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Quem acompanha o Fantasporto com regularidade, já se terá deparado, certamente, com dois dos maiores mistérios do festival. O primeiro, saber quem, afinal, escreve as delirantes e irreais sinopses dos filmes a concurso; o segundo, perceber como é gerida a programação e calendarização das sessões.
Em relação às sinopses, o melhor que delas se pode dizer é que são verdadeiramente um exemplo de uma de duas coisas: ou de uma criatividade sem limites, ou de como é possível descrever um filme sem o ter visto. Porque estão tão longe da realidade que é fácil acreditarmos que o erro foi nosso e que o filme que acabámos de ver, obviamente não é o mesmo cuja descrição havíamos lido. Ontem, por exemplo, e segundo a organização do Fantas, a programação apresentava “Red Nights”, um «fantástico thriller fetichista sobre sadismo», e “Two Staring Eyes”, um «sofisticado thriller psicológico com tons de horror» e que, ainda segundo o escriba responsável pelas sinopses, «a fazer lembrar os filmes de David Lynch e Alfred Hitchcock»
Vamos por partes: “Red Nights”, para além de ser um filme absolutamente desinteressante, não é sobre sadismo e é superficialmente fetichista, já que uma das personagens retira prazer da tortura física. E mais nada.
No caso de ”Two Staring Eyes”, o delírio da sinopse atinge níveis preocupantes. O filme não de forma alguma sofisticado e em nenhum momento apresenta parecenças com Hitchcock ou Lynch. Nem de perto nem de longe. Das duas, uma: ou o autor da sinopse nunca viu os filmes destes dois mestres absolutos da sétima arte, ou está intencionalmente a fazer publicidade enganosa. Ou seja, o problema poderá ser mais grave do que parece.
O segundo mistério do Fantasporto está relacionado com o programa do festival. O que leva a organização a empurrar filmes de qualidade para horários que, à partida, implicam uma sala quase vazia e, por outro lado, a dar a obras desinteressantes, honras de horário nobre e, logo, sala lotada? Obras como “9:06″, que na primeira sessão da noite de ontem, teve o condão de adormecer o público do Rivoli, como se de um infantário se tratasse.
São mistérios insondáveis, e que sempre fizeram parte integrante do Fantasporto mas não desta forma. Não do lado de cá do grande ecrã. Não de forma a prejudicar a própria qualidade do festival que quer ser o maior de Portugal.
Nuno Matos
Julie Taymor adapta para versão cinematográfica “A Tempestade”, de William Shakespeare. É uma produção pictórica cheia de cor, movimento e paixão. Junta com um elenco de estrelas e só não é um sucesso maior em Portugal porque as pessoas ainda vivem de muitos preconceitos contra o teatro e contra tudo o que não é prazer imediato. Não há surpresas na história, não e não é suposto.
Helen Mirren interpreta o Prospera (que é um personagem masculino chamado Prospero, no original). Prospera, que se tornou a legítima Duque de Milão, quando o marido morreu, foi exilada para uma ilha deserta, junto com a sua filha Miranda, de três anos, pelos adversários. Doze anos se passaram, e Prospera sente que agora é a hora certa para utilizar os seus poderes sobrenaturais e se vingar daqueles que a feriram e humilharam.
A eficácia global do filme reside na fusão dos conflitos humanos contra a presença monumental da natureza. Os aspectos desconfortáveis ao ar livre do filme foram filmadas em Lanai (Hawai), não é o meio habitual que estamos habituados a ver deste local, mas uma área dura, rochosas vulcânicas, pouco acolhedora. Os antagonismos da peça devem lutar contra este pano de fundo duro, enquanto Prospera, com o bastão mágico, relógios e espíritos controla as suas lutas de longe, no topo de um penhasco, com conforto e satisfação.
Sandy Powell criou os figurinos que completam um cuidado fotográfico exímio. Toda a música foi composta por Elliot Goldenthal, colaborador de longa data Taymor. Goldenthal criou também as canções adaptadas de Shakespeare, quer para os momentos de solo, quer para os coros.
Um “pacote” cinematográfico bastante agradável dentro do estilo, fotograficamente brilhante, concretiza uma adaptação ao cinema de uma das maiores referências do teatro.
Nota: não poderia deixar passar em claro a forma como uma boa parte da sala se comportou durante a sessão. Não são desculpáveis os suspiros enfadonhos e a forma como algumas pessoas de comportaram, como crianças a fazerem um frete. Se não sabiam, já deviam saber ao que iam. Estava bem explicito que era uma adaptação da peça de Shakespeare, são mais que conhecidos os pormenores fílmicos e de argumento. Se estavam à espera de uma alteração profunda dos diálogos enganaram-se. E já agora para quem achou que pessoas a cantar não era dali, consultem o texto original ou vejam no teatro e reparem que os coros existem.
A Tempestade devia começar nas mentalidades!
Pedro Ferreira
9:06, de Igor Sterk
The Tempest, de Julie Taymor
Wikluh Sky é um “rapper” e produtor sérvio, mais conhecido por ser uma parte do trio de hip-hop, Bad Copy, participa no projecto Shappa e mantém uma carreira a solo. Wikluh Sky também é o compositor do filme sérvio, que tantas reacções indignadas tem provocado.
A banda sonora oscila entre a batida “hardcore” instrumental (com um kick-clap) e “dubstep”. A intensidade é constante e cria nos espectadores uma sensação de ânsia que dura durante o filme todo. O fim não é sequer previsível pela música porque essa mesma intensidade mantém-se e prolonga-se pelos créditos finais. Naturalmente que o visual deste filme é forte e é a principal causa de todos os comentários e polémicas mas depois de o ver por uma segunda vez posso dizer com toda a certeza que a banda sonora tem uma boa parte de culpa em todo o processo.
Se duvidam podem ouvir no link mais abaixo. Experimentam várias vezes seguidas e mesmo sem imagens fica qualquer coisa de incómodo.
Assumo: apetece-me falar mal de “A Serbian Film” (Srpski Film). Por dois motivos: primeiro, porque uma pequeníssima parte de mim enquanto espectador ainda acredita na publicidade que antecede a estreia de um filme; segundo, porque este filme em particular é realmente mau.
E a fama de “A Serbian Film” prometia. Filme-choque do ano, polémico, pornográfico, violento, ofensivo, repulsivo e tudo o que normalmente não se espera encontrar ao mesmo tempo em pouco mais de hora e meia de cinema. O problema é que nestas coisas das catalogações há uma parte importante da verdade que fica sempre de fora: a parte em que se destaca a baixa qualidade do filme. E o primeiro trabalho do sérvio Srdjan Spasojevic é irremediavelmente fraquinho. Por muito que o cineasta tenha subido ao palco do Rivoli para explicar que, para lá de toda a violência explícita, existe aqui uma poderosa metáfora sobre a Sérvia do pós-guerra, a verdade é que essa mensagem – ou qualquer outra, para os devidos efeitos – não chega sequer a ser residual. O mesmo é dizer que todos os ingredientes que deram fama a “A Serbian Film” parecem gratuitos e desprovidos de sentido. De tal forma que a única característica que o torna mesmo insuportável é o absoluto tédio a que sujeita os espectadores durante uns longos, longuíssimos 60 minutos.
Há, no entanto, que louvar o principal objectivo de Spasojevic e que é provocar o público. Um público que começava a estar demasiado acomodado a um cinema politicamente correcto. Ideal seria tê-lo feito com uma obra de alguma qualidade, que honrasse a coragem de se mostrar o que normalmente se esconde e que, no mínimo, conseguisse prender o espectador à cadeira por outras razões que não a curiosidade mórbida.
E volto a assumir a vontade que tenho de maltratar “A Serbian Film”. Porque é mau, muito mau, terrivelmente mau.
Já começava a fazer falta um filme como “The Last Employee”, nesta edição do Fantas. E porquê? Porque apesar dos organizadores insistirem em como este já não é um certame dedicado ao terror e ao fantástico, a verdade é que a maioria do público presente no Rivoli passa os dias à espera de, no mínimo, um calafrio desconfortável.
E o filme do alemão Alexander Adolph tem isso e muito mais. Não sendo uma obra de terror puro e duro, “The Last Employee” vive de um ambiente frio, rígido e filmado de uma forma quase geométrica, quase monocromática. Um ambiente pontuado por pequenos momentos desconfortáveis e inquietantes e que, num crescendo inteligentemente gerido pelo realizador, colocam o público na pele do protagonista.
Que, diga-se, não é um bom sítio para se estar. O desconforto é constante, a incerteza, permanente, e a dúvida sobre se o que estamos a viver é uma história de fantasmas ou o produto de uma mente descontrolada, incómoda. Por isso mesmo, damos por nós a torcer para que seja somente o comportamento errático de um espírito do além.
Revelar esse segredo é, como sempre, arruinar o seu efeito num filme inteligente, despretensioso e brilhantemente realizado por um cineasta com uma carreira de apenas quatro anos.
Por fim, uma referência muito especial ao trabalho de um actor que, à partida, ninguém dirá conhecer, mas que já participou em “Inglourious Basterds”, por exemplo. Christian Berkel é simplesmente magnífico no seu retrato de um homem instável e que esconde muito mais do que se pode imaginar e é desde já um dos favoritos para o prémio de melhor actor deste Fantasporto 2011.
The Housemaid, de Im Sang_Soo às 21h15
A Serbian Film, de Srdjan Spasojevic, às 23h15