Especial Rascunho e JUP

Reportagem

Espectadores Fantásticos II

Entre filmes há sempre para procurar, na loja montada no foyer do Rivoli, outros filmes, já conhecidos ou para descobrir. (Foto: Pedro Ferreira)

Poucos momentos antes da exibição do filme “The Chameleon”, Pedro Morgado, de 37 anos, encontra-se com amigos na primeira fila: “Fico sempre aqui porque gosto de esticar as pernas. (risos) E não gosto de ter gente à frente.” As visitas ao Fantasporto já duram “há muitos anos, desde ’89, ‘90”, principalmente pela preferência pelos filmes de terror, mas também “pelo ambiente”. Pedro Morgado manifesta a sua preferência em relação aos anos em que o Fantasporto se realizou no Teatro Carlos Alberto, pois considera o Teatro Rivoli “muito impessoal”.

O gosto pelo cinema, e particularmente pelo cinema fantástico, levam Rui, de 45 anos, a visitar o Fantasporto há 28 anos. Para Rui, o Fantas é um evento “muito importante para a cidade e para o país, porque é o único que tem projecção internacional e porque é um factor de promoção turística para o país e para a cidade também, porque está ligado ao Porto”. O espectador adianta ainda que esta iniciativa contribui para levar a cidade do Porto a ser mais conhecida internacionalmente: “Não é só o vinho que é famoso lá fora, mas é também o nosso Fantasporto do Oporto”. Em relação à organização, Rui afirma que não tem qualquer tipo de críticas: “Acho que isto é muito bem organizado. Ao fim de 31 anos, o piloto automático já funciona muito bem, não tenho nada a apontar”.

Diogo Mendonça, de 30 anos, vem ao Fantasporto por ser aqui que encontra uma grande variedade de cinema alternativo e considera que a organização tem evoluído de forma “neutra”. Quanto à passagem desta iniciativa para o teatro Rivoli, Diogo Mendonça não tem quaisquer críticas pois gosta do espaço.

À porta do Pequeno Auditório encontra-se um ‘espectador fantástico’ mais recente: David Marreiros, de 21 anos. Quando questionado quanto ao motivo que o leva a vir ao Fantasporto há 4 anos, David Marreiros afirma que é difícil responder a essa questão mas adianta que é “uma referência a nível nacional da parte do cinema e para além do mais é uma grande festa do cinema que nos permite não só ver os filmes, mas também ter contacto com todas as pessoas da área”. O espectador aconselha o Fantasporto a outras pessoas mas defende que “é necessária uma certa selecção de quais é que são realmente os filmes que vamos visionar”. David Marreiros defende que “a organização melhorou imenso, sem dúvida”, embora demonstre alguma desilusão em relação à restrição dos espaços de exibição ao Rivoli, pois considera “importante dinamizar” outros espaços do Porto. Em relação às melhores memórias, o espectador afirma que guarda “bons filmes” e que passa a associá-los ao espaço e ao evento do Fantas. “Aqui há uma oferta totalmente mais underground, enquanto no resto temos uma via muito mais comercializante”. Para David, o facto de este festival se realizar no Porto também se torna importante “principalmente para combater Lisboa”.

No Grande Auditório quase todos os lugares se encontram ocupados, por antigos fãs deste evento ou por novos curiosos. Os funcionários que estão nas portas do Grande e Pequeno Auditórios, remunerados apenas com senhas para refeições e com a oportunidade de poder ver os filmes de graça, não deixam de aproveitar a oportunidade de poder fazer parte do Fantas.

As palmas no final de cada exibição já se tornaram um ritual, onde o silêncio durante os filmes é muito mais respeitado do que nos cinemas dos habituais centros comerciais. Apesar de espectadores muito heterogéneos e com gostos muito diferentes, há sempre uma coisa em comum: o gosto pelo Fantasporto e pelo cinema independente e generalista que faz com que, cada vez mais, o Rivoli reconheça caras dos anos anteriores. Tal como a espectadora Bárbara Lopes afirma: “Sempre que um Dorminsky quiser, há Fantasporto”.

Maria Eduarda Moreira
Luís Mendes


Espectadores Fantásticos I

Entre filmes aproveita-se para fazer alguma leitura, programas e catálogos do festival ganham preferência (Foto: Pedro Ferreira)

O Fantasporto 2011 trouxe, como já é habitual, alguns ‘espectadores Fantásticos’, daqueles que não perdem uma edição deste evento.

Frederico Figueiredo vem “de Lisboa de propósito para vir ao festival” há 8 anos. O espectador afirma que são os géneros de terror e de cinema fantástico que o levam a frequentar este evento ano após ano. Quando questionado quanto à organização e qualidade dos filmes, Frederico Figueiredo defende que “a qualidade se tem mantido e existe uma boa variedade de filmes, não só a nível de géneros mas também a nível de novos realizadores e de novas propostas” e que “a organização, desde o início, sempre manteve a qualidade”. Compara ainda o Fantasporto ao festival Motel X, em Lisboa, e elogia o evento portuense por não se dedicar apenas à projecção de filmes de terror e pela sua “oferta mais variada”. O espectador aconselha o evento a outras pessoas, embora realce o facto de nem toda a gente ter essa possibilidade, devido à distância geográfica.

Apesar de não “ser muito dada ao terror”, Catarina Santos, de 28 anos, continua a vir ao Festival de Cinema Internacional do Porto, pois afirma que consegue “encontrar um bocadinho de tudo”. A espectadora assegura que o que a leva a frequentar o Fantas há 10 anos é o gosto pelo cinema e elogia a organização: “Já vão 31 anos, mas conseguem pôr sempre isto de pé”.

Bárbara e Pedro Lopes visitam o Fantas há 6 anos. Bárbara define o evento como algo “fora do normal” e deixa o elogio: “É fantástico. É um marco”. Como fã do cinema na baixa do Porto, afirma ainda que “muita gente não sabe a quantidade de salas de cinema que o Porto tem”. Já Pedro Lopes tem sentido que a organização tem decaído ao longo dos anos e afirma que “já houve mais apoios”. Em 6 anos de visitas ao Fantasporto, o espectador defende que “o cinema morreu um bocado”.

Em 27 anos, Paulo Gomes já viu muitos filmes e observou muitas mudanças num festival que define como “ímpar em Portugal”. O espectador aplaude a mudança para o Teatro Rivoli e descreve-o como “a melhor sala da cidade”. Para Paulo Gomes, o Fantasporto enaltece o “cinema fora do comercial” que define como “essencial para alargar o leque de ofertas”. Quanto ao progresso ao longo dos anos, o espectador diz que o evento “evoluiu favoravelmente”.

Ana Moreira trabalha a servir café no Fantasporto há dois anos. Como espectadora, é o quarto ano que visita o festival, que descreve como “diferente” e com “qualidade”. “Proporciona cultura, que está em falta”.

Marta Ribeiro e Manuela Carneiro são amigas que já vêm ao Fantasporto há “muitos anos”. Marta Ribeiro confessa que é uma espectadora assídua do Fantas devido ao gosto que tem pelo cinema mas também por ter trabalhado no Rivoli durante vários anos. Marta afirma que “a organização está a funcionar muito bem, dentro dos possíveis”, e que “os filmes cada vez são melhores”. Considera que o público-típico do festival de cinema é “a geração dos 30 anos”. Manuela Carneiro vê este evento como algo que “já faz parte da cidade” e afirma que “em Fevereiro ficamos todos à espera do Fantasporto”. A espectadora realça a importância deste tipo de eventos: “Que venham mais iniciativas destas, porque trazem as pessoas para o centro da cidade com actividades culturais, estamos todos à espera que isso aconteça. Gostaríamos nós que houvesse mais salas de cinema na cidade e que não fossem dentro do shopping”.

Maria Eduarda Moreira
Luís Mendes


“Se o Fantasporto fosse todos os dias…”

Aspecto do exterior do Rivoli durante o Festival (Foto: Pedro Ferreira)

Domingos Alves trabalha há 22 anos no Café Garça Real, a 50 metros do Teatro Rivoli, e admite que o Fantasporto tem um impacto positivo no negócio. Todos os anos, o festival atrai portugueses de Norte a Sul do país e estrangeiros amantes da arte do cinema, “maioritariamente gente nova”. Cafés, lojas e restaurantes vêem aumentar o número de clientes durante a quinzena do evento cinematográfico. “É indiscutível, estamos sempre à espera que estes dias cheguem”, explica Domingos Alves.

A Baixa da Cidade tem vindo, progressivamente, a perder centralidade no que diz respeito à localização de habitações e escritórios, que se transferem para zonas periféricas. Assim, “são os espectáculos que chamam as pessoas”, não só o Fantasporto como todos os outros eventos realizados no Teatro Rivoli. As encenações de Filipe La Féria, que duram “meses e meses”, têm um efeito particularmente positivo, ao atraírem espectadores por um período mais prolongado.

Ao contrário de Domingos Alves, que não é “adepto dessas coisas”, Manuel Augusto Marinho é um admirador fervoroso do cinema do Fantasporto. O Sr. Manuel trabalha há 60 anos no Restaurante Regaleira, na rua do Bonjardim, e não esconde gostar “daqueles filmes de Terror”. O restaurante que viu nascer a Francesinha recebe, sobretudo “quando o filme puxa”, um maior número de fãs do festival, principalmente à hora do jantar. Para além destes clientes esporádicos, a Regaleira reencontra, todos os anos, um grupo de jornalistas ingleses, representantes de uma revista de cinema. Manuel Marinho serve ainda realizadores, cinematógrafos e convidados do evento espanhóis, franceses e italianos, todos eles “uma mais-valia para o negócio.”

Culturalmente enriquecida pela sétima arte e todas as suas representações nacionais e internacionais, a Cidade das Pontes vê favorecido o seu sector económico. O espectáculo chama as pessoas, e as pessoas usufruem dos serviços em seu redor. Assim, Domingos Alves lamenta que o Fantasporto dure apenas 15 dias, porque “vão-se os artistas, vai-se a gente, não é?”

Mariana Sousa
Raquel Teixeira


Fantástico para os Hostels?

Nas duas últimas semanas, a Invicta albergou admiradores, estudantes de cinema e cinematógrafos nacionais e internacionais. Fomos à procura de lugares procurados pelos que vêm de fora. Dos quase 15 hostels do Porto, que têm cada vez mais reconhecimento internacional, destacamos dois pela proximidade do Teatro Rivoli, onde acontece o Fantas: o Rivoli Cinema Hostel e a Pensão do Norte.

Para Joana Gaio, responsável pelo Rivoli Cinema Hostel, o impacto do evento não se reflecte de uma forma notória na facturação do negócio. Joana Silva, a recepcionista, acrescenta que “se não são as pessoas do Fantasporto, são outras!”. Durante a quinzena do evento, Joana recebe artistas e convidados internacionais, bem como um maior número de portugueses do sul. Também para Carla Barradas, trabalhadora na Pensão do Norte, o número de clientes neste período não aumenta de forma significativa. “O Fantasporto é uma mais-valia, mas nunca tanto como, por exemplo, a época alta”, reforça Carla.

Pensão do Norte

Pensão do Norte

Para além de não se verificarem grandes variações no número de hóspedes, aqueles que vêm propositadamente para participar no evento são de “permanência pontual”. São poucos os visitantes que assistem a todas as actividades do festival, sendo que a maior parte restringe a estadia a dias específicos, maioritariamente aos fins-de-semana. Relativamente ao mesmo período no ano passado, Joana Silva nota uma diminuição na ocupação do hostel por parte de estrangeiros.

 

Rivoli Cinema Hostel

Rivoli Cinema Hostel

 

Joana Gaio é admiradora e antiga estudante de cinema, privilegiando esta temática na decoração do Rivoli Cinema Hostel. Os funcionários são frequentadores assíduos do Fantasporto e a responsável pelo hostel sublinha a importância de uma maior publicidade ao festival. Este gosto pela Sétima Arte reflecte-se no ambiente criado, que vai ao encontro das preferências dos amantes de cinema, nomeadamente aqueles que se interessam e se associam, de algum modo, ao evento cinematográfico.

Mariana Sousa
Raquel Teixeira


Antevisão 2011

Está aí a 31ª edição do festival de cinema internacional do Porto – o Fantasporto.

O Fantas, assim apelidado carinhosamente pelo seu publico, é já “um produto geral impregnado na cidade e no país”, como afirma Mário Dorminsky director e fundador do festival. A escolha dos próprios filmes faz-se entre cerca de 500 filmes, 1220 curtas metragens e 300 longas metragens propostas, sendo que a maioria da programação é escolhida em festivais e negociada com os distribuidores. Segundo António Rei, programador oficial, “há uma imensa qualidade e variedade, quer temática quer geográfica, dos filmes em competição.”
O Fantas, em si mesmo, é um atractivo turístico de estrangeiros ao porto, e é talvez mais reconhecido e prestigiado, no estrangeiro e no cinema mundial do que em Portugal. Nesta edição podemos contar com cerca de 200 a 250 presenças internacionais. Para alem dos festival, afirma Dorminsky, a cidade em si é um atractivo para este tipo de publico, “é muito gótica, muito fantástica”. De referir também que o Fantasporto é o festival anual com mais impacto na cidade do Porto, uma das razões que torna incompreensível a falta de financiamento por parte do Turismo de Portugal e da Câmara do Porto (apenas 5% do apoio da comissão europeia para a cultura é dirigido ao norte de Portugal e aquando os 30 anos do Fantasporto a Assembleia da Reoública aprovou um financiamento de 100 mil euros extra, que afinal não foi atribuído). No entanto, “não há nada como uma boa crise para que o cinema fantástico ganhe um novo fôlego”. Apesar do corte e da quebra de patrocínios, graças ao espírito independente e teimoso característico dos portuenses, não se baixam os braços e pelo contrário apresenta-se uma edição ainda mais forte e reforçada. Como? Criam-se parcerias, colaborações, permutas, o que permite baixar os custos globais.

Assim, nesta edição, para além dos filmes em competição, da homenagem a Paulo Trancoso, a Jean Renoir e a Mélies, podemos contar com um “espaço de cinema”- onde é apresentada uma retrospectiva de uma década das melhores curtas europeias, realizado em colaboração com os institutos oficiais dos respectivos países, a custo zero.

Mas nem só de cinema se faz Fantas, e como afirma Beatriz Pacheco Pereira, “nesta edição podemos contar com mais do que um festival de cinema, podemos contar com uma festa da cultura”. Este programa especial tem como principal objectivo cruzar áreas afins ao cinema, procurando abranger outros assuntos de que o próprio cinema já se apropriou há muito, não fosse a temática deste ano “Artes Plásticas”. O tema deste ano tem como principal propósito documentar a obra de artistas portugueses “tão maltratados, tão pouco divulgados e tão pouco documentados para a posteridade”. Assim, em parceria com a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e a Universidade Católica, foram feitos 17 filmes, por estudantes das respectivas faculdades, de alguns dos maiores artistas nacionais. A exposição artística deste ano, “De Passagem”, reúne uma selecção de gravuras de vários artistas, editadas nas oficinas da FBAUP durante o ano de 2010. Nos debates e conferências pretende-se reflectir sobre o estado da arte em Portugal, criando uma oportunidade de aproximação da arte aos cidadãos.

De referir também a projecção de um filme interactivo, que apela directamente à intervenção dos espectadores e posiciona o Fantas na linha da frente do cinema mundial.

Com uma programação promissora, é mais uma edição a não perder. És um espectador fantástico?