Como nos bons velhos tempos…
É tão bom, entrar no Rivoli, acomodar-me naquelas cadeiras que, ao fim de uma semana , o corpo já não suporta, e ser transportado para um tempo em que o Auditório Nacional de Carlos Alberto ainda era uma sala confortável e acolhedora, e em que o Fantasporto era um festival interessante e surpreendente.
Momento destes foram raros, na presente edição do Fantas. Até ontem, só por duas ou três vezes, me tinha realmente sentido preso ao ecrã. “Secuestrados” agarrou o público pelos colarinhos, e durante 80 minutos não parou de o sacudir, empurrar, agredir e assustar. Foi, a todos os níveis, o filme mais intenso e violento que passou pelo Rivoli este ano.
Realizado por Miguel Àngel Vivas, “Secuestrados” conta a história de uma família que, na primeira noite na sua casa nova, acaba por viver um pesadelo nada condizente com o que deveria ser uma ocasião festiva. O tema não é original, e a organização do festival compara-o mesmo a “Funny Games”, de Michael Haneke.
A comparação não é descabida. A grande diferença, é que enquanto Haneke realizou um filme que atacava o nervoso miudinho dos espectadores, Vivas apostou na violência pura e dura, não escondendo nada do público. Aliás, essa é uma das qualidades de “Secuestrados”: não há segredos, não há grandes surpresas guardadas e tudo é muito simples e, de certa forma, próximo da realidade.
Genial é a opção do realizador em construir o seu filme através de planos-sequência, alguns de largos minutos, sem no entanto perder qualquer energia, tensão e emoção. E “Secuestrados” é, de facto, um filme que leva estes três atributos ao limite do suportável. Culpa da mão firme do realizador espanhol, e culpa também de um elenco irrepreensível e que se entregou totalmente ao desempenho de papéis nada simples.
Único defeito de “Secuestrados”: não querendo abdicar dos planos-sequência, Miguel Àngel Vivas opta, por vezes, em mostrar duas acções em simultâneo, recorrendo, para isso, ao ecrã dividido. Não funciona. E não funciona porque a acção é tanta e de tal maneira electrizante, que o espectador acaba por não se conseguir concentrar em nenhuma.
É pena. Assim não fosse, e estaríamos perante um filme perfeito. Ainda assim – e pese embora mais uma decisão pouco compreensível da organização, que o empurrou para uma pouco digna primeira sessão da tarde – é muito possível que “Secuestrados” não saia deste Fantasporto de mãos a abanar.
Nuno Matos
Para molhar o pãozinho
Não se preocupem, esta crítica não tem nada a ver com culinária. «Molhar o pãozinho» era a expressão favorita do público do Fantasporto quando este ainda era (literalmente) um festival de sangue, tripas e mortes violentas.
Este ano, apesar de já se terem visto algumas coisas do género, nenhum dos filmes tinha cumprido as regras de ouro do bom cinema gore. A espera terminou ao 6º dia de festival e com um improvável filme de terror israelita de seu nome “Rabies” (Kalevet, em hebráico).
Realizado por Ahron Keshales e Navot Paposhaddo, o filme demonstra na perfeição a velha Lei de Murphy, que defende que “se algo pode correr mal, correrá mal da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. E em “Rabies” as coisas correm terrivelmente mal para um grupo de pessoas que, por uma razão ou outra, se encontram na mesma floresta, no pior momento e na pior altura.
Não se sabe se seria essa a intenção dos realizadores, mas é possível ver nestes acontecimentos tenebrosos uma metáfora da condição humana e de como esta facilmente se transforma numa selvajaria irracional. Porque de facto, e pensando bem, nada faz prever a barbárie com que somos presenteados durante uma bem passada hora e meia.
Quando um filme arranca palmas a cada uma das mortes, isso significa duas coisas: que é um filme de «molhar o pãozinho», à boa moda do antigo Fantas, e que, por isso mesmo, diverte o público.
Já aqui foi dito, num post anterior, que o Fantasporto deste ano tem sido marcado por filmes pouco entusiasmantes e, sejamos sinceros, bastante chatos. Por essa razão, ver “Rabies” em clima de festa foi, ao mesmo tempo, nostálgico e muito, muito divertido. Mais um ou outro como ele, e o Fantas 2011 seria bem mais interessante.
Nuno Matos
A Tempestade que varreu o Fantasporto
Julie Taymor adapta para versão cinematográfica “A Tempestade”, de William Shakespeare. É uma produção pictórica cheia de cor, movimento e paixão. Junta com um elenco de estrelas e só não é um sucesso maior em Portugal porque as pessoas ainda vivem de muitos preconceitos contra o teatro e contra tudo o que não é prazer imediato. Não há surpresas na história, não e não é suposto.
Helen Mirren interpreta o Prospera (que é um personagem masculino chamado Prospero, no original). Prospera, que se tornou a legítima Duque de Milão, quando o marido morreu, foi exilada para uma ilha deserta, junto com a sua filha Miranda, de três anos, pelos adversários. Doze anos se passaram, e Prospera sente que agora é a hora certa para utilizar os seus poderes sobrenaturais e se vingar daqueles que a feriram e humilharam.
A eficácia global do filme reside na fusão dos conflitos humanos contra a presença monumental da natureza. Os aspectos desconfortáveis ao ar livre do filme foram filmadas em Lanai (Hawai), não é o meio habitual que estamos habituados a ver deste local, mas uma área dura, rochosas vulcânicas, pouco acolhedora. Os antagonismos da peça devem lutar contra este pano de fundo duro, enquanto Prospera, com o bastão mágico, relógios e espíritos controla as suas lutas de longe, no topo de um penhasco, com conforto e satisfação.
Sandy Powell criou os figurinos que completam um cuidado fotográfico exímio. Toda a música foi composta por Elliot Goldenthal, colaborador de longa data Taymor. Goldenthal criou também as canções adaptadas de Shakespeare, quer para os momentos de solo, quer para os coros.
Um “pacote” cinematográfico bastante agradável dentro do estilo, fotograficamente brilhante, concretiza uma adaptação ao cinema de uma das maiores referências do teatro.
Nota: não poderia deixar passar em claro a forma como uma boa parte da sala se comportou durante a sessão. Não são desculpáveis os suspiros enfadonhos e a forma como algumas pessoas de comportaram, como crianças a fazerem um frete. Se não sabiam, já deviam saber ao que iam. Estava bem explicito que era uma adaptação da peça de Shakespeare, são mais que conhecidos os pormenores fílmicos e de argumento. Se estavam à espera de uma alteração profunda dos diálogos enganaram-se. E já agora para quem achou que pessoas a cantar não era dali, consultem o texto original ou vejam no teatro e reparem que os coros existem.
A Tempestade devia começar nas mentalidades!
Pedro Ferreira
Serbian Music
Wikluh Sky é um “rapper” e produtor sérvio, mais conhecido por ser uma parte do trio de hip-hop, Bad Copy, participa no projecto Shappa e mantém uma carreira a solo. Wikluh Sky também é o compositor do filme sérvio, que tantas reacções indignadas tem provocado.
A banda sonora oscila entre a batida “hardcore” instrumental (com um kick-clap) e “dubstep”. A intensidade é constante e cria nos espectadores uma sensação de ânsia que dura durante o filme todo. O fim não é sequer previsível pela música porque essa mesma intensidade mantém-se e prolonga-se pelos créditos finais. Naturalmente que o visual deste filme é forte e é a principal causa de todos os comentários e polémicas mas depois de o ver por uma segunda vez posso dizer com toda a certeza que a banda sonora tem uma boa parte de culpa em todo o processo.
Se duvidam podem ouvir no link mais abaixo. Experimentam várias vezes seguidas e mesmo sem imagens fica qualquer coisa de incómodo.
Tanto Barulho Para Nada
Assumo: apetece-me falar mal de “A Serbian Film” (Srpski Film). Por dois motivos: primeiro, porque uma pequeníssima parte de mim enquanto espectador ainda acredita na publicidade que antecede a estreia de um filme; segundo, porque este filme em particular é realmente mau.
E a fama de “A Serbian Film” prometia. Filme-choque do ano, polémico, pornográfico, violento, ofensivo, repulsivo e tudo o que normalmente não se espera encontrar ao mesmo tempo em pouco mais de hora e meia de cinema. O problema é que nestas coisas das catalogações há uma parte importante da verdade que fica sempre de fora: a parte em que se destaca a baixa qualidade do filme. E o primeiro trabalho do sérvio Srdjan Spasojevic é irremediavelmente fraquinho. Por muito que o cineasta tenha subido ao palco do Rivoli para explicar que, para lá de toda a violência explícita, existe aqui uma poderosa metáfora sobre a Sérvia do pós-guerra, a verdade é que essa mensagem – ou qualquer outra, para os devidos efeitos – não chega sequer a ser residual. O mesmo é dizer que todos os ingredientes que deram fama a “A Serbian Film” parecem gratuitos e desprovidos de sentido. De tal forma que a única característica que o torna mesmo insuportável é o absoluto tédio a que sujeita os espectadores durante uns longos, longuíssimos 60 minutos.
Há, no entanto, que louvar o principal objectivo de Spasojevic e que é provocar o público. Um público que começava a estar demasiado acomodado a um cinema politicamente correcto. Ideal seria tê-lo feito com uma obra de alguma qualidade, que honrasse a coragem de se mostrar o que normalmente se esconde e que, no mínimo, conseguisse prender o espectador à cadeira por outras razões que não a curiosidade mórbida.
E volto a assumir a vontade que tenho de maltratar “A Serbian Film”. Porque é mau, muito mau, terrivelmente mau.
A Loucura
Já começava a fazer falta um filme como “The Last Employee”, nesta edição do Fantas. E porquê? Porque apesar dos organizadores insistirem em como este já não é um certame dedicado ao terror e ao fantástico, a verdade é que a maioria do público presente no Rivoli passa os dias à espera de, no mínimo, um calafrio desconfortável.
E o filme do alemão Alexander Adolph tem isso e muito mais. Não sendo uma obra de terror puro e duro, “The Last Employee” vive de um ambiente frio, rígido e filmado de uma forma quase geométrica, quase monocromática. Um ambiente pontuado por pequenos momentos desconfortáveis e inquietantes e que, num crescendo inteligentemente gerido pelo realizador, colocam o público na pele do protagonista.
Que, diga-se, não é um bom sítio para se estar. O desconforto é constante, a incerteza, permanente, e a dúvida sobre se o que estamos a viver é uma história de fantasmas ou o produto de uma mente descontrolada, incómoda. Por isso mesmo, damos por nós a torcer para que seja somente o comportamento errático de um espírito do além.
Revelar esse segredo é, como sempre, arruinar o seu efeito num filme inteligente, despretensioso e brilhantemente realizado por um cineasta com uma carreira de apenas quatro anos.
Por fim, uma referência muito especial ao trabalho de um actor que, à partida, ninguém dirá conhecer, mas que já participou em “Inglourious Basterds”, por exemplo. Christian Berkel é simplesmente magnífico no seu retrato de um homem instável e que esconde muito mais do que se pode imaginar e é desde já um dos favoritos para o prémio de melhor actor deste Fantasporto 2011.
Domingo à noite, no Fantasporto, no Grande Auditório do Rivoli
The Housemaid, de Im Sang_Soo às 21h15
A Serbian Film, de Srdjan Spasojevic, às 23h15
The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec
Um filme de Luc Besson é sempre coisa para criar alguma expectativa e ansiedade cinéfila. O homem é, na verdade, o único cineasta europeu que, fazendo filmes na Europa, consegue concorrer com os americanos em matéria de “blockbusters”.
O “5º Elemento”, por exemplo, foi a obra que, nos anos 90 fez renascer a ficção científica de uma estagnação que se julgava irremediável. Filme maior do realizador francês, mostrou ao público e especialmente à indústria cinematográfica, que os europeus também sabiam dar caminho a muitos milhões de dólares e, ao mesmo tempo, fazer cinema de acção com muita qualidade.
Não se percebe, por isso, porque se dedicou Besson quase exclusivamente à produção de filmes de outros realizadores. Percebe-se ainda menos porque regressou à realização com objectos como Artur e os Minimeus. Percebe-se, isso sim, porque decidiu adaptar a banda desenhada de Jacques Tardi e levar ao grande ecrã as aventuras de Adèle Blanc-Sec.
A heroína é uma espécie de Indiana Jones de saias na Paris do início do século XX. Mulher de pêlo na venta, combate monstros, descobre tesouros incas, desenterra múmias e ainda tem tempo para tratar mal os homens que lhe aparecem à frente. Por isso mesmo, “Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec”, prometia acção a rodos, emoção, suspense e todos os contributos que os livros de bolso da infância dos nossos pais deram à nossa imaginação infantil.
E a coisa começa bastante bem, pleno de ritmo e energia; com um sentido de humor irresistível e maravilhando precisamente esse imaginário infantil que tão mal tratado tem sido pelo cinema mais recente.
O problema é que Luc Besson parece ter-se esquecido de como gerir um filme de acção, e subitamente tudo o que parecia estar bem desaparece numa amálgama trapalhona e precipitada. A última meia hora de “Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec” é um corropio desenfreado, uma recta final feita aos tropeções e que deixa no espectador a nítida sensação de se estar a ver um mero episódio-piloto de uma série de televisão. E é pena.
Exorcismus – PSEUDO-REMAKE
Facto: o cinema de terror é como um gigantesco guarda-chuva que abriga inúmeros sub-géneros. Dois desses sub-géneros sofreram uma espécie de renascimento, nos últimos anos, mas sem que isso tenha significado um grande contributo para os fãs de sangue, tripas e outras viscosidades mais ou menos nojentas. Falamos, obviamente, dos filmes de zombies e dos filmes de exorcismos.
O grande obstáculo para qualquer realizador que se proponha a filmar mortos que voltam à vida e vivos com o diabo no corpo, é tão somente contrariar duas obras-primas do cinema de terror e, respectivamente filmes seminais nesses mesmos sub-géneros, “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero e “O Exorcista”, de William Friedkin.
No segundo caso, os filmes que abordam as possessões demoníacas e consequentes exorcismos, dividem-se em duas categorias: por um lado, os que parecem ser remakes não assumidos do trabalho de Friedkin; por outro, os que tentam fugir à comparação e se espalham ao comprido.
“Exorcismus”, do espanhol Manuel Carballo, é um bom exemplo da primeira categoria. Portanto, o que é que temos? Temos uma família de classe média, dois filhos, a mais velha, uma teenager incompreendida e a quem os pais não dedicam a devida atenção e, que mais cedo ou mais tarde, vai começar a revirar os olhinhos e a falar com voz grossa. O filme é fraco em todos os parâmetros, a começar desde logo pelo argumento, muito mal amanhado e, aparentemente, pobre na linguagem – alguns diálogos chegam mesmo a ser ridículos. Para não ficarem atrás, os actores são também eles fraquinhos e não chegam sequer a emprestar, a um trabalho destinado ao fracasso total, uma grama que seja de esforço e dignidade.
Facto: “Exorcismus” é um daqueles filmes que decididamente não ficam para a história; nem por ser muito bom, nem por ser irremediavelmente mau. Aliás, nem consegue ser sofrível. É um filme que não deixa mossa, que passa despercebido, ideal para quem o vê e rapidamente o quer esquecer.
Hoje à noite no Fantas…
The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec, do aclamado e conhecido realizador Luc Besson.
And Soon the Darkness, de Marcos Efron.
The Reykjavik Whale Watching Massacre, de Julius Kemp.
Bedevilled, uma mulher à beira de um ataque de nervos

Boki-nam é a personagem forte do filme que mostra como a catarse se pode tornar perigosa (Foto: Fantasporto)
Bedevilled não é um filme de vingança. Mais um exemplo do cinema sul-coreano que acaba por não deixar de nos surpreender com um thriller cheio de suspense e violência psicológica que esteve presente na selecção oficial da Semana da Crítica do Festival Internacional de Cinema de Cannes 2010.
Hae-won, funcionária de nível intermediário numa instituição financeira, em Seul, onde o ambiente corporativo claramente a deixou a oscilar no limbo de um colapso. “Tire férias”, são as ordens do seu chefe, que a levam de volta à ilhota ao largo da costa sul, onde ela cresceu. Do outro lado e em completo oposto de personagem está Bok-nam, companheira de Hae-won na infância, ainda mora no mesmo local numa realidade paralela em nada afectada pelo mundo globalizado e tecnológico. A comunidade insular habitada por por revelar a verdade escondida num paraíso perdido. Um marido violento, o seu irmão retardado e um bando terrível de mulheres mais velhas que perseguem Bok-nam.
A narrativa desenrola-se num ritmo lento e que dificilmente nos deixa prever a trama dramática antes do clímax. As duas mulheres tem um passado em comum que se vai revelando ao longo da história e que só no fim se percebe o porquê da tensão acumulada e dos motivos que minam a aparente calma na relação de amizade. Muito do filme vive da forma como Hae-won se esforça para dar corpo a uma personagem que é mais um catalisador que um ser humano, ela torna as cenas de emoção mais fortes, sem palavras, silenciosa e inesperada. Basicamente toda a gente se cansa e toda a gente tem um ponto em que tudo se torna insuportável.
O crescendo da tensão entre personagens e o coro das anciãs sempre dispostas à critica faz com que no público essa tensão se sinta também e acaba por não ser por acaso, a quantidade de palmas e gritos de apoio que se ouviram na sala aquando dos primeiros sinais de reviravolta da história que compensam o público num “pay-off” que é visceralmente satisfatório.
Serbian Film – até onde vai a liberdade
Este filme contém mesmo cenas (eventualmente) chocantes.
O Fantasporto comete a ousadia de o pôr em cena. O filme tem vindo a gerar controvérsia, o British Board of Film Classification forçou a organização do British Horror Film Festival, a retira-lo da programação. Depois de impedidos de o passar em cena, a organização do San Sebastián Horror and Fantasy distinguiu “A Serbian Film” com um Prémio Especial do Público, “por tornar-se, sem sequer ser projectado, num símbolo de liberdade de expressão”.
Sobre a história pouco a dizer. Aliás o ritmo que o filme imprime no inicio quase nos faz pensar se não entramos na sala errada. Um actor porno reformado, agora vive dedicado à sua familia. As primeiras cenas em torno da memória de uma carreira adormecida levam-nos para o imaginário dos filmes “série z” da indústria porno, quer pela forma como a história está construída, quer pelas personagens. O enredo começa a crescer quando lhe surge a oferta, bem paga, de um misterioso realizador. O que se segue, a nível de argumento, já o vimos em “The Saw” ou “Hostel”. Aqui explora-se o lado mais negro da sexualidade, mas vai mais longe. O realizador Srdjan Spasojevic é também a personagem principal do filme
A violência visual é forte mas o jogo psicológico é o mais forte. Todos os valores são postos em causa. Tudo aquilo que nos faz tremer ou chocar está lá. A forma quase crua como isso nos é apresentado não é inocente e tem que nos fazer pensar. O filme não é de todo para pessoas mais impressionáveis. Para quem aguentar vale a pena vê-lo e talvez revê-lo, conseguir ganhar distanciamento do que os nossos olhos vêem e ver algo mais profundo no filme. A liberdade de expressão serve para o pôr nas salas e para publicidade da distribuição.
Até que ponto gostamos de ver vítimas, até que ponto estamos dispostos a ir nas imagens que “consumimos” todos os dias. Por acaso, o filme passa no mesmo dia em que o jornal Correio da Manhã colocou online um vídeo de um homicídio a sangue frio que em poucas horas ultrapassou as cem mil visitas.
Se servir de consolo, “Serbian Film” é mesmo só um filme, o que vemos todos os dias nos jornais e televisões é real!
Uma escalada e uma vingança para abrir o apetite no primeiro dia
A 31ª Edição do Fantasporto, abriu com salas cheias. Segunda-feira à noite, com chuva lá fora, os entusiastas deste festival não deixaram os créditos por mãos alheias e quiseram marcar presença nas primeiras sessões do que é ainda o festival antes da abertura oficial.
127 Horas
Depois da história cheia de magia de “Quem Quer Ser Bilionário” – Oscar de Melhor Filme em 2009 – o britânico Danny Boyle apresenta o seu mais chocante filme – “127 Horas”.
Retrato tumultuoso do alpinista Aron Ralston que ficou preso debaixo de uma pedra, num canyon isolado a sudeste do Utah nos Estados Unidos. São estas 127 horas que Danny Boyle “transporta” para o cinema. Durante aquele tempo, Ralston luta contra os seus próprios demónios enquanto se debate desesperadamente para se libertar daquele pesadelo.
O actor James Franco encabeça o elenco numa das suas melhores prestações no cinema, aliás, nomeada para Globo de Ouro de Melhor Actor num filme dramático. “127 Horas” tem mais duas nomeações – Melhor Argumento (Danny Boyle e Simon Beaufoy) e Melhor Banda Sonora (A.R. Rahman).
I Saw the Devil
Grande expectativa para um novo filme de Kim Ji-Woon, vencedor do Fantasporto em 2004 com o filme “A História de Duas Irmãs”. No fim a sensação era de dever cumprido. Num estilo um pouco diferente do que nos tem habituado o realizador pega no tema da vingança, bem ao jeito de Chan-Wook Park. Aliás para quem viu “Old Boy” reconhece o actor que neste filme encarna uma das personagens principais.
O filme que começou a ganhar público no Toronto Film Festival e no Fantastic Fest pela sua audácia e violência visual arrasadora, traz-nos um psicopata sem remorsos que procura em estradas desertas mulheres para satisfazer o seu sádico prazer em sofrimento e os “apetites” de um outro seu companheiro. Tudo começa a mudar quando este psicopata mata a noiva de um agente dos serviços secretos. O caçador torna-se a presa e o agente a sua vingança jurada.
O caos sádico aumenta com o par a aceitar jogar um jogo de gato e rato, que rapidamente foge do controle dos dois.
Kim Jee-Woon mostra-nos os dois gumes da vingança e como esta deixa uma marca indelével. A violência e brutalidade implacável do filme é apenas metade da laranja do retrato do lado negro da natureza humana.
















