Premiados Fantasporto 2011
Prémio Melhor Filme
Grande Prémio Fantasporto 2011
“Two Eyes Staring”
Elbert Van Strien
Holanda
Prémio Especial do Júri
“A Serbian Film” – Srdjan Spasojevic – Sérvia
Melhor Realização
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul
Melhor Actor
Axel Wedekind – “Iron Doors” – Stephen Manuel – Irlanda
Melhor Actriz
Seo Yeong-hie – “Bedevilled” – Jang Cheol-so – Coreia do Sul
Melhor Argumento
Elbert van Strien, Paulo van Vliet – “Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda
Melhores Efeitos Especiais
“La Herencia Valdemar II: La Sombra Prohibida” – José Luís Alemán – Espanha
Melhor Curta-metragem
“Brutal Relax” – David Muñoz – Espanha
Secção Oficial 21ª Semana dos Realizadores
Prémio Melhor Filme da Semana dos Realizadores – Prémio Manoel de Oliveira
“The Housemaid” – Im Sang-Soo – Coreia do Sul
Prémio Especial do Júri
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão
Melhor Realizador
“Carancho” – Pablo Trapero – Argentina
Melhor Argumento
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão
Melhor Actor
Jung-Jae Lee – “The Housemaid” – Coreia do Sul
Melhor Actriz
Do-yeon Jeon – “The Housemaid” – Coreia do Sul
Secção Oficial Orient Express
Prémio Melhor Filme Orient Express
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul
Prémio Especial do Júri Orient Express – Prémio International Film Guide (IFG)
“Enemy at the Dead End” – Park Soo- Young – Coreia do Sul
Prémio da Crítica
“Rabies (Kalevet)” – Aharon Keshales, Navot Papushado – Israel
Prémio do Público
“The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec” – Luc Besson – França
Homenagem
Super Bock – 25 anos de patrocínio ao Fantasporto
Prémios Carreira
Mick Garris – Estados Unidos da América
Maria de Medeiros – Portugal
Paulo Trancoso – Portugal
João Meneses – Portugal
“Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda
Prémio Especial do Júri
“A Serbian Film” – Srdjan Spasojevic – Sérvia
Melhor Realização
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul
Melhor Actor
Axel Wedekind – “Iron Doors” – Stephen Manuel – Irlanda
Melhor Actriz
Seo Yeong-hie – “Bedevilled” – Jang Cheol-so – Coreia do Sul
Melhor Argumento
Elbert van Strien, Paulo van Vliet – “Two Eyes Staring” – Elbert Van Strien – Holanda
Melhores Efeitos Especiais
“La Herencia Valdemar II: La Sombra Prohibida” – José Luís Alemán – Espanha
Melhor Curta-metragem
“Brutal Relax” – David Muñoz – Espanha
Secção Oficial 21ª Semana dos Realizadores
Prémio Melhor Filme da Semana dos Realizadores – Prémio Manoel de Oliveira
“The Housemaid” – Im Sang-Soo – Coreia do Sul
Prémio Especial do Júri
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão
Melhor Realizador
“Carancho” – Pablo Trapero – Argentina
Melhor Argumento
“Miyoko” – Yoshifumi Tsubota – Japão
Melhor Actor
Jung-Jae Lee – “The Housemaid” – Coreia do Sul
Melhor Actriz
Do-yeon Jeon – “The Housemaid” – Coreia do Sul
Secção Oficial Orient Express
Prémio Melhor Filme Orient Express
“I Saw the Devil” – Kim Jee-won – Coreia do Sul
Prémio Especial do Júri Orient Express – Prémio International Film Guide (IFG)
“Enemy at the Dead End” – Park Soo- Young – Coreia do Sul
Prémio da Crítica
“Rabies (Kalevet)” – Aharon Keshales, Navot Papushado – Israel
Prémio do Público
“The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec” – Luc Besson – França
Homenagem
Super Bock – 25 anos de patrocínio ao Fantasporto
Prémios Carreira
Mick Garris – Estados Unidos da América
Maria de Medeiros – Portugal
Paulo Trancoso – Portugal
João Meneses – Portugal
Paciência de santo
Qual é a diferença entre vintage e kitsch? E qual a diferença entre kitsch e piroso? Isto porque “Camino”, o filme de Javier Fesser que ontem encerrou a competição oficial do Fantasporto, fica a meio caminho entre as boas intenções e o mau gosto mais insuportável e irritante.
Porque na verdade, não se percebe se a intenção de Fesser é elevar a força da fé católica ou se, pelo contrário, é gozar indecentemente com os dogmas da igreja e com a hipocrisia de alguns dos seus agentes. Confusão essa, gerada por uma realização desequilibrada, com uma especial apetência pelo piroso e que exagera na transmissão de uma mensagem, Seja ela qual for.
Baseado em factos verídicos, “Camino” é a história de uma menina de 11 anos que, por ter um cancro no cérebro, conquista a hipótese de ser beatificada. Passo a explicar: filha de uma senhora extremamente devota, Camino, de seu nome, está condenada a vir a ser freira, tal e qual como a sua irmã mais velha. Rodeada de religião por todos os lados, a jovem vê o seu calvário ser confundido com uma sequência de milagres e que atingem o seu ponto mais alto quando, já no leito da morte, o seu delírio moribundo é confundido com uma presença às portas do céu e um primeiro contacto imediato com Jesus.
Jesus, é na verdade o nome do rapaz por quem Camino se havia apaixonado, e é a ele que as últimas palavras e pensamentos da menina são dedicados. Estes equívocos chegam a ser tão ridículos que pensamos estar na presença de uma comédia de mau gosto. É precisamente por aqui que começamos a duvidar das verdadeiras intenções do realizador: é “Camino” uma crítica feroz ao comportamento da igreja ou um retrato apaixonado dos milagres de fé?
Convém referir que o filme de Javier Fesser coleccionou prémios em festivais um pouco por toda a Espanha e que o processo de beatificação da pequena Camino está ainda em curso. Se é que alguma destas informações é realmente importante…
No entanto, nem tudo são dúvidas, em “Camino”. Na verdade, saí do filme convencido de duas coisas que parecem não ter discussão: em Espanha, é muito fácil conquistar prémios de cinema, assim como é tremendamente simples ser-se beatificado.
Nuno Matos
A febre do amor
Eu sei, o título desta crítica é um tudo ou nada piegas. Mas “Febre da Fieno”, filme de estreia da italiana Laura Luchetti, é uma história de amor e de como esse sentimento nos deixa doentes, febris e incapazes de racionalizar normalmente.
A realizadora, presente no Rivoli, fez questão de descrever o seu filme como sendo um moderno conto de fadas. Não diria tanto, mas que é um filme simpático, despreocupado e bem disposto, lá isso é, E produziu esse mesmo efeito nos poucos espectadores que tiveram disponibilidade para o ver.
Passado em Roma, “Febre da Fieno” mostra-nos a vida de um grupo de pessoas, unidas em torno de uma loja de artigos vintage, mas acima de tudo ligadas pelo amor; pelo amor que se sente, pelo amor que se perde e pelo que se conquista. E isso chega para fazer deste um filme bonito, suave e demasiado agradável para se levar a mal alguma pieguice em que incorre, eventualmente.
E depois, como seria possível não gostar de um filme que tem uma banda sonora de eleição, encabeçada por esse génio sentimental de seu nome Devendra Banhart?
Em suma, ” Febre da Fieno” foi um dos filmes simpáticos do Fantasporto 2011 – a par de outra obra italiana, “18 Anno Dopo – e de tal forma influenciou positivamente o público no Rivoli, que ninguém sequer sentiu o choque de transitar da violência de “Secuestrados” para a delicadeza proposta por Laura Luchetti.
Esta é a prova de que todos os géneros cinematográficos podem coexistir pacificamente no mesmo festival, na mesma sala e para o mesmo público. Basta, para isso, que tenham qualidade.
Nuno Matos
Como nos bons velhos tempos…
É tão bom, entrar no Rivoli, acomodar-me naquelas cadeiras que, ao fim de uma semana , o corpo já não suporta, e ser transportado para um tempo em que o Auditório Nacional de Carlos Alberto ainda era uma sala confortável e acolhedora, e em que o Fantasporto era um festival interessante e surpreendente.
Momento destes foram raros, na presente edição do Fantas. Até ontem, só por duas ou três vezes, me tinha realmente sentido preso ao ecrã. “Secuestrados” agarrou o público pelos colarinhos, e durante 80 minutos não parou de o sacudir, empurrar, agredir e assustar. Foi, a todos os níveis, o filme mais intenso e violento que passou pelo Rivoli este ano.
Realizado por Miguel Àngel Vivas, “Secuestrados” conta a história de uma família que, na primeira noite na sua casa nova, acaba por viver um pesadelo nada condizente com o que deveria ser uma ocasião festiva. O tema não é original, e a organização do festival compara-o mesmo a “Funny Games”, de Michael Haneke.
A comparação não é descabida. A grande diferença, é que enquanto Haneke realizou um filme que atacava o nervoso miudinho dos espectadores, Vivas apostou na violência pura e dura, não escondendo nada do público. Aliás, essa é uma das qualidades de “Secuestrados”: não há segredos, não há grandes surpresas guardadas e tudo é muito simples e, de certa forma, próximo da realidade.
Genial é a opção do realizador em construir o seu filme através de planos-sequência, alguns de largos minutos, sem no entanto perder qualquer energia, tensão e emoção. E “Secuestrados” é, de facto, um filme que leva estes três atributos ao limite do suportável. Culpa da mão firme do realizador espanhol, e culpa também de um elenco irrepreensível e que se entregou totalmente ao desempenho de papéis nada simples.
Único defeito de “Secuestrados”: não querendo abdicar dos planos-sequência, Miguel Àngel Vivas opta, por vezes, em mostrar duas acções em simultâneo, recorrendo, para isso, ao ecrã dividido. Não funciona. E não funciona porque a acção é tanta e de tal maneira electrizante, que o espectador acaba por não se conseguir concentrar em nenhuma.
É pena. Assim não fosse, e estaríamos perante um filme perfeito. Ainda assim – e pese embora mais uma decisão pouco compreensível da organização, que o empurrou para uma pouco digna primeira sessão da tarde – é muito possível que “Secuestrados” não saia deste Fantasporto de mãos a abanar.
Nuno Matos
Carancho, um abutre vindo da Argentina
Um advogado chamado Sosa, que perdeu sua licença para praticar, mas que continua a trabalhar nas ruas durante a noite de Buenos Aires. Oferecendo aos clientes lesados o serviço de seguros e indemnizações de uma empresa predatória que irá paga-los, entre um quarto ou um quinto do valor, é conhecido nas ruas como abutre. Quando ele encontra pela primeira vez Luján, uma médica que tem um horário sobrecarregado entre emergências de ambulância para ganhar dinheiro extra e a urgência no hospital, ela parece ser o anjo que pode resgatar a existência deste advogado.
Estas duas almas feridas acabam por se apaixonar, é claro, mas este é o tipo de história onde cada um tem segredos que não consegue dizer ao outro não poderá ter um final feliz. Sosa está em dívida com algumas pessoas e acaba fazendo algo que é criminoso e quase imperdoável para Luján.
Trapero mantém a tensão crescente, gradualmente forte, e o director de fotografia Julián Apezteguia alterna entre cores saturadas e nightscapes. Num estilo de filmagem que faz lembrar o filme “Amor Cão”, a velocidade é quase a mesma. Com um esquema de argumento e filmagem como este, seria fácil para “Carancho” ser implacável, até mesmo comicamente sisudo, e há alguns momentos de espiral dos personagens que arrastam toda a história com eles. Entre o advogado que tenta conciliar as contradições inerentes a um homem que foi violentamente empurrado para um mundo violento, mas que parece estranhamente a jogar em casa, e a médica com nuances de junkie, em que o consumo de drogas são consequência quer do ritmo do seu trabalho quer de uma dependência voluntária. Trapero conduz-nos até ao fim com integridade e para uma chocante conclusão do filme.
É um retrato fiel da corrupção enraizada na sociedade urbana da Argentina. Interessante tanto pela caracterização social como pelas voltas do guião que não nos deixam acomodar. A chave está precisamente na forma como nos obriga a atenção mesmo até ao último frame.
Pedro Ferreira
“R U There”
O cinema, como qualquer outra arte, suponho, é altamente influenciado por acontecimentos marcantes na história da humanidade, modas, tendências e gerações marcantes por uma razão ou outra.
Hoje em dia, é visível a influência da Internet, e especialmente das redes sociais, em muitos dos argumentos que chegam ao grande ecrã. “R U There”, do holandês David Verbeek, por exemplo, tem como ponto de partida as competições de jogos online e o mundo virtual do Second Life, mas é muito mais do que isso.
Jitze, interpretado por Stijn Koomen, é uma espécie de super-estrela dos jogos em rede, e está em Taipé para disputar uma importante competição. Reservado e muito concentrado nos seus objectivos, Jitze vive fechado no seu mundo virtual, pouco dado a contactos de índole social. Até ao dia que conhece Min Min e se apaixona.
É a partir desse momento que percebemos que “R U There” não é um filme sobre o fenómeno da Internet mas sim sobre o isolamento e a dificuldade em comunicar e sobre as diferenças entre culturas. No limite, “R U There” é também uma história de amor. Bonita, diga-se.
O problema reside no ritmo que Verbeek impôs ao seu filme. Tudo é demasiado lento e excessivamente contemplativo. A comparação é exagerada, mas por vezes “R U There” faz lembrar “The Thin Red Line”, de Terrence Malick. Por ser tão pausado, tão silencioso e, aqui e ali, tão poético.
Só que não é Malick quem quer, e as boas intenções do realizador, acabam por prejudicar um filme simpático e de que apetece gostar. Fica a ideia de que um pouco menos de ambição não lhe teria feito mal nenhum.
Nuno Matos
Para molhar o pãozinho
Não se preocupem, esta crítica não tem nada a ver com culinária. «Molhar o pãozinho» era a expressão favorita do público do Fantasporto quando este ainda era (literalmente) um festival de sangue, tripas e mortes violentas.
Este ano, apesar de já se terem visto algumas coisas do género, nenhum dos filmes tinha cumprido as regras de ouro do bom cinema gore. A espera terminou ao 6º dia de festival e com um improvável filme de terror israelita de seu nome “Rabies” (Kalevet, em hebráico).
Realizado por Ahron Keshales e Navot Paposhaddo, o filme demonstra na perfeição a velha Lei de Murphy, que defende que “se algo pode correr mal, correrá mal da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. E em “Rabies” as coisas correm terrivelmente mal para um grupo de pessoas que, por uma razão ou outra, se encontram na mesma floresta, no pior momento e na pior altura.
Não se sabe se seria essa a intenção dos realizadores, mas é possível ver nestes acontecimentos tenebrosos uma metáfora da condição humana e de como esta facilmente se transforma numa selvajaria irracional. Porque de facto, e pensando bem, nada faz prever a barbárie com que somos presenteados durante uma bem passada hora e meia.
Quando um filme arranca palmas a cada uma das mortes, isso significa duas coisas: que é um filme de «molhar o pãozinho», à boa moda do antigo Fantas, e que, por isso mesmo, diverte o público.
Já aqui foi dito, num post anterior, que o Fantasporto deste ano tem sido marcado por filmes pouco entusiasmantes e, sejamos sinceros, bastante chatos. Por essa razão, ver “Rabies” em clima de festa foi, ao mesmo tempo, nostálgico e muito, muito divertido. Mais um ou outro como ele, e o Fantas 2011 seria bem mais interessante.
Nuno Matos
O diabo no Fantas
Comecemos por uma previsão: “I Saw The Devil” vai vencer o Fantasporto 2011. Já sei, prever estas coisas pode muito bem ser um risco desnecessário. Mas enfim, tantos anos como espectador do Fantas ajudam a perceber quais são os filmes que ainda conseguem impressionar o júri.
Não é a primeira vez que Jee-woon Kim apresenta um filme seu no Fantasporto. Em 2004 venceu o festival com “A Tale of Two Sisters” e em 2009 trouxe o delírio western-spaghetti de seu nome “The Good The Bad The Weird”. Ou seja, é um daqueles nomes cuja descoberta é gritada a plenos pulmões pela organização do Fantas.
Falando do que realmente interessa: o novo filme de Jee-woon Kim é realmente bom e se a previsão se concretizar, e o principal prémio do certame lhe for dirigido, será inteiramente justo. Por todas as razões.
O argumento é genial, a acção e tensão são magistralmente doseadas, e os actores estão em absoluto estado de graça. Min-sik Choi e Byun-hun Lee não são nomes propriamente conhecidos do grande público, mas assinam interpretações electrizantes, de intensidade acima do normal e são os principais culpados por passarmos mais de duas horas agarrados à cadeira. Por prazer, não por medo ou desconforto.
Choi já tinha surpreendido o público do Fantas com um papel igualmente intenso no filme “Oldboy”, de 2003. Em “I Saw The Devil” leva ainda mais longe as suas capacidades e mostra todo o seu potencial de actor. Concorre, sem dúvida, para o prémio de melhor actor do festival.
Em suma: o filme de Jee-woon Kim parece ter enchido a barriga do público presente no Rivoli. Simultaneamente, deu a este Fantas, até agora tão pouco entusiasmante, um cheirinho do que era o bom velho Fantasporto. O festival de cinema de que tanta gente sente ainda falta.
Nuno Matos
Finalmente, ar fresco
É sabido, o Fantasporto há muito que deixou de ser um festival de cinema de terror e de fantástico. A decisão mudou significativamente o cartaz do certame, que, logicamente, passou a contar com uma maior variedade temática.
As consequências dessa mudança são muitas e, provavelmente, discutíveis, mas a verdade é que essa abertura a outros géneros trouxe ao Porto algumas pérolas da sétima arte. “18 Anni Dopo”, de Edoardo Leo, pode não ser uma pérola, mas é sem dúvida a primeira obra de qualidade indiscutível desta 31ª edição do Fantasporto.
A história é simples e bem contada, sem grandes reviravoltas e complicações desnecessárias. O sentido de humor tipicamente italiano conquista-nos, e o pequeno (sem exageros) drama familiar comove o suficiente para nos sentirmos na pele daquelas pessoas. É uma história simples, repito, mas tocante e muito bem gerida por um realizador que se estreia, da melhor maneira, no grande ecrã.
De Edoardo Leo interessa dizer que é um actor italiano com larga experiência na televisão, que havia já realizado um tele-filme e que, nesta obra, assina, não só a realização, como também um dos papéis principais. E que papel! O seu Mirko é, indiscutivelmente, o ponto mais alto de um filme que prima pelo equilíbrio e pela discrição. Mirko é, simultaneamente, a personificação do drama e da comédia em “18 Anni Dopo”.
É realmente uma pena, um filme destes não ter honras de horário nobre no Fantasporto. A haver alguma justiça na hora de decidir prémios, “18 Anni Dopo” pode muito bem ser um dos mais galardoados e Edoardo Leo distinguido como o melhor actor.
Nuno Matos
Rumo ao Oriente no comboio do cinema Sul Coreano
Em 1999, “Shiri” tornou-se o filme de maior sucesso na história do cinema sul-coreano, campeão de bilheteira não só na Coreia do Sul, mas também de Hollywood. Na verdade, o filme é tão assertivo e emocionante como qualquer produção americana a que estamos habituados. Enquanto os especialistas em cinema, apesar de cientes do sucesso e do porquê, do realizador Im Kwon-taek, as entradas em festivais multiplicaram-se pelo mundo todo. Em casa, “Shiri” marcou o início de um renascimento de uma indústria comercialmente viável, artisticamente aclamada que lançou a Coreia no palco global.
Apenas dois anos após a sua produção, filmes coreanos no próprio país conseguiam o domínio de bilheteira, algo que não acontecia antes perante o monstro concorrencial de Hollywood.
Enquanto o cinema americano continua cheio de filmes adaptados da BD, jogos de computador, “remakes” e sequelas, as coisas não são o mesmo no resto do mundo. Como o cinema mundial se está a tornar menos dominado por uma constante saturação de filmes americanos, destaca-se hoje uma das escolas que nos tem chegado muito por culpa do Fantasporto.
A Coreia do Sul tem visto um aumento de produção e distribuição do seu cinema nos últimos dez anos. Produzindo filmes que são experimentais e divertidos ao mesmo tempo, as histórias abraçam facilmente as plateias. Não são só os fãs de cinema puro que o reconhecem mas Hollywood também, ao tentar produzir “remakes” de alguns dos mais conhecidos filmes da geração actual de realizadores sul-coreanos.
Qual a chave para o sucesso do cinema sul-coreano? É sobre a história, não é apenas como criar uma boa história mas com a qual o público se pode relacionar. Fazem-no sobre a vida familiar disfuncional, tradicional ou não-tradicional e como cada um de nós lida com ela. Sobre a violência física e psicológica, tantas vezes sobre vingança. Sempre com muita reflexão sobre a condição humana e sobre a forma como vivemos na sociedade actual. Desligados pelos telemóveis, computadores e todos os outros meios de relacionamento. Depois, é só adicionar as explosões, as ondas gigantes, monstros, vampiros, loucos ou qualquer trama secundária que toda a gente gosta de ver em cinema mas sempre no meio do caos já instalado.
Sem viver lá ou alguma vez ter visitado sequer a Coreia do Sul, só resta especular sobre aqueles que crescem num país que teve e tem uma história turbulenta com o país vizinho a norte e variados sistemas políticos presentes nos países em torno dele. Serão as razões históricas e sociais factor para despoletar este tipo de cinema?
Pedro Ferreira
A Tempestade que varreu o Fantasporto
Julie Taymor adapta para versão cinematográfica “A Tempestade”, de William Shakespeare. É uma produção pictórica cheia de cor, movimento e paixão. Junta com um elenco de estrelas e só não é um sucesso maior em Portugal porque as pessoas ainda vivem de muitos preconceitos contra o teatro e contra tudo o que não é prazer imediato. Não há surpresas na história, não e não é suposto.
Helen Mirren interpreta o Prospera (que é um personagem masculino chamado Prospero, no original). Prospera, que se tornou a legítima Duque de Milão, quando o marido morreu, foi exilada para uma ilha deserta, junto com a sua filha Miranda, de três anos, pelos adversários. Doze anos se passaram, e Prospera sente que agora é a hora certa para utilizar os seus poderes sobrenaturais e se vingar daqueles que a feriram e humilharam.
A eficácia global do filme reside na fusão dos conflitos humanos contra a presença monumental da natureza. Os aspectos desconfortáveis ao ar livre do filme foram filmadas em Lanai (Hawai), não é o meio habitual que estamos habituados a ver deste local, mas uma área dura, rochosas vulcânicas, pouco acolhedora. Os antagonismos da peça devem lutar contra este pano de fundo duro, enquanto Prospera, com o bastão mágico, relógios e espíritos controla as suas lutas de longe, no topo de um penhasco, com conforto e satisfação.
Sandy Powell criou os figurinos que completam um cuidado fotográfico exímio. Toda a música foi composta por Elliot Goldenthal, colaborador de longa data Taymor. Goldenthal criou também as canções adaptadas de Shakespeare, quer para os momentos de solo, quer para os coros.
Um “pacote” cinematográfico bastante agradável dentro do estilo, fotograficamente brilhante, concretiza uma adaptação ao cinema de uma das maiores referências do teatro.
Nota: não poderia deixar passar em claro a forma como uma boa parte da sala se comportou durante a sessão. Não são desculpáveis os suspiros enfadonhos e a forma como algumas pessoas de comportaram, como crianças a fazerem um frete. Se não sabiam, já deviam saber ao que iam. Estava bem explicito que era uma adaptação da peça de Shakespeare, são mais que conhecidos os pormenores fílmicos e de argumento. Se estavam à espera de uma alteração profunda dos diálogos enganaram-se. E já agora para quem achou que pessoas a cantar não era dali, consultem o texto original ou vejam no teatro e reparem que os coros existem.
A Tempestade devia começar nas mentalidades!
Pedro Ferreira
Serbian Music
Wikluh Sky é um “rapper” e produtor sérvio, mais conhecido por ser uma parte do trio de hip-hop, Bad Copy, participa no projecto Shappa e mantém uma carreira a solo. Wikluh Sky também é o compositor do filme sérvio, que tantas reacções indignadas tem provocado.
A banda sonora oscila entre a batida “hardcore” instrumental (com um kick-clap) e “dubstep”. A intensidade é constante e cria nos espectadores uma sensação de ânsia que dura durante o filme todo. O fim não é sequer previsível pela música porque essa mesma intensidade mantém-se e prolonga-se pelos créditos finais. Naturalmente que o visual deste filme é forte e é a principal causa de todos os comentários e polémicas mas depois de o ver por uma segunda vez posso dizer com toda a certeza que a banda sonora tem uma boa parte de culpa em todo o processo.
Se duvidam podem ouvir no link mais abaixo. Experimentam várias vezes seguidas e mesmo sem imagens fica qualquer coisa de incómodo.
Tanto Barulho Para Nada
Assumo: apetece-me falar mal de “A Serbian Film” (Srpski Film). Por dois motivos: primeiro, porque uma pequeníssima parte de mim enquanto espectador ainda acredita na publicidade que antecede a estreia de um filme; segundo, porque este filme em particular é realmente mau.
E a fama de “A Serbian Film” prometia. Filme-choque do ano, polémico, pornográfico, violento, ofensivo, repulsivo e tudo o que normalmente não se espera encontrar ao mesmo tempo em pouco mais de hora e meia de cinema. O problema é que nestas coisas das catalogações há uma parte importante da verdade que fica sempre de fora: a parte em que se destaca a baixa qualidade do filme. E o primeiro trabalho do sérvio Srdjan Spasojevic é irremediavelmente fraquinho. Por muito que o cineasta tenha subido ao palco do Rivoli para explicar que, para lá de toda a violência explícita, existe aqui uma poderosa metáfora sobre a Sérvia do pós-guerra, a verdade é que essa mensagem – ou qualquer outra, para os devidos efeitos – não chega sequer a ser residual. O mesmo é dizer que todos os ingredientes que deram fama a “A Serbian Film” parecem gratuitos e desprovidos de sentido. De tal forma que a única característica que o torna mesmo insuportável é o absoluto tédio a que sujeita os espectadores durante uns longos, longuíssimos 60 minutos.
Há, no entanto, que louvar o principal objectivo de Spasojevic e que é provocar o público. Um público que começava a estar demasiado acomodado a um cinema politicamente correcto. Ideal seria tê-lo feito com uma obra de alguma qualidade, que honrasse a coragem de se mostrar o que normalmente se esconde e que, no mínimo, conseguisse prender o espectador à cadeira por outras razões que não a curiosidade mórbida.
E volto a assumir a vontade que tenho de maltratar “A Serbian Film”. Porque é mau, muito mau, terrivelmente mau.
A Loucura
Já começava a fazer falta um filme como “The Last Employee”, nesta edição do Fantas. E porquê? Porque apesar dos organizadores insistirem em como este já não é um certame dedicado ao terror e ao fantástico, a verdade é que a maioria do público presente no Rivoli passa os dias à espera de, no mínimo, um calafrio desconfortável.
E o filme do alemão Alexander Adolph tem isso e muito mais. Não sendo uma obra de terror puro e duro, “The Last Employee” vive de um ambiente frio, rígido e filmado de uma forma quase geométrica, quase monocromática. Um ambiente pontuado por pequenos momentos desconfortáveis e inquietantes e que, num crescendo inteligentemente gerido pelo realizador, colocam o público na pele do protagonista.
Que, diga-se, não é um bom sítio para se estar. O desconforto é constante, a incerteza, permanente, e a dúvida sobre se o que estamos a viver é uma história de fantasmas ou o produto de uma mente descontrolada, incómoda. Por isso mesmo, damos por nós a torcer para que seja somente o comportamento errático de um espírito do além.
Revelar esse segredo é, como sempre, arruinar o seu efeito num filme inteligente, despretensioso e brilhantemente realizado por um cineasta com uma carreira de apenas quatro anos.
Por fim, uma referência muito especial ao trabalho de um actor que, à partida, ninguém dirá conhecer, mas que já participou em “Inglourious Basterds”, por exemplo. Christian Berkel é simplesmente magnífico no seu retrato de um homem instável e que esconde muito mais do que se pode imaginar e é desde já um dos favoritos para o prémio de melhor actor deste Fantasporto 2011.
Domingo à noite, no Fantasporto, no Grande Auditório do Rivoli
The Housemaid, de Im Sang_Soo às 21h15
A Serbian Film, de Srdjan Spasojevic, às 23h15
The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec
Um filme de Luc Besson é sempre coisa para criar alguma expectativa e ansiedade cinéfila. O homem é, na verdade, o único cineasta europeu que, fazendo filmes na Europa, consegue concorrer com os americanos em matéria de “blockbusters”.
O “5º Elemento”, por exemplo, foi a obra que, nos anos 90 fez renascer a ficção científica de uma estagnação que se julgava irremediável. Filme maior do realizador francês, mostrou ao público e especialmente à indústria cinematográfica, que os europeus também sabiam dar caminho a muitos milhões de dólares e, ao mesmo tempo, fazer cinema de acção com muita qualidade.
Não se percebe, por isso, porque se dedicou Besson quase exclusivamente à produção de filmes de outros realizadores. Percebe-se ainda menos porque regressou à realização com objectos como Artur e os Minimeus. Percebe-se, isso sim, porque decidiu adaptar a banda desenhada de Jacques Tardi e levar ao grande ecrã as aventuras de Adèle Blanc-Sec.
A heroína é uma espécie de Indiana Jones de saias na Paris do início do século XX. Mulher de pêlo na venta, combate monstros, descobre tesouros incas, desenterra múmias e ainda tem tempo para tratar mal os homens que lhe aparecem à frente. Por isso mesmo, “Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec”, prometia acção a rodos, emoção, suspense e todos os contributos que os livros de bolso da infância dos nossos pais deram à nossa imaginação infantil.
E a coisa começa bastante bem, pleno de ritmo e energia; com um sentido de humor irresistível e maravilhando precisamente esse imaginário infantil que tão mal tratado tem sido pelo cinema mais recente.
O problema é que Luc Besson parece ter-se esquecido de como gerir um filme de acção, e subitamente tudo o que parecia estar bem desaparece numa amálgama trapalhona e precipitada. A última meia hora de “Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec” é um corropio desenfreado, uma recta final feita aos tropeções e que deixa no espectador a nítida sensação de se estar a ver um mero episódio-piloto de uma série de televisão. E é pena.
Hahaha, as pessoas são complicadas
E ao segundo dia, eis que surge o primeiro filme simpático desta edição do Fantasporto, “Hahaha”, do sul-coreano Sang-soo Hong. Comédia de situação, Hahaha é um filme de conversa; de longas sequências em que o diálogo é o principal (e muitas vezes o único) artefacto.
O ponto de partida é também ele muito simples. Dois amigos sentam-se a uma mesa para comer e beber, e desfilam, quase ao desafio, histórias de uma época recente e nas quais tiveram papel de protagonistas. Histórias de encontros e desencontros, de paixões concretizadas e perdidas e de conversas à mesa enquanto se come, se bebe e se fuma.
“Hahaha” acaba por ser uma versão asiática de muitos dos filmes de Woody Allen. Não uma tentativa de copiar uma fórmula conhecida, mas sim um trabalho honesto e despretensioso, e por isso também, um filme simpático. Ao mesmo tempo é igualmente uma comédia de costumes, precisamente porque aborda os mesmos assuntos que o mestre do cinema americano, mas enquadrando-os na perspectiva da sociedade coreana.
O argumento não é particularmente engenhoso. Aliás, a grade qualidade do realizador, é a forma inteligente como gere as características das personagens e que são a origem de todos os desencontros já referidos. Como na vida real, diga-se. O humor é inteligente e ingénuo, quase infantil; os diálogos têm momentos verdadeiramente brilhantes e os actores portam-se excepcionalmente bem, sem exageros ou “overacting” irritante.
O único defeito (perdoável) de “Hahaha” parece ser a sua excessiva duração. As quase duas horas pesam na paciência do espectador, que a meio do filme, já percebeu que a história não foi concebida para ir a lado algum.
Ainda assim, é um filme que merece ser visto, quanto mais não seja para se perceber como ainda é possível entreter o público sem grandes artimanhas, efeitos especiais ou outros truques baratos.
Exorcismus – PSEUDO-REMAKE
Facto: o cinema de terror é como um gigantesco guarda-chuva que abriga inúmeros sub-géneros. Dois desses sub-géneros sofreram uma espécie de renascimento, nos últimos anos, mas sem que isso tenha significado um grande contributo para os fãs de sangue, tripas e outras viscosidades mais ou menos nojentas. Falamos, obviamente, dos filmes de zombies e dos filmes de exorcismos.
O grande obstáculo para qualquer realizador que se proponha a filmar mortos que voltam à vida e vivos com o diabo no corpo, é tão somente contrariar duas obras-primas do cinema de terror e, respectivamente filmes seminais nesses mesmos sub-géneros, “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero e “O Exorcista”, de William Friedkin.
No segundo caso, os filmes que abordam as possessões demoníacas e consequentes exorcismos, dividem-se em duas categorias: por um lado, os que parecem ser remakes não assumidos do trabalho de Friedkin; por outro, os que tentam fugir à comparação e se espalham ao comprido.
“Exorcismus”, do espanhol Manuel Carballo, é um bom exemplo da primeira categoria. Portanto, o que é que temos? Temos uma família de classe média, dois filhos, a mais velha, uma teenager incompreendida e a quem os pais não dedicam a devida atenção e, que mais cedo ou mais tarde, vai começar a revirar os olhinhos e a falar com voz grossa. O filme é fraco em todos os parâmetros, a começar desde logo pelo argumento, muito mal amanhado e, aparentemente, pobre na linguagem – alguns diálogos chegam mesmo a ser ridículos. Para não ficarem atrás, os actores são também eles fraquinhos e não chegam sequer a emprestar, a um trabalho destinado ao fracasso total, uma grama que seja de esforço e dignidade.
Facto: “Exorcismus” é um daqueles filmes que decididamente não ficam para a história; nem por ser muito bom, nem por ser irremediavelmente mau. Aliás, nem consegue ser sofrível. É um filme que não deixa mossa, que passa despercebido, ideal para quem o vê e rapidamente o quer esquecer.
Hoje à noite no Fantas…
The Extraordinary Adventures of Adèle Blanc-Sec, do aclamado e conhecido realizador Luc Besson.
And Soon the Darkness, de Marcos Efron.
The Reykjavik Whale Watching Massacre, de Julius Kemp.
O Filme Que Não Foi
Mantendo a tradição de abrir a secção de competição com uma obra prestes a estrear nas salas portuguesas, o Fantasporto apresentou ontem The Resident, com Hilary Swank e Christopher Lee, e realizado pelo finlandês Atti Jokinen.
Foi o próprio realizador quem explicou à audiência que “The Resident” era o concretizar de um sonho antigo: fazer um filme nos Estados Unidos, mais concretamente em Nova Iorque, e com uma grande estrela de Hollywood. Conseguiu-o, é um facto, mas essa deve ser uma proeza que tão cedo não deve repetir.
“The Resident” quer ser um thriller psicológico, seguindo a linhagem de um cinema que utiliza o voyeurismo como ferramenta ao serviço do suspense e que tão bem foi trabalhado, por exemplo, por Alfred Hitchcock. O problema é que Jokinen é um mero tarefeiro e falha em todos os elementos habitualmente associados ao suspense. Desde logo porque suspense é coisa que não existe. Tudo é demasiado óbvio, morno e tão previsível, que qualquer réstia de interesse que pudesse existir se esfuma aos primeiros quinze minutos de filme.
Para além disso, o realizador parece desconhecer uma regra de ouro do thriller. Se o vilão é desvendado ainda o filme não vai a meio, há que alimentar os espectadores com algo que lhes prenda a atenção: ou doses maciças de suspense, ou um twist final daqueles que deixam qualquer um perdido. The Resident não tem nada disso, e acaba por se resumir a uma longa e tortuosa hora e meia de coisa nenhuma. Hora e meia, basicamente, para matar o indivíduo que, já se sabia, teria obrigatoriamente de morrer.
Como é que um realizador da Finlândia, sem créditos firmados, e que se limitava a realizar documentários – e uma edição do Festival Eurovisão de Canção – chega a Hollywood? A resposta é fácil e está escondida no genérico de abertura de “The Resident”: um dos produtores do filme chama-se Renny Harlin, realizador responsável, entre outros, por “Die Hard 2″, e que, só por acaso, é… finlandês.
Bedevilled, uma mulher à beira de um ataque de nervos

Boki-nam é a personagem forte do filme que mostra como a catarse se pode tornar perigosa (Foto: Fantasporto)
Bedevilled não é um filme de vingança. Mais um exemplo do cinema sul-coreano que acaba por não deixar de nos surpreender com um thriller cheio de suspense e violência psicológica que esteve presente na selecção oficial da Semana da Crítica do Festival Internacional de Cinema de Cannes 2010.
Hae-won, funcionária de nível intermediário numa instituição financeira, em Seul, onde o ambiente corporativo claramente a deixou a oscilar no limbo de um colapso. “Tire férias”, são as ordens do seu chefe, que a levam de volta à ilhota ao largo da costa sul, onde ela cresceu. Do outro lado e em completo oposto de personagem está Bok-nam, companheira de Hae-won na infância, ainda mora no mesmo local numa realidade paralela em nada afectada pelo mundo globalizado e tecnológico. A comunidade insular habitada por por revelar a verdade escondida num paraíso perdido. Um marido violento, o seu irmão retardado e um bando terrível de mulheres mais velhas que perseguem Bok-nam.
A narrativa desenrola-se num ritmo lento e que dificilmente nos deixa prever a trama dramática antes do clímax. As duas mulheres tem um passado em comum que se vai revelando ao longo da história e que só no fim se percebe o porquê da tensão acumulada e dos motivos que minam a aparente calma na relação de amizade. Muito do filme vive da forma como Hae-won se esforça para dar corpo a uma personagem que é mais um catalisador que um ser humano, ela torna as cenas de emoção mais fortes, sem palavras, silenciosa e inesperada. Basicamente toda a gente se cansa e toda a gente tem um ponto em que tudo se torna insuportável.
O crescendo da tensão entre personagens e o coro das anciãs sempre dispostas à critica faz com que no público essa tensão se sinta também e acaba por não ser por acaso, a quantidade de palmas e gritos de apoio que se ouviram na sala aquando dos primeiros sinais de reviravolta da história que compensam o público num “pay-off” que é visceralmente satisfatório.
Um Camaleão à solta no Fantasporto
The Chameleon
Um ente querido que está de volta, mas algo não está certo. Uma agente do FBI, marcada pelo passado, para quem a história do jovem não se encaixa. Mas se ele é quem diz, porque mantém a família a história? E se ele não for, então quem é ele. Como peças de um puzzle o passado revela segredos profundos e escuros. Frederick Bourdin, um jovem, passou a maior parte da sua vida, iludindo as autoridades de vários países personificando e assumindo a identidade de adolescentes que foram sequestrados ou estão como desaparecidos durante vários anos. Ele é conhecido como o “Camaleão”.
Um filme baseado numa história real que foge um pouco aos cânones do filme que esperamos ver no Fantasporto.























