Especial Rascunho e JUP

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Fantástico para os Hostels?

Nas duas últimas semanas, a Invicta albergou admiradores, estudantes de cinema e cinematógrafos nacionais e internacionais. Fomos à procura de lugares procurados pelos que vêm de fora. Dos quase 15 hostels do Porto, que têm cada vez mais reconhecimento internacional, destacamos dois pela proximidade do Teatro Rivoli, onde acontece o Fantas: o Rivoli Cinema Hostel e a Pensão do Norte.

Para Joana Gaio, responsável pelo Rivoli Cinema Hostel, o impacto do evento não se reflecte de uma forma notória na facturação do negócio. Joana Silva, a recepcionista, acrescenta que “se não são as pessoas do Fantasporto, são outras!”. Durante a quinzena do evento, Joana recebe artistas e convidados internacionais, bem como um maior número de portugueses do sul. Também para Carla Barradas, trabalhadora na Pensão do Norte, o número de clientes neste período não aumenta de forma significativa. “O Fantasporto é uma mais-valia, mas nunca tanto como, por exemplo, a época alta”, reforça Carla.

Pensão do Norte

Pensão do Norte

Para além de não se verificarem grandes variações no número de hóspedes, aqueles que vêm propositadamente para participar no evento são de “permanência pontual”. São poucos os visitantes que assistem a todas as actividades do festival, sendo que a maior parte restringe a estadia a dias específicos, maioritariamente aos fins-de-semana. Relativamente ao mesmo período no ano passado, Joana Silva nota uma diminuição na ocupação do hostel por parte de estrangeiros.

 

Rivoli Cinema Hostel

Rivoli Cinema Hostel

 

Joana Gaio é admiradora e antiga estudante de cinema, privilegiando esta temática na decoração do Rivoli Cinema Hostel. Os funcionários são frequentadores assíduos do Fantasporto e a responsável pelo hostel sublinha a importância de uma maior publicidade ao festival. Este gosto pela Sétima Arte reflecte-se no ambiente criado, que vai ao encontro das preferências dos amantes de cinema, nomeadamente aqueles que se interessam e se associam, de algum modo, ao evento cinematográfico.

Mariana Sousa
Raquel Teixeira

Alexis Taylor dá-nos Baile

Alexis Taylor, dos Hot Chip, uma banda britânica de electropop formada em 2000, é um dos nomes sonantes desta edição do Baile dos Vampiros.

Num formato renovado, em 2011 a organização propõe um anfitrião. Esta tarefa ficará a cargo do vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal.

Paciência de santo

(Foto: Fantasporto)

Qual é a diferença entre vintage e kitsch? E qual a diferença entre kitsch e piroso? Isto porque “Camino”, o filme de Javier Fesser que ontem encerrou a competição oficial do Fantasporto, fica a meio caminho entre as boas intenções e o mau gosto mais insuportável e irritante.

Porque na verdade, não se percebe se a intenção de Fesser é elevar a força da fé católica ou se, pelo contrário, é gozar indecentemente com os dogmas da igreja e com a hipocrisia de alguns dos seus agentes. Confusão essa, gerada por uma realização desequilibrada, com uma especial apetência pelo piroso e que exagera na transmissão de uma mensagem, Seja ela qual for.

Baseado em factos verídicos, “Camino” é a história de uma menina de 11 anos que, por ter um cancro no cérebro, conquista a hipótese de ser beatificada. Passo a explicar: filha de uma senhora extremamente devota, Camino, de seu nome, está condenada a vir a ser freira, tal e qual como a sua irmã mais velha. Rodeada de religião por todos os lados, a jovem vê o seu calvário ser confundido com uma sequência de milagres e que atingem o seu ponto mais alto quando, já no leito da morte, o seu delírio moribundo é confundido com uma presença às portas do céu e um primeiro contacto imediato com Jesus.

Jesus, é na verdade o nome do rapaz por quem Camino se havia apaixonado, e é a ele que as últimas palavras e pensamentos da menina são dedicados. Estes equívocos chegam a ser tão ridículos que pensamos estar na presença de uma comédia de mau gosto. É precisamente por aqui que começamos a duvidar das verdadeiras intenções do realizador: é “Camino” uma crítica feroz ao comportamento da igreja ou um retrato apaixonado dos milagres de fé?

Convém referir que o filme de Javier Fesser coleccionou prémios em festivais um pouco por toda a Espanha e que o processo de beatificação da pequena Camino está ainda em curso. Se é que alguma destas informações é realmente importante…

No entanto, nem tudo são dúvidas, em “Camino”. Na verdade, saí do filme convencido de duas coisas que parecem não ter discussão: em Espanha, é muito fácil conquistar prémios de cinema, assim como é tremendamente simples ser-se beatificado.

Nuno Matos

A febre do amor

(Foto: Fantasporto)

Eu sei, o título desta crítica é um tudo ou nada piegas. Mas “Febre da Fieno”, filme de estreia da italiana Laura Luchetti, é uma história de amor e de como esse sentimento nos deixa doentes, febris e incapazes de racionalizar normalmente.

A realizadora, presente no Rivoli, fez questão de descrever o seu filme como sendo um moderno conto de fadas. Não diria tanto, mas que é um filme simpático, despreocupado e bem disposto, lá isso é, E produziu esse mesmo efeito nos poucos espectadores que tiveram disponibilidade para o ver.

Passado em Roma, “Febre da Fieno” mostra-nos a vida de um grupo de pessoas, unidas em torno de uma loja de artigos vintage, mas acima de tudo ligadas pelo amor; pelo amor que se sente, pelo amor que se perde e pelo que se conquista. E isso chega para fazer deste um filme bonito, suave e demasiado agradável para se levar a mal alguma pieguice em que incorre, eventualmente.

E depois, como seria possível não gostar de um filme que tem uma banda sonora de eleição, encabeçada por esse génio sentimental de seu nome Devendra Banhart?

Em suma, ” Febre da Fieno” foi um dos filmes simpáticos do Fantasporto 2011 – a par de outra obra italiana, “18 Anno Dopo – e de tal forma influenciou positivamente o público no Rivoli, que ninguém sequer sentiu o choque de transitar da violência de “Secuestrados” para a delicadeza proposta por Laura Luchetti.

Esta é a prova de que todos os géneros cinematográficos podem coexistir pacificamente no mesmo festival, na mesma sala e para o mesmo público. Basta, para isso, que tenham qualidade.

Nuno Matos

Última noite antes dos prémios


“The Rite”, de Mikael Hafstrom


“Splice”, de Vincenzo Natali


“Bedways”, de Rolf Peter Kahl

Como nos bons velhos tempos…

(Foto: Fantasporto)

É tão bom, entrar no Rivoli, acomodar-me naquelas cadeiras que, ao fim de uma semana , o corpo já não suporta, e ser transportado para um tempo em que o Auditório Nacional de Carlos Alberto ainda era uma sala confortável e acolhedora, e em que o Fantasporto era um festival interessante e surpreendente.

 

Momento destes foram raros, na presente edição do Fantas. Até ontem, só por duas ou três vezes, me tinha realmente sentido preso ao ecrã. “Secuestrados” agarrou o público pelos colarinhos, e durante 80 minutos não parou de o sacudir, empurrar, agredir e assustar. Foi, a todos os níveis, o filme mais intenso e violento que passou pelo Rivoli este ano.

Realizado por Miguel Àngel Vivas, “Secuestrados” conta a história de uma família que, na primeira noite na sua casa nova, acaba por viver um pesadelo nada condizente com o que deveria ser uma ocasião festiva. O tema não é original, e a organização do festival compara-o mesmo a “Funny Games”, de Michael Haneke.

A comparação não é descabida. A grande diferença, é que enquanto Haneke realizou um filme que atacava o nervoso miudinho dos espectadores, Vivas apostou na violência pura e dura, não escondendo nada do público. Aliás, essa é uma das qualidades de “Secuestrados”: não há segredos, não há grandes surpresas guardadas e tudo é muito simples e, de certa forma, próximo da realidade.

Genial é a opção do realizador em construir o seu filme através de planos-sequência, alguns de largos minutos, sem no entanto perder qualquer energia, tensão e emoção. E “Secuestrados” é, de facto, um filme que leva estes três atributos ao limite do suportável. Culpa da mão firme do realizador espanhol, e culpa também de um elenco irrepreensível e que se entregou totalmente ao desempenho de papéis nada simples.

Único defeito de “Secuestrados”: não querendo abdicar dos planos-sequência, Miguel Àngel Vivas opta, por vezes, em mostrar duas acções em simultâneo, recorrendo, para isso, ao ecrã dividido. Não funciona. E não funciona porque a acção é tanta e de tal maneira electrizante, que o espectador acaba por não se conseguir concentrar em nenhuma.

É pena. Assim não fosse, e estaríamos perante um filme perfeito. Ainda assim – e pese embora mais uma decisão pouco compreensível da organização, que o empurrou para uma pouco digna primeira sessão da tarde – é muito possível que “Secuestrados” não saia deste Fantasporto de mãos a abanar.

Nuno Matos

Sala cheia para ver uma mão cheia de inadaptados sociais

Bazil é a personagem que desencadeia toda a acção (Foto: Fantasporto)

Micmacs, de Jean-Pierre Jeunet é um filme a jogar em casa. Assim foi, sala completamente cheia, com bilhetes esgotados durante a tarde. Mesmo assim minutos antes do inicio bastantes pessoas ainda tentavam a sua sorte na bilheira e entrada do Rivoli.

A história tem como pano de fundo os bairros da periferia de Paris, da mesma forma como fez  em “A Fabulosa História de Amélie Poulain” e mesmo com essa previsibilidade, “Micmacs” consegue prender a atenção dos espectadores, divertir e trazer à tona um assunto para deixar a pensar. A começar pelo nome dos personagens: Remington, um homem que escreve histórias na máquina de escrever; Fracasse, um homem que só fracassou na vida; e Calculette, uma rapariga que consegue calcular tudo, desde as medidas do seu corpo, até à distância relativa entre dois carros em movimento. Vivem todos em familia, unidos pelas desgraças, motivados a viver um dia depois do outro, numa casa construída em cima de um lixeira, feita apenas com materiais reciclados.

A expectativa era obviamente alta e Com actores acostumados a trabalhar com o realizador, como Dominique Pinon – actor fetish do cineasta que participou em “Delicatessen” e “Amélie”, Dany Boon e André Dussollier, entre outros, “Micmacs à tire-larigot” leva Jeunet a um mundo mais surreal, mais perto de “Delicatessen”, mas esticando mais os limites da farsa. O resultado é um filme bastante cómico, que por vezes porém excede-se na surrealidade e repega em pequenos detalhes já esbatidos, na forma, em outros trabalhos anteriores.

No meio de tanto absurdo é de realçar a sátira à indústria bélica e pela forma como no meio do humor se pode passar uma mensagem bastante critica à forma como a linguagem da guerra se torna tantas vezes a linguagem do nosso dia-a-dia.

Como aperitivo e para abrir o apetite para um filme que não deve demorar muito a estar nas salas aqui ficam umas perguntas para responder:

“É melhor viver com uma bala alojada no cérebro, mesmo que isso signifique que possas morrer a qualquer instante? Ou preferias retirar a bala e viver como um vegetal para o resto da vida? As zebras são brancas com listas pretas, ou pretas com listas brancas? Valem mais os estilhaços que as minas? Cabe uma mulher num frigorífico? Qual o recorde mundial de um homem lançado num canhão?”

Pedro Ferreira

Mais uma noite no Rivoli


“Micmacs”, de Jean-Pierre Jeunet, o realizador multi premiado de “O Fabuloso Destino de Amélie” e “Delicatessen”


“Camino”, de Javier Fesser, filme espanhol premiado com seis Goyas (prémio do cinema espanhol)