre e, logo, sala lotada? Obras como “9:06″, que na primeira sessão da noite de ontem, teve o condão de adormecer o público do Rivoli, como se de um infantário se tratasse.

São mistérios insondáveis, e que sempre fizeram parte integrante do Fantasporto mas não desta forma. Não do lado de cá do grande ecrã. Não de forma a prejudicar a própria qualidade do festival que quer ser o maior de Portugal.

Nuno Matos


A Tempestade que varreu o Fantasporto

Prospera na invocação dos poderes com que combate os seus antigos rivais (Foto: Fantasporto)

Julie Taymor adapta para versão cinematográfica “A Tempestade”, de William Shakespeare. É uma produção pictórica cheia de cor, movimento e paixão. Junta com um elenco de estrelas e só não é um sucesso maior em Portugal porque as pessoas ainda vivem de muitos preconceitos contra o teatro e contra tudo o que não é prazer imediato. Não há surpresas na história, não e não é suposto.

Helen Mirren interpreta o Prospera (que é um personagem masculino chamado Prospero, no original). Prospera, que se tornou a legítima Duque de Milão, quando o marido morreu, foi exilada para uma ilha deserta, junto com a sua filha Miranda, de três anos, pelos adversários. Doze anos se passaram, e Prospera sente que agora é a hora certa para utilizar os seus poderes sobrenaturais e se vingar daqueles que a feriram e humilharam.

A eficácia global do filme reside na fusão dos conflitos humanos contra a presença monumental da natureza. Os aspectos desconfortáveis ao ar livre do filme foram filmadas em Lanai (Hawai), não é o meio habitual que estamos habituados a ver deste local, mas uma área dura, rochosas vulcânicas, pouco acolhedora. Os antagonismos da peça devem lutar contra este pano de fundo duro, enquanto Prospera, com o bastão mágico, relógios e espíritos controla as suas lutas de longe, no topo de um penhasco, com conforto e satisfação.

Sandy Powell criou os figurinos que completam um cuidado fotográfico exímio. Toda a música foi composta por Elliot Goldenthal, colaborador de longa data Taymor. Goldenthal criou também as canções adaptadas de Shakespeare, quer para os momentos de solo, quer para os coros.

Um “pacote” cinematográfico bastante agradável dentro do estilo, fotograficamente brilhante, concretiza uma adaptação ao cinema de uma das maiores referências do teatro.

Nota: não poderia deixar passar em claro a forma como uma boa parte da sala se comportou durante a sessão. Não são desculpáveis os suspiros enfadonhos e a forma como algumas pessoas de comportaram, como crianças a fazerem um frete. Se não sabiam, já deviam saber ao que iam. Estava bem explicito que era uma adaptação da peça de Shakespeare, são mais que conhecidos os pormenores fílmicos e de argumento. Se estavam à espera de uma alteração profunda dos diálogos enganaram-se. E já agora para quem achou que pessoas a cantar não era dali, consultem o texto original ou vejam no teatro e reparem que os coros existem.
A Tempestade devia começar nas mentalidades!

Pedro Ferreira