Antevendo a sessão de abertura
A escolha do filme de abertura oficial, à primeira vista, dificilmente poderia estar mais afastada do terror ou do fantástico. Afinal, Che é um biopic de uma figura por demais mediatizada, e a realização é de Steven Soderbergh, um mercenário maquilhado como auteur. Mas este díptico de reflexão sobre a vida do revolucionário argentino tem recolhido muito boas reacções por onde passou, nomeadamente em Sundance.
The Argentine é a primeira parte desta biografia de Che Guevara, e acompanha o Comandante desde o encontro com Fidel Castro no México até à vitória sobre o regime de Batista, com pequenas prolepses do pós-revolução a entremear a narrativa. The Guerrilla, uma segunda parte bem separada da primeira por tom e cinematografia, não faz parte da programação do Fantas. A projecção de The Argentine vai ser precedida por um clip de dez minutos do filme The Wolfman, a homenagem por Joe Johnston ao monstro clássico da Universal.

«The Deal», de Steven Schachter
Mas o dia de inauguração da competição do Fantasporto vai estar recheado de opções. A seguir à primeira sessão, o Grande Auditório recebe The Deal, um filme de Steven Schachter com Elliot Gould e William H Macy, este último também o autor do guião. À uma e quinze de sábado, vai poder ser revisto o Final Cut de Blade Runner – obrigatório para quem perdeu a sessão do dia 16, ou a adorou. Já no Pequeno Auditório, poder-se-à assistir a: Bellini e o Demónio, um filme brasileiro em antestreia; Samurai Avenger, um midnight movie delirante; e Schramm, que abrirá a retrospectiva de Jorg Buttgereit (o autor estará presente no Fantas no dia 23).
Fantas ocupa Rivoli até 1 de Março
Mais um ano, mais um Fantasporto. Entre os habituais ciclos e retrospectivas, da programação do festival destacam-se a mostra de cinema galego, a homenagem ao realizador Fonseca e Costa, e um catálogo alargado de curtas-metragens europeias. O filme de abertura é Che – The Argentine de Steven Soderbergh, e a sessão de encerramento será com Adam Ressurrected de Paul Schrader. A experiência de midnight movies no Sá da Bandeira não se repete nesta edição.
Antes da abertura oficial do Fantas a 20 de Fevereiro, o festival vai brindar-nos com um ciclo submetido ao tema As Ruínas do Futuro. Este ciclo abriu ontem o Grande Auditório com Blade Runner (no ano passado o Fantas tentou trazer o Final Cut mas não conseguiu), e conta ainda com Metropolis, e Immortel, entre outros. O valor acrescentado, a conferência, terá a sua primeira parte hoje, dia 17, e a segunda e última parte no dia 19. Esta conferência é comissariada pelo arquitecto Jorge Patrício Martins e tem o apoio da Ordem dos Arquitectos. Durante este período, o Pequeno Auditório vai receber uma mini-retrospectiva de Mario Bava, o prolífico mestre do giallo, no Pequeno Auditório. Embora com uma selecção reduzidíssima, vamos poder encontrar favoritos como Black Sunday, The Girl Who Knew Too Much ou Kill, Baby… Kill.
No dia 20, sexta-feira, a competição do festival vai abrir com a estreia de Che – The Argentine, de Steven Soderbergh. The Argentine é somente a primeira parte da biopic de Che Guevara, e lidará sobretudo com a revolução cubana. The Guerrilla, a segunda parte, poderá ter sido deixada de fora não só pela duração (em conjunto, perfazem um biopic com mais de quatro horas) mas também porque a segunda parte, que incide sobre a luta de Che na América do Sul, parece ter um ritmo demasiado lento para o glamour de uma sessão de abertura. Esta sessão é precedida por uma preview de dez minutos do filme The Wolfman, a homenagem ao monstro clássico da Universal realizada por Joe Johnston.
Após a sessão de abertura, está lançada a competição. As secções são as já habituais: Cinema Fantástico, Semana dos Realizadores, Orient Express e os prémios Mélies de Prata. Este ano o Fantasporto vai homenagear a carreira de José Fonseca e Costa (foto), mais uma grande figura do Cinema Novo português. O cineasta vai ter uma retrospectiva de seis dos seus filmes no festival, culminando com uma entrevista no palco do Pequeno Auditório no dia 26 de Fevereiro. Está também prevista a presença de duas grandes figuras do cinema internacional: Paul Schrader e Wim Wenders. Schrader, argumentista de Taxi Driver e Raging Bull vem apresentar o seu filme Adam Ressurrected, uma adaptação literária que segue a história de um sobrevivente do holocausto internado num sanatório. Wim Wenders traz-nos Palermo Shooting, a história da fuga de um fotógrafo para Itália, a fim de expandir os seus horizontes.
Outra retrospectiva de nota é a de Jorg Buttgereit. O cineasta de culto alemão fez carreira como o polémico retratista de morte, sexo e violência. Os filmes que podem ser vistos no Fantas foram objecto de repúdio e banidos numa longa lista de países. Por estas e outras razões são objectos difíceis de encontrar para o consumidor comum, havendo aqui uma oportunidade única para os ver como merecem: em salas escuras com audiências a reagirem em uníssono.
O Fantasporto deste ano, como noutros, possui um catálogo extenso repleto de nomes sonantes e projecções únicas que farão as delícias dos cinéfilos. Mas também podemos contar com outras tradições: projecção de DVDs no pequeno auditório, discursos a pedinchar, horários de filmes da competição em conflito. Mas nada disto diminui a experiência do maior festival de cinema do país ter lugar na cidade-nação do Porto.
Acompanhem este espaço para as reportagens da equipa JUP-Rascunho.



