Especial Rascunho e JUP

Crítica

Sede de sangue e sala cheia em “Thirst” de Chan-wook Park

O padre Sang-hyeon e a outra protagonista do enredo Tae-ju. (Foto: Fantasporto)

Numa altura em que já começamos a estar todos cheios de filmes, livros e sabe-se lá mais o quê sobre vampiros estes podia ser só mais um filme de vampiros, não fosse mais uma vez a inspiração genial de Chan-wool Park. Filme com presença no Festival de Cannes e com cartaz censurado na Coreia do Sul esgotou ainda durante a tarde o Grande Auditório do Rivoli.

Um padre em busca da solução última de salvação das almas que se submete a uma experiência clinica, ao estilo de um São Francisco de Assis dos tempos modernos, onde acaba por se submeter a uma transfusão de sangue para lhe salvar a vida. É dado como morto e ressuscita com uma incontrolável sede de sangue humano, uma enorme força física e vigor sexual, a segunda aquisição incompatível com a batina que acabará por largar. Park volta à sátira sobre os valores e sobre a condição da vida humana. Uma reflexão sobre sentimentos e sobre as diferentes formas de amor e ódio.

Fotografia de excelente qualidade, pormenores, trabalho de actores e algum surrealismo e muita expresão e claro a marca de imagem do realizador nos contrastes de sangue com ambientes alvos onde castidade e vida se confrontam com sexo e morte. O que resta: corpos no seu processo físico de destruição que, no entanto, não apresentam qualquer perspectiva de fim. Por aí o final do filme – que não vou revelar, não deixa de inferir, vai romper a noção de destruição infinita, ao mesmo tempo que revela um projeto que, por muitas vezes, acaba por se esquecer do todo.


Wonderful Days e Fausto 5.0, regressos antes do arranque oficial

No dia 25 de Fevereiro o Fantasporto proporcionou mais uma sessão dupla de filmes que fazem parte das projecções que antecedem a abertura oficial do festival. Nesta visionámos os filmes Wonderful Days, de Moon-saeng Kim, e Fausto 5.0, de Álex Ollé e Isidro Ortiz.

Wonderful Days de Moon-saeng Kim

Wonderful Days, inserido na secção “Robótica e Cinema”, é um filme de animação sul-coreano que conta a história de uma cidade futurista que se alimenta e cresce à custa da poluição do mundo. A narrativa do filme não se apresenta fora do comum, a relação entre dois personagens apaixonados que juntos tentarão mudar uma sequência de acontecimentos que se prevêem inevitáveis e destrutivos. Dotado de uma boa composição em termos de textura dos cenários e de movimentos de câmara – que na animação se tornam possíveis de uma forma única e diferente dos formatos tradicionais cinematográficos – o filme encontra-se do ponto de vista técnico muito bem conseguido. É ainda utilizado um cruzamento de técnicas entre o 2D e o 3D. As personagens desenhadas de uma forma tradicional e exemplar da anime asiática, principalmente da japonesa, colocam o filme num género mais ou menos definido. Um filme que retrata algumas das preocupações actuais em relação ao ambiente de uma forma futurista. Algumas das sequências dos acontecimentos estão, na minha opinião, algo mal explicados e acontecem um pouco inesperadamente, mas esse não seria, de qualquer forma e em príncipio, o objectivo do filme. Uma boa experiência visual em termos técnicos e da percepção dos espaços físicos que envolvem toda a aventura.

Fausto 5.0 de Álex Ollé e Isidro Ortiz

Nova leitura do mito de Fausto, o homem que vende a alma ao diabo, em busca da imortalidade. (Foto: Fantasporto)

Fausto 5.0, o segundo filme da noite, revelou-se uma boa surpresa. Uma estória de um doutor cirurgião abatido pelo stress da vida e que deixou de apreciar os momentos mais simples desta encontra um ex-paciente seu, a quem tinha retirado o estômago. À partida teria sido impossível a este paciente viver mas a verdade é que ele persegue o médico durante todo o filme e vai fazer com que este descubra e passe a olhar a vida de outra forma. O médico irá até, pelo menos, até perto do final, desconfiar deste homem que parece estar em todos os sítios de forma imprevista e inexplicável sempre pronto a “realizar os seus desejos”.
O filme apresenta-se bastante rico em pequenos pormenores ao longo de toda a acção sendo muitas vezes esta acompanhada de situações caricatas, divertidas e por vezes bizarras. Um filme surpreendente sobre a descoberta de pontos de vista positivos da vida e que nos deixa um final de certa forma em aberto.


De Robótica a Espíritos

A sessão dupla do terceiro dia do Fantasporto foi marcada por dois temas aparentemente divergente (virtualidade e transcendente espiritual), mas que apresentavam abordagens semelhantes. O real e o virtual ou sobrenatural, misturam-se e condicionam as acções e sentimentos humanos.

Tecknolust – Lynn Hershman-Leeson

O primeiro filme, retratou a história de uma investigadora biomédica, Rosetta Stone, que clona os seus genes e cria três mulheres à sua imagem e semelhança, no entanto essas criaturas possuem características distintas. Uma é sedutora e fatal, outra ambiciosa e com uma curiosidade aguçada, a terceira é conformada e obediente. No entanto, todas possuem seus próprios medos, desejos e anseios, além de serem frágeis aos germes das cidades, só podendo equilibrar seu organismo com esperma masculino.  Aí está o mote do filme, que de maneira um pouco caricata, tenta difundir a ideia de que o homem contamina e é contaminado, seja pela necessidade de aperfeiçoamento e de não-aceitação da sua própria condição, seja por se permitir contaminar pelo vírus da modernidade, que torna cada vez as máquinas mais humanas e os homens mais robôs. Psicologicamente, o filme retrata o medo, o anormal e o contagioso que existe nas relações sociais.

A Tale of Two Sisters – Ji-woon Kim

 A Tale of Two Sisters (Foto: Fantasporto)

A Tale of Two Sisters (Foto: Fantasporto)

O Segundo filme da noite, também tem como protagonista uma mulher, a jovem sul coreana, Su-mi, que ao retornar para sua casa após um tratamento psiquiátrico, se depara com o medo do conhecido e desconhecido que assombra as lembranças ocultas de sua família. O realizador Ji-woon, consegue um drama psicológico capaz de associar montagem, trilha, actuação e roteiro em uma trama envolvente, além de uma edição inteligente e assustadora. O clichê fica a cargo do mote final, onde em forma de flashs é desvendado o mistério da tormenta da jovem, com relação à morte da irmã. Fica a cargo do público descobrir o que é real ou não na história. A fotografia é outro factor importante, um jogo de arte que permite ao longa um ar matinal e a casa onde o filme se passa, consegue ser ao mesmo tempo linda e sinistra.

De forma excepcional o director coreano, mostra como as relações interfamiliares doentias, podem perturbar gerações distintas de uma mesma descendência. Muito valorizado no oriente, o tema da transcendentalidade permite fazer associações com o real, o imagético e o sobrenatural, possibilitando que atitudes sociais tidas como doentias e até mesmo inexplicáveis, tenham algum sentido e explicação psico-emocional. A ficção que ganhou o prémio de melhor realizador e actriz no Fantasporto de 2004, reúne em um mesmo ambiente familiar os descontroles humanos, associados aos sentimentos de inveja, medo, arrogância, impotência, timidez, culpa e ironia, que apoiados no transcendente dão sentido à trama psicológica do filme.


Segundo dia e mais uma sessão dupla

No segundo dia do Fantasporto 2010,  o Grande Auditório do Rivoli contou com uma sessão dupla de filmes. Com início pelas 21h30 os filmes apresentados foram Tetsuo 2 The Cyberpunk, de Shynia Tsukamoto, e Cronos, de Guillermo del Toro.

Tetsuo 2 – The Cyberpunk

O primeiro filme faz parte da secção «Cinema e Robótica» existente este ano no festival. Trata-se de uma experiência inquietante e perturbadora de imagens e sons. Sendo filmado com uma camâra quase sempre a uma velocidade vertiginosa, onde os sons incomodativos acompanham toda a acção, é um filme que apresenta uma tonalidade sempre fora do comum, ora marcado pelos altos contrastes de azul ora por contrastes mais amarelados.

Tetsuo II (Foto: Fantasporto)

O universo cinematográfico, e também cultural, japonês remete-nos muitas vezes para a relação homem-máquina. E não só o homem está ligado à máquina como o homem é a própria máquina e esta reproduz as suas vontades e desejos mais profundos. Mas existe também o outro lado da questão, a dúvida que assombra os desejos humanos, as questões que colocará o homem-máquina a si próprio num futuro. Não se trata apenas de ter a maior arma de todas, ainda que grande parte do filme viva disso, da troca de tiros com metralhadoras e bazucas gigantes, e ainda bem porque é a isso que o filme se propõe também, trata-se de estar tão intimamente ligado com o desejo destrutivo humanos que a arma se torne uma extensão natural da brutalidade agressiva existente em nós. Isto levanta toda uma série de questões relativamente ao que nos move enquanto criaturas pensantes e que se aniquilam a si próprios. A paisagem citadina é uma constante, a maquinação do sujeito, os cenários sujos e degradados pela destruição bélica.

O filme é ainda uma experiência do ponto de vista da montagem, talvez não só da montagem, da noção de sequências dos planos. Sempre a grande velocidade apresenta imagens aleatórias de texturas, stop-motion e película que parece riscada e que lhe atribui um efeito específico e bizarro. Um bom filme, uma experiência aterradora de um grande realizador do fantástico actual.

Cronos

O segundo filme – Cronos, de Guillermo del Toro – apresenta-nos uma estrutura narrativa mais linear, existe uma história que tem um propósito de apresentar uma série de acontecimentos um pouco mais específicos. Um inventor constrói a máquina da imortalidade, o resto já se adivinha; luta entre dois homens pela máquina com todas as intrigas possíveis pelo meio e ainda a morte e a ressuscitação de um deles.

É um filme incluído no conjunto de «Vencedores Fantasporto» de anos anteriores. Neste caso, ganhou um Grande Prémio, Prémio Melhor Actor e Prémio do Público em 1984. Um filme interessante onde um imaginário um pouco mais adulto reina. É o primeiro filme de Guillermo del Toro, que realizou Hellboy e O Labirinto de Fauno, por exemplo e para ilustrar alguns dos mais conhecidos.


Crítica: «The Escapist», de Rupert Wyatt

A 19ª Semana dos Realizadores do Fantasporto contou, este ano, com mais uma boa surpresa do velho continente, o refinado The Escapist, do realizador francês, radicado em Londres, Rupert Wyatt.

the-escapistThe Escapist dá-nos a conhecer a história de Frank Perry (Brian Cox), um presidiário, condenado a prisão perpétua, que decide fugir da prisão quando recebe a notícia de que a filha está com graves problemas de toxicodependência. Perry começa então a reunir uma equipa de presidiários, cada um com os seus talentos, e a elaborar um plano de fuga.  (A forma como planeiam a evasão é bastante original: a cena passa-se numa mesa de dominó em que as peças representam os obstáculos que o grupo terá de ultrapassar para atingir o seu objectivo.)

Numa primeira fase, o filme vive muito do aspecto visual e sonoro, passando-se um largo tempo quase sem falas das personagens, mas, mesmo assim, com grande dinamismo.

Para além de um final notável, a magia do filme reside no período de tempo em que decorre a fuga, que nos é mostrado, à boa maneira de Lost, durante o decorrer do enredo, não em flashbacks, mas flashfowards. The Escapist ganha ainda muito com as grandes interpretações, não só de Brian Cox, que ganhou o Prémio de Melhor Actor no Fantas, mas também de Joseph Fiennes e Steven Mackintosh.

Para quem gosta de filmes de fugas de prisões, The Escapist é um filme a não perder: introduz um novo conceito neste género – a fuga de consciência.


Hora dos prémios

Idiots and Angels, do velho conhecido do Fantas Bill Plympton, acabou por ser o vencedor da 29ª edição do festival, arrecadando o prémio da secção Cinema Fantástico. Esta secção destacou ainda Hansel & Gretel com o prémio especial do júri (que acabou por vencer na categoria Orient Express) e James Watkins com o prémio de melhor realização Éden Lake. Na secção Semana dos Realizadores, Moccow, Belgium foi o galardoado, ficando o prémio especial do júri para Wim Wenders  com o seu Palermo Shooting, e melhor realizador para Bent Hamer por O’Horten. O Prémio da Crítica foi para Delta, de Kornel Mundruczó e o da Audiência foi para The Wrestler, de Darren Aronofsky.

É ligeiramente bizarro que o prémio do 29.º Fantasporto tenha sido atribuído a um filme de animação sem diálogos enquanto Palermo Shooting, que virá a ser um dos pontos de destaque da filmografia de um dos maiores cineastas europeus, tenha apenas levado apenas uma medalha de participação. Por esta altura também já se perdeu a necessidade de manter o apartheid a filmes vindos da Ásia, já não é uma novidade que há filmes muito bons a originar ali. Mas o facto de haver uma categoria como Orient Express poderá explicar como Hansel & Gretel ou The Chaser (este último com uma menção especial na categoria) não tenham obtido um maior destaque nos prémios principais.


Crítica: «Hair High», de Bill Plympton

hh-cover-image-754325Antes do premiado Idiots and Angels, o Fantasporto exibiu outra longa-metragem do cineasta americano Bill Plympton. Em Hair High, é-nos contada a história de Cherrie e Spud tornada lenda. Ao chegar à sua nova escola secundária, Spud começa mal: uma pequena «boca» à «querida» Cherrie, futura rainha do baile, faz-lhe colher o ódio de todo o liceu incluindo, claro está, o namorado da mesma. Castigo: ser o escravo de Cherrie, com a condição de não se apaixonar por ela. Obviamente, a química acaba por operar entre os dois, e é a tragédia. Para continuar a ser o rei do baile, o ex-namorado de Cherrie está pronto a tudo. Mas isto, sem contar com os poderes de ressurreição dos dois amantes.

Esta história inspirada no filme Carrie, de Brian de Palma, nunca chega nem de perto nem de longe ao mesmo nível de terror. Aqui os exuberantes penteados das personagens dão o tom ao filme. Qualquer pormenor é uma boa oportunidade para entrar em devaneios surrealistas quase sempre deliciosos, algumas vezes no limite da saturação. Quando Plympton brinca com as formas, as texturas e os sons (coisa que ele parece gostar de fazer), a desproporção é regra. O humor oscila entre o espalhafatoso e o súbtil, sem nunca desiludir. O estilo de Plympton é bem perceptível, numa história em que poucas, mas boas cenas, que se podem definir de gore (ou simplesmente de «nojentas», pelas reacções do público) pontuam o seu filme de animação.


Crítica: «Palermo Shooting», de Wim Wenders

Palermo Shooting não é só um filme. Da forma como o fim para o qual foi pensado pelo realizador transformam-no quase automaticamente num filme de culto. Um filme com uma fotografia exemplar pensado quase fotograma por fotograma, sensível ao movimento e com um ritmo lento mas propositado para nos arrastar para a forma como sentimos a passagem do tempo.

Os ingredientes estão todos lá e passando pela homenagem até ao ponto do ensaio, as referências para a filosofia inerente ao acto da captação de imagem agiganta-se sobre o público causando um rol de sensações que nos acompanham por muito tempo depois de sair da sala. Bergman e Antonioni são assumidos, mas há no filme muito mais. Há Dziga Vertov no Homem por trás da Camera de Filmar, há Barthes na procura do entendimento entre o fotógrafo e o objecto. Há um pouco de nós todos e não foi por acaso que na apresentação do filme Wenders disse que era o primeiro filme interactivo a passar pelo Fantasporto.

A história do filme é simples. Um fotógrafo famoso de renome mundial quer nas artes como na moda, Finn leva uma vida agitada, dorme pouco, o telemóvel nunca pára de tocar e a música dos seus auscultadores são a companhia mais constante e que lhe dão o poder de se isolar completamente do mundo. Na verdade a música é o primeiro tijolo na construção de um mundo só seu que tenta recriar nas fotografias que faz. A verdade fotográfica e a manipulação, o drama do fotógrafo perante a impossibilidade de capturar o momento e a preocupação atenta com o que rodeia caracterizam esta personagem tipo com a qual é fácil, para qualquer fotógrafo, se identificar.

Subitamente, a sua vida fica fora de controlo, uma viagem que o transporta para fora de si mesmo leva Finn a partir e deixar tudo para trás. A sua viagem leva-o de Dusseldorf até Palermo. Aí, vê-se perseguido por um misterioso atirador que o segue com um propósito de vingança. Sobre o resto, contá-lo seria um spoiler. O melhor conselho é que o vejam atentamente e o interpretem da forma que o realizador nos aconselha: sintam-se atingidos pelo shoot deste filme e interajam com ele.

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Crítica: «Idiots and Angels», de Bill Plympton

Um negociante de armas frequenta todos os dias o mesmo bar. Olhos pesados, corcunda, sempre a fumar e a beber: os aspectos físicos denunciam o carácter imoral, corrupto e violento do protagonista. Um belo dia, o homem percebe que lhe está a crescer, nas costas, um par de asas que possui vida própria. A bondade e a justiça das asas fazem o homem tentar livrar-se, sem êxito, daquele fardo que outrora lhe parecera um grande bónus. As asas nascem para aproximar o anti-herói da mulher que ama, a esposa do dono do bar, e acabam por tornar-se o objecto símbolo da redenção do homem.

Bill Plympton constrói um belo filme de animação, no sentido mais clássico e estético a que a palavra belo possa ascender. É uma leitura muito peculiar de fábulas que permeiam a memória colectiva. A construção do enredo até parece uma continuação da alegoria da Parelha Alada, de Platão. Nesta alegoria, o homem fez tantas coisas erradas que as suas asas perderam as forças e, sem elas para o sustentar, o ser humano caiu no mundo das sombras, condenado a pairar apenas pelos espectros da verdade.

Plympton devolve ao homem as asas neste mundo sombrio de excessos – grosseria, perversões sexuais, corrupção, ambição desmedida. E todas essas violações estão subordinadas a uma: o excesso de liberdade leva o ser humano a ignorar os seus próprios limites, o que culmina em solidão e escárnio.

Em termos estilísticos, o filme é sóbrio e elegante. O tom lírico (e por vezes onírico) é preservado em meio a cores mornas e a um traço de desenho denso, com muitos rabiscos e um acabamento prodigioso. A trilha sonora é um espectáculo à parte, inclusive com a participação de Tom Waits.


Crítica: «Hansel & Gretel», de Lim Pil-Seong

hansel_gretel_001Um jovem nervoso fala ao telemóvel e tem um acidente de carro. O princípio poderia ser o de uma qualquer banal história de drama. Quando acorda do acidente é conduzido por uma angelical jovem até uma casa onde tudo é demasiado e assustadoramente infantil. Por toda a casa brinquedos, as refeições são sempre doces e quando algo parece correr mal rapidamente é resolvido de forma misteriosa por uma das crianças.

Eun-Soo passa todo o filme a tentar fugir daquela casa mágica mas a floresta trá-lo sempre de volta. Nunca se resignando ao que parece ser o seu destino vai confrontando os miúdos com os acontecimentos que se desenrolam quer no tempo do filme quer pela introdução de histórias em subtexto. A morte de todos os adultos que passam pela casa, os labirintos que se reproduzem da floresta até ao sótão deixam antecipar a trágica história daqueles três irmãos.

hansel_gretelNo fim Eun-Soon percebe que ele próprio é personagem daquela história que salta de um livro infantil para a realidade. Ele próprio herói faz um exercício catártico da sua vida e percebe onde é o seu verdadeiro lugar encontrando assim a fuga daquela casa.

Na base deste filme o imaginário dos contos infantis não só de Grimm mas de toda uma estética associada a este tipo de estórias. Lim Pil-Seong é o realizador deste filme que conseguiu atrair a critica e ser nomeado como o stand-out coreano deste ano. A sugestão de violência é sempre psicológica contrariando o que são alguns exemplos a que estamos habituados a ver do cinema coreano. São 116 minutos bastante intensos e emocionais com um excelente trabalho de fotografia e uma banda sonora que nos embala transportando-nos para dentro do filme.


Crítica: «O’Horten», de Bent Hamer

O’Horten, filme do canadiano Bent Hamer, conta a história de um maquinista, Odd Horten reservado e sem grande vontade de ser o centro das atenções, que está numa nova fase da sua vida, a reforma. Uma reforma muito atribulada, com mais energia, ou mesmo com mais peripécias que a própria vida laboral. A reforma vista como uma libertação que nos deixa, depois de uma fase rotineira da nossa vida, sem chão e por isso procuramos uma ignição para uma nova vida.

ohorten-39A procura de adrenalina na aventura do carro, conduzido por o desconhecido de Odd, com um capuz, ao longo de uns metros, que termina na morte do condutor, como se fosse a última coisa a fazer na vida. Uma vida com responsabilidades, neste filme mostrado com a personagem cão, que depois de tudo foi como de um novo elemento a cuidar a tratar, como se de um filho se tratasse.

Tecnicamente o filme está muito bem feito, antes de mais com muito espaço para a reflexão, espaços que neste filme fazem sentido, devido à componente sócio — reflexiva. A fotografia está muito bem tratada, os brancos e pretos, provocados pela neve e pelos túneis, respectivamente, mostram-nos uma vida monótona, sem grandes surpresas, monotónica emocionalmente. A realização é digna de uma chamada de atenção, pela limpeza, a narrativa é-nos apresentada sem falhas, o que nos convida a entrar na história. Uma cena inicial onde Odd coloca um pano em cima da gaiola do pássaro remete-nos para o O Meu Tio, de Jacques Tati, que quando abria a porta, com o reflexo, fazia a luz chagar a um pássaro que cantava.


Crítica: «The Listening Project», de Joel Weber e Dominic Howes

«What does the world think of America?» é o mote para o segundo documentário de 76 minutos de Joel Weber e Dominic Howes. Depois de Awakening, em 2005, a dupla proprietária da Rikshaw Films debruça-se sobre a opinião do resto do mundo acerca do impacto planetário inegável dos EUA.

20071213_listen_2Vencedor de quatro prémios de Melhor Documentário em 2008 (Santa Cruz Film Festival, Durango Independent Film Festival, Oxford Film Festival, Omaha Film Festival), The Listening Project faz jus ao nome: é um documentário onde quatro «ouvintes» (listeners) viajam por 14 países (Canadá, México, Brasil, Japão, Palestina, Israel, Rússia, Índia, Afeganistão, Tanzânia, África do Sul, China, França e Reino Unido) e lidam com as estórias e opiniões pessoais de diferentes culturas. Não são jornalistas nem especialistas da área, têm passados completamente diferentes e um ponto comum: as suas vidas sempre cruzaram, de alguma forma, causas sociais.

As opiniões, apesar de diferentes, não são assim tão díspares como poderíamos esperar – não esquecer o passado histórico dos países em questão e as ligações políticas dos mesmos à «Grande Nação». O binómio «amor/ódio» é comum. As acusações roçam os mesmos pontos: a arrogância dos EUA, a manipulação dos mass media, o possível declínio do império americano, a irónica discriminação, ignorância e desrespeito da Nação que mais se orgulha da sua democracia, e outrora melting-pot, pelas outras culturas; o apoio económico americano sempre presente ao longo da história como solução vs. ausência de educação basilar, o desprezo por países que acabam por alimentar as multinacionais americanas lá sediadas.

Visualmente notável, este documentário cuja fotografia e edição (280 horas de captação) merecem elogios, a ênfase conseguida pela edição realça as diferentes culturas investigadas, sem nunca ser o típico doc «talking-head». Com o risco de cair no lugar comum das questões levantadas após o 11/9, o desfecho, que poderia revelar-se desta forma minado, recai sobre a velha questão: a culpabilização das forças político-económicas americanas e não das pessoas.


Crítica: «Sexykiller», de Miguel Marti

001Sexykiller, um filme do espanhol Miguel Marti, mostra-nos uma barbie com trejeitos de Hannibal Lecter. O potencial mortífero é misturado com a delicadeza típica de uma donzela, que neste caso faz justiça com as próprias mãos. O que nos remete a uma crítica furtiva ao cinema americano, onde não é importante o que está por trás da personagem, mas sim o que essa personagem reflecte visualmente.

Deixa, no entanto, muitas questões que não procuram ser definidas ao longo do filme, o que de certa forma nos deixa sem uma ideia concreta sobre o que é esta personagem; uma sátira ou entretenimento visual. Há muitas referências a Fight Club (David Fincher, 1999), ou mesmo aos filmes de Sérgio Leone, onde as armas são manuseadas sem falhas, com um à-vontade digno dos melhores cowboys.

sexykillerTrata-se de um filme que não tem grandes inovações, os efeitos são pouco tratados, procurando uma plasticidade governada pelo jogo de luz americano. A fotografia está tratada como um filme hollywoodesco, extremamente saturada e com um registo de cores muito vivas. Um filme pouco convincente, com muito espectáculo, que não ajuda a clarificar a estória, deixa antes uma indefinição sobre o que é que procura ser.


Crítica: «Breaking and Entering», de Anthony Minghella

breaking_and_enteringBreaking and Entering foi o último filme de Minghella, que viria a morrer dois anos depois da sua produção. Foi também o único filme escrito pelo realizador britânico, para além da sua estreia com Truly, Madly, Deeply. A película, integrada no ciclo Cinema e Arquitectura, tem o seu nexo no personagem de Will (Jude Law). Will tem a mãos uma crise relacional com a sua companheira, agravada pela esponja de atenção e cuidados que é a filha proto-autista desta. Com a sua rotina afectada por repetidos assaltos ao estúdio de construção onde trabalha, acaba por partir numa exploração das suas opções emocionais.

O estúdio onde ele trabalha, a Green Effect, estabelece uma metáfora com a maneira como Will procura resolver os seus problemas emocionais. Começa com a transgressão de instalar o seu armazém numa área devoluta e mal frequentada de Londres, e prossegue com o projecto principal, o de criar um canal na zona que traria de volta a natureza ao centro urbano. Um projecto megalómano e agressivo, que espelha a rudeza e o egocentrismo de Will quando ele procura a sua própria satisfação.

Estamos, porém, perante um filme apenas mediano, com performances bastante preguiçosas (com a notável exceptção de Juliette Binoche), e um tratamento fotográfico sem requinte. Breaking and Entering ainda requer algum esforço para ser entendido como parte da secção Cinema e Arquitectura. Segundo o comissário do ciclo, este compreendia filmes que ilustrassem um comportamento de desafio às noções de urbanidade actuais. Esta noção pode ser encontrada nas breves referências ao projecto da Green Effect, mas percorre todo o filme como avatar dos relacionamentos dos personagens.


Crítica: «Virus Undead», de Wolf Wolff e Ohmuthi

virus-undeadOs zombies voltaram a invadir o grande auditório do Rivoli com a projecção de Virus Undead, uma película de homenagem ao mestre do suspense da sétima arte, Alfred Hitchcock, e a uma das suas obras mais emblemáticas, The Birds (1963).

A premissa é simples: depois de alguns anos fora, Robert Hansen volta à sua terra natal com mais dois amigos – Patrick, um playboy com cabelo à James Dean, e Eugen, o nerd do grupo – para reclamar a herança do avô, Herbert, que morrera vítima de um estranho ataque de pássaros. Pelo caminho o trio cruza-se numa bomba de gasolina com duas raparigas – Marlene, a ex-namorada de Robert, e a sensual Vanessa – que se juntam ao grupo numa festa na antiga mansão do professor Herbert, situada num lugar ermo e afastada do centro da povoação. Tudo parece correr de feição até que alguns pássaros, portadores de um vírus desconhecido, começam a tombar do céu e a infectar algumas pessoas.

virusundead41Está assim lançado o cenário para a propagação do vírus e para o sempre esperado e inevitável ataque de zombies em manada. Contudo, o que se segue é mais do mesmo: personagens peculiares, como o polícia ou o bad boy da vila, que se transformam em zombies e teimam em não morrer mesmo depois de alvejados com vários tiros e de atingidos com vários golpes de machado, a inevitável infecção de uma das personagens principais que depois se vira contra os seus amigos ou a luta desproporcional entre a sexy-girl da fita com um grande decote contra vários zombies alucinados.

Ao contrário do que a maioria das sinopses preconizava, o filme, da dupla de realizadores alemã Wolf Wolff/Ohmuthi, não é um filme de ataque de pássaros, mas um típico filme de zombies, na linha de títulos maiores deste género como The Dawn of the Dead, de Zack Snyder, ou 28 Days Later, de Danny Boyle, cineasta este que venceu o Fantas de 95 com Shallow Grave e que, este ano, concorre aos Óscares com Slumdog Millionaire. Todavia, há uma grande diferença entre estes últimos títulos de zombies e Vírus Undead – o orçamento que, neste caso, torna o mais recente trabalho de Wolf Wolff e Ohmuthi num filme de pura série B.

Em suma, apesar de contar com algumas personagens bens construídas (Eugen é sem dúvida aquela que mais se destaca no elenco) e com algumas cenas bem conseguidas que arrancaram alguns sorrisos e aplausos da plateia, Virus Undead parece, à partida, uma carta fora do baralho na Secção Oficial de Cinema Fantástico.


Crítica: «Vanaja», de Rajnesh Domalpalli

Pensado como trabalho de conclusão de curso na Universidade de Columbia do realizador Rajnesh Domalpalli, Vanaja é a história de uma menina com o mesmo nome a entrar na adolescência.

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A descobrir o mundo e o seu corpo, vive numa situação financeira difícil. Carregando a responsabilidade de sustentar o seu pai viúvo, pescador e alcoólico, cedo abandona a escola e vai trabalhar para uma senhoria. Encantada com as danças Kuchipudi e com a esperteza de uma menina adulta, consegue convencer a sua senhoria a ensinar-lhe música e a dançar. Quando tudo parecia correr bem, é com a entrada do filho da senhoria que tudo se complica. Violada e grávida fica à mercê da sua própria sorte, contrariando o que lhe tinha sido dito numa leitura de mão. Astuta, tenta ir recuperando a parte da sua vida que a faz mais feliz – a dança – mas as contrariedades não param e aprisionada pela sua situação social vê a sua tragédia pessoal culminar na morte do pai.

Este filme é um excelente retrato de uma Índia rural e do seu sistema de castas. O argumento lembra a escrita de Dickens. A pobre menina acolhida pela família rica é também um grampo de ficção vitoriana. Mas Vanaja vive sempre no momento, crescendo a partir de uma história simples para o complexo, proporciona-nos uma heroína. Vanaja, não sendo o típico filme indiano, termina de uma maneira muito indiana, confiando na sorte e na fortuna, acreditando que há uma maré nos assuntos dos homens.


Crítica: «Walled In», de Gilles Paquet-Brenner

walled-inWalled In, baseado no romance Os Emparedados do francês Serge Brussolo, é levado a cena com o realizador Gilles Paquet-Brenner. Um thriller psicológico que conta com a participação de Misha Barton, conhecida em Portugal pela sua participação na série de televisão O.C., que desempenha o papel de uma recém formada engenheira enviada para a sua primeira demolição, sob alçada de uma empresa da sua família. Mas o edifício que lhe calha como primeiro trabalho não é um qualquer. Um prédio enigmático com uma arquitectura fascinante envolto numa história de assassinatos em série, em que as vitimas foram emparedadas dentro do próprio edifício. O arquitecto, supostamente também encontrado entre as vitimas, tratar-se-ia de um génio, visto que nenhum dos seus edifícios teria alguma vez caído resistindo inclusive a terramotos.

O enredo em torno dos segredos de um prédio joga com a sugestão de um mundo aparte. Construído sobre um pântano numa zona remota onde o hotel mais próximo fica a 75 km, somos levados à comparação com o mundo egípcio, quer pela ideia do arquitecto, sempre presente na história que é quase figurado como uma espécie de deus que controla a vida das pessoas que lá vivem mesmo sem uma existência física, quer pelos corredores, quartos e pela entrada do próprio prédio que nos leva através da fotografia e da iluminação para um espaço semelhante ao de uma pirâmide.

Num Fantasporto que inaugurou com um ciclo dedicado à arquitectura de futuro, este filme teria tido lá também o seu espaço, não só pelos conceitos de energia e do seu aproveitamento nas construções, mas também pelo papel do rito e do ritual a que o papel do arquitecto está tantas vezes associado.


Crítica: «Che, The Argentine», de Steven Soderbergh

O filme de Steven Soderbergh retrata a biografia do revolucionário Ernesto Che Guevara em dois longas-metragens, sendo The Argentine a primeira parte, que abrange a história do guerrilheiro desde o encontro com Fidel Castro no México até a conquista do território cubano, antes dominado pelo regime de Batista. A segunda parte, The Guerrilla, que não faz parte da programação do “Fantas”, perpassa pela renúncia de Che ao seu cargo no governo cubano e à sua cidadania no país até a decepção do revolucionário por não conseguir na Bolívia o apoio que conseguiu em Cuba.

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A linearidade do filme já era esperada. O que intrigou foram as fortes doses de humor, quer sejam criadas por situações cómicas, quer sejam pela dubialidade de certos diálogos. O fato é que esse humor garantiu um bom timing à trama, isto é, ajudou a distribuir a tensão no decorrer da história para não tornar as cenas de guerrilha cansativas.

A posição humanista do revolucionário é largamente reforçada, inclusive mostrando o contraste entre a ideologia anti-imperialista e o ícone mundial em que transformaram Che, cuja imagem foi mediatizada e vendida pelo próprio capitalismo.

Vem daí o preto e branco utilizado nos momentos paralelos aos episódios da guerrilha, um bom recurso estético para cheatunnão tornar cansativa a narração. Nesses entremeios, Che aparece em discursos na ONU e na recepção que teve em sua viagem a Nova Iorque em 1964 ou em excertos de entrevistas. Deixa-se claro que o guerrilheiro não lutava por nações e territórios, mas por melhores condições humanas independente de limítrofes espaciais ou culturais. “Qual a principal característica de um revolucionário?”, pergunta uma jornalista. Che responde: “O amor. O amor à humanidade, à justiça e à verdade”.

A longa acaba de maneira tão abrupta e inesperada – numa tentativa de impelir o público a assistir a segunda parte – que se torna confuso o desfecho para aqueles que não sabem que a história sob a óptica de Soderbergh não fica por ali.

Como protagonista, merece destaque a actuação de Benicio Del Toro (também produtor do filme e prémio de Melhor Actor no último Festival de Cannes) pela peculiaridade de não intencionar atingir o máximo de semelhanças ao Che na vida real, mas por incorporar o personagem com as possibilidades e limitações que a ficção cinematográfica sugere. Aliás, a película dá a ideia de que não existe uma obsessão pelo detalhe histórico – é um filme que, apesar da história fragmentada pelas conquistas paulatinas do grupo de guerrilheiros, reflecte uma visão do todo, e não de partes.


Crítica: «Dark City», de Alex Proyas

No segundo dia do Fantasporto, foi bastante considerável o número de pessoas no Grande Auditório do Rivoli para assistir ao Dark City (1998), de Alex Proyas. Lançado em Portugal e no Brasil com o título de Cidade das Sombras, o filme é uma miscelânea entre lugares comuns dos filmes de ficção científica e diálogos profundamente metafísicos.

darkcity3John Murdock (Rufus Sewell) acorda atónito num quarto de hotel com vagas lembranças de uma série de assassinatos que ele jamais imaginaria ter cometido. Vê-se perseguido pela polícia, mas logo descobre que está a ser, verdadeiramente, procurado pelos «The Strangers». Estes são seres tétricos que fazem experiências trocando as lembranças dos seres humanos, a fim de saber o que é que constitui a alma humana.

Dark City tem um claro embasamento filosófico, onde os seres e poderes fantásticos compõem uma trama que questiona a formação da identidade humana, tanto nos aspectos mais individuais (como as reminiscências, que são únicas a cada pessoa) como na construção de uma memória colectiva. «É como se eu tivesse sonhado e quando acordei, já estava numa outra vida», afirma Murdock.

A concepção plástica sobrevém muito do senso comum, com figurinos previsíveis, cores que oscilam entre o claro e o escuro e efeitos virtuais repetitivos, além de um melodrama bem convencional para aliviar as tensões no decorrer da história. No entanto, o roteiro segue tão metodicamente os três actos de uma narrativa cinematográfica (o chamado «à aventura», a provação suprema e o retorno com o elixir) que o filme garante-nos uma boa dose de cada aspecto que compõe uma trama.


Crítica: «Immortel», de Enki Bilal

immortel_ad_vitam_movie_posterUma pirâmide suspensa na Nova Iorque de 2095. O deus Horus tem a sua condição de imortal abjurada e precisa  de garantir a perpetuação da espécie humana, numa sociedade em que os seres artificiais são a maioria. Nikopol (Thomas Kretschmann), um revolucionário preso há 30 anos, é o escolhido para «emprestar» o corpo a Horus e fazer com que este fecunde a mutante Jill (Linda Hardy).

É assim que se desdobra Immortel (2004), um filme de extremos: perpassa-se da mitologia egípcia directamente para o futuro criado por Enki Bilal. O mais curioso é que, sem assentar necessariamente no presente, o filme é claramente uma referência a questões que permeiam a humanidade hoje, como os desdobramentos da genética, as intrigas políticas e as revoluções sociais imanentes.

O tom satírico é o principal termómetro do filme. O «deus falcão» satiriza atitudes humanas quando, na verdade, ele mesmo comete acções tão igualmente inferiores. Assim, podem ser lidas várias ironias à nossa condição actual: as falhas que apontamos nos outros são também as nossas; a artificialidade dissemina-se não só nos meios materiais mas nas próprias relações (letreiros anunciam: «Nada de amor e sexo, procriem geneticamente»); as fraudes políticas continuam as mesmas, apesar da desenvolvida sociedade do fim do século.

Immortel tem uma plasticidade intrigante, numa linha ténue entre ficção e realidade. Os efeitos 3D estão em harmonia com as três dimensões reais e não há nenhuma contaminação entre as duas balizas – define-se bem por que se adoptou o real para determinados cenários e personagens e por que a escolha do virtual para as  outras criações. Num roteiro linear, Immortel parece vir do futuro para nos falar, em tom quase caricatural, sobre os nossos tempos de crise – ou sobre a crise dos nossos tempos.