Especial Rascunho e JUP

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Baile dos Vampiros

O Baile dos Vampiros vai-se realizar no Teatro Sá da Bandeira no dia 5 de Março e o principal objectivo é que seja de facto “a” festa de carnaval.

O formato vai ser diferente do dos outros anos. Apesar da habitual predominância musical, este ano a festa vai ter outra dinâmica, muito mais vocacionada para a qualidade do “baile” em si, contando com um anfitrião e uma narrativa para o evento integral. Está a ser desenvolvido um espectáculo multimédia original e uma encenação, com inspiração no cinema, no ambiente burlesco e no conceito baile de máscaras.

Este ano o dress code será de personagens de cinema e será uma noite de Cocktails temáticos.

Surge o conceito de anfitrião e mestre de cerimónias, encarnado por Adolfo Luxúria Canibal, poeta e músico dos Mão Morta.  Alexis Taylor vocalista da banda londrina Hot Chip, conhecida também pelas suas remisturas e actividade paralela de Djing, e os Filthy Dukes serão os cabeças de cartaz. Outros nomes da noite contam com a actual coqueluche da Schizzofrenik, os Tigre Deficiente, seguidos dos Bandido$ e de Funkéstu.

Carancho, um abutre vindo da Argentina

As duas personagens principais do filme (Foto: Fantasporto)

Um advogado chamado Sosa, que perdeu sua licença para praticar, mas que continua a trabalhar nas ruas durante a noite de Buenos Aires. Oferecendo aos clientes lesados o serviço de seguros e indemnizações de uma empresa predatória que irá paga-los, entre um quarto ou um quinto do valor, é conhecido nas ruas como abutre. Quando ele encontra pela primeira vez Luján, uma médica que tem um horário sobrecarregado entre emergências de ambulância para ganhar dinheiro extra e a urgência no hospital, ela parece ser o anjo que pode resgatar a existência deste advogado.

Estas duas almas feridas acabam por se apaixonar, é claro, mas este é o tipo de história onde cada um tem segredos que não consegue dizer ao outro não poderá ter um final feliz. Sosa está em dívida com algumas pessoas e acaba fazendo algo que é criminoso e quase imperdoável para Luján.

Trapero mantém a tensão crescente, gradualmente forte, e o director de fotografia Julián Apezteguia alterna entre cores saturadas e nightscapes. Num estilo de filmagem que faz lembrar o filme “Amor Cão”, a velocidade é quase a mesma. Com um esquema de argumento e filmagem como este, seria fácil para “Carancho” ser implacável, até mesmo comicamente sisudo, e há alguns momentos de espiral dos personagens que arrastam toda a história com eles. Entre o advogado que tenta conciliar as contradições inerentes a um homem que foi violentamente empurrado para um mundo violento, mas que parece estranhamente a jogar em casa, e a médica com nuances de junkie, em que o consumo de drogas são consequência quer do ritmo do seu trabalho quer de uma dependência voluntária. Trapero conduz-nos até ao fim com integridade e  para uma chocante conclusão do filme.

É um retrato fiel da corrupção enraizada na sociedade urbana da Argentina. Interessante tanto pela caracterização social como pelas voltas do guião que não nos deixam acomodar. A chave está precisamente na forma como nos obriga a atenção mesmo até ao último frame.

Pedro Ferreira

“R U There”

 

(Foto: Fantasporto)

O cinema, como qualquer outra arte, suponho, é altamente influenciado por acontecimentos marcantes na história da humanidade, modas, tendências e gerações marcantes por uma razão ou outra.

Hoje em dia, é visível a influência da Internet, e especialmente das redes sociais, em muitos dos argumentos que chegam ao grande ecrã. “R U There”, do holandês David Verbeek, por exemplo, tem como ponto de partida as competições de jogos online e o mundo virtual do Second Life, mas é muito mais do que isso.

Jitze, interpretado por Stijn Koomen, é uma espécie de super-estrela dos jogos em rede, e está em Taipé para disputar uma importante competição. Reservado e muito concentrado nos seus objectivos, Jitze vive fechado no seu mundo virtual, pouco dado a contactos de índole social. Até ao dia que conhece Min Min e se apaixona.

É a partir desse momento que percebemos que “R U There” não é um filme sobre o fenómeno da Internet mas sim sobre o isolamento e a dificuldade em comunicar e sobre as diferenças entre culturas. No limite, “R U There” é também uma história de amor. Bonita, diga-se.

O problema reside no ritmo que Verbeek impôs ao seu filme. Tudo é demasiado lento e excessivamente contemplativo. A comparação é exagerada, mas por vezes “R U There” faz lembrar “The Thin Red Line”, de Terrence Malick. Por ser tão pausado, tão silencioso e, aqui e ali, tão poético.

Só que não é Malick quem quer, e as boas intenções do realizador, acabam por prejudicar um filme simpático e de que apetece gostar. Fica a ideia de que um pouco menos de ambição não lhe teria feito mal nenhum.

Nuno Matos

Para molhar o pãozinho

(Foto: Fantasporto)

Não se preocupem, esta crítica não tem nada a ver com culinária. «Molhar o pãozinho» era a expressão favorita do público do Fantasporto quando este ainda era (literalmente) um festival de sangue, tripas e mortes violentas.

Este ano, apesar de já se terem visto algumas coisas do género, nenhum dos filmes tinha cumprido as regras de ouro do bom cinema gore. A espera terminou ao 6º dia de festival e com um improvável filme de terror israelita de seu nome “Rabies” (Kalevet, em hebráico).

Realizado por Ahron Keshales e Navot Paposhaddo, o filme demonstra na perfeição a velha Lei de Murphy, que defende que “se algo pode correr mal, correrá mal da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. E em “Rabies” as coisas correm terrivelmente mal para um grupo de pessoas que, por uma razão ou outra, se encontram na mesma floresta, no pior momento e na pior altura.

Não se sabe se seria essa a intenção dos realizadores, mas é possível ver nestes acontecimentos tenebrosos uma metáfora da condição humana e de como esta facilmente se transforma numa selvajaria irracional. Porque de facto, e pensando bem, nada faz prever a barbárie com que somos presenteados durante uma bem passada hora e meia.

Quando um filme arranca palmas a cada uma das mortes, isso significa duas coisas: que é um filme de «molhar o pãozinho», à boa moda do antigo Fantas, e que, por isso mesmo, diverte o público.

Já aqui foi dito, num post anterior, que o Fantasporto deste ano tem sido marcado por filmes pouco entusiasmantes e, sejamos sinceros, bastante chatos. Por essa razão, ver “Rabies” em clima de festa foi, ao mesmo tempo, nostálgico e muito, muito divertido. Mais um ou outro como ele, e o Fantas 2011 seria bem mais interessante.

Nuno Matos

O diabo no Fantas

(Foto: Fantasporto)

Comecemos por uma previsão:  “I Saw The Devil” vai vencer o Fantasporto 2011.  Já sei, prever estas coisas pode muito bem ser um risco desnecessário. Mas enfim, tantos anos como espectador do Fantas ajudam a perceber quais são os filmes que ainda conseguem impressionar o júri.

Não é a primeira vez que Jee-woon Kim apresenta um filme seu no Fantasporto. Em 2004 venceu o festival com “A Tale of Two Sisters” e em 2009 trouxe o delírio western-spaghetti de seu nome “The Good The Bad The Weird”. Ou seja, é um daqueles nomes cuja descoberta é gritada a plenos pulmões pela organização do Fantas.

Falando do que realmente interessa: o novo filme de Jee-woon Kim é realmente bom e se a previsão se concretizar, e o principal prémio do certame lhe for dirigido, será inteiramente justo. Por todas as razões.

O argumento é genial, a acção e tensão são magistralmente doseadas, e os actores estão em absoluto estado de graça. Min-sik Choi e Byun-hun Lee não são nomes propriamente conhecidos do grande público, mas assinam interpretações electrizantes, de intensidade acima do normal e são os principais culpados por passarmos mais de duas horas agarrados à cadeira. Por prazer, não por medo ou desconforto.

Choi já tinha surpreendido o público do Fantas com um papel igualmente intenso no filme “Oldboy”, de 2003. Em “I Saw The Devil” leva ainda mais longe as suas capacidades e mostra todo o seu potencial de actor. Concorre, sem dúvida, para o prémio de melhor actor do festival.

Em suma: o filme de Jee-woon Kim parece ter enchido a barriga do público presente no Rivoli. Simultaneamente, deu a este Fantas, até agora tão pouco entusiasmante, um cheirinho do que era o bom velho Fantasporto. O festival de cinema de que tanta gente sente ainda falta.

Nuno Matos

Finalmente, ar fresco

(Foto: Fantasporto)

É sabido, o Fantasporto há muito que deixou de ser um festival de cinema de terror e de fantástico. A decisão mudou significativamente o cartaz do certame, que, logicamente, passou a contar com uma maior variedade temática.

As consequências dessa mudança são muitas e, provavelmente, discutíveis, mas a verdade é que essa abertura a outros géneros trouxe ao Porto algumas pérolas da sétima arte. “18 Anni Dopo”, de Edoardo Leo, pode não ser uma pérola, mas é sem dúvida a primeira obra de qualidade indiscutível desta 31ª edição do Fantasporto.

A história é simples e bem contada, sem grandes reviravoltas e complicações desnecessárias. O sentido de humor tipicamente italiano conquista-nos, e o pequeno (sem exageros) drama familiar comove o suficiente para nos sentirmos na pele daquelas pessoas. É uma história simples, repito, mas tocante e muito bem gerida por um realizador que se estreia, da melhor maneira, no grande ecrã.

De Edoardo Leo interessa dizer que é um actor italiano com larga experiência na televisão, que havia já realizado um tele-filme e que, nesta obra, assina, não só a realização, como também um dos papéis principais. E que papel! O seu Mirko é, indiscutivelmente, o ponto mais alto de um filme que prima pelo equilíbrio e pela discrição. Mirko é, simultaneamente, a personificação do drama e da comédia em “18 Anni Dopo”.

É realmente uma pena, um filme destes não ter honras de horário nobre no Fantasporto. A haver alguma justiça na hora de decidir prémios, “18 Anni Dopo” pode muito bem ser um dos mais galardoados e Edoardo Leo distinguido como o melhor actor.

Nuno Matos

Rumo ao Oriente no comboio do cinema Sul Coreano

Cena do filme “Siworae” de Lee Hyun-seung, adaptado mais tarde por Hollywood com o título “The Lake House”

Em 1999, “Shiri” tornou-se o filme de maior sucesso na história  do cinema sul-coreano, campeão de bilheteira não só na Coreia do Sul, mas também de Hollywood. Na verdade, o filme é tão assertivo e emocionante como qualquer produção americana a que estamos habituados. Enquanto os especialistas em cinema, apesar de cientes do sucesso e do porquê, do realizador Im Kwon-taek, as entradas em festivais multiplicaram-se pelo mundo todo. Em casa, “Shiri” marcou o início de um renascimento de uma indústria comercialmente viável, artisticamente aclamada que lançou a Coreia no palco global.

Apenas dois anos após a sua produção, filmes coreanos no próprio país conseguiam o domínio de bilheteira, algo que não acontecia antes perante o monstro concorrencial de Hollywood.

Enquanto o cinema americano continua cheio de filmes adaptados da BD, jogos de computador, “remakes” e sequelas, as coisas não são o mesmo no resto do mundo. Como o cinema mundial se está a tornar menos dominado por uma constante saturação de filmes americanos, destaca-se hoje uma das escolas que nos tem chegado muito por culpa do Fantasporto.

A Coreia do Sul tem visto um aumento de produção e distribuição do seu cinema nos últimos dez anos. Produzindo filmes que são experimentais e divertidos ao mesmo tempo, as histórias abraçam facilmente as plateias. Não são só os fãs de cinema puro que o reconhecem mas Hollywood também, ao tentar produzir “remakes” de alguns dos mais conhecidos filmes da geração actual de realizadores sul-coreanos.

Qual a chave para o sucesso do cinema sul-coreano? É sobre a história, não é apenas como criar uma boa história mas com a qual o público se pode relacionar. Fazem-no sobre a vida familiar disfuncional, tradicional ou não-tradicional e como cada um de nós lida com ela. Sobre a violência física e psicológica, tantas vezes sobre vingança. Sempre com muita reflexão sobre a condição humana e sobre a forma como vivemos na sociedade actual. Desligados pelos telemóveis, computadores e todos os outros meios de relacionamento. Depois, é só adicionar as explosões, as ondas gigantes, monstros, vampiros, loucos ou qualquer trama secundária que toda a gente gosta de ver em cinema mas sempre no meio do caos já instalado.

Sem viver lá ou alguma vez ter visitado sequer a Coreia do Sul, só resta especular sobre aqueles que crescem num país que teve e tem uma história turbulenta com o país vizinho a norte e variados sistemas políticos presentes nos países em torno dele. Serão as razões históricas e sociais factor para despoletar este tipo de cinema?

Pedro Ferreira

À noitinha no Fantas


“The Chameleon”, de Jean Paul Salomé


“I Saw The Devil” de Kim Jee-woon, vencedor do Fantasporto em 2004 com o filme “A Tale of Two Sisters”