Especial Rascunho e JUP

Crítica

Paciência de santo

(Foto: Fantasporto)

Qual é a diferença entre vintage e kitsch? E qual a diferença entre kitsch e piroso? Isto porque “Camino”, o filme de Javier Fesser que ontem encerrou a competição oficial do Fantasporto, fica a meio caminho entre as boas intenções e o mau gosto mais insuportável e irritante.

Porque na verdade, não se percebe se a intenção de Fesser é elevar a força da fé católica ou se, pelo contrário, é gozar indecentemente com os dogmas da igreja e com a hipocrisia de alguns dos seus agentes. Confusão essa, gerada por uma realização desequilibrada, com uma especial apetência pelo piroso e que exagera na transmissão de uma mensagem, Seja ela qual for.

Baseado em factos verídicos, “Camino” é a história de uma menina de 11 anos que, por ter um cancro no cérebro, conquista a hipótese de ser beatificada. Passo a explicar: filha de uma senhora extremamente devota, Camino, de seu nome, está condenada a vir a ser freira, tal e qual como a sua irmã mais velha. Rodeada de religião por todos os lados, a jovem vê o seu calvário ser confundido com uma sequência de milagres e que atingem o seu ponto mais alto quando, já no leito da morte, o seu delírio moribundo é confundido com uma presença às portas do céu e um primeiro contacto imediato com Jesus.

Jesus, é na verdade o nome do rapaz por quem Camino se havia apaixonado, e é a ele que as últimas palavras e pensamentos da menina são dedicados. Estes equívocos chegam a ser tão ridículos que pensamos estar na presença de uma comédia de mau gosto. É precisamente por aqui que começamos a duvidar das verdadeiras intenções do realizador: é “Camino” uma crítica feroz ao comportamento da igreja ou um retrato apaixonado dos milagres de fé?

Convém referir que o filme de Javier Fesser coleccionou prémios em festivais um pouco por toda a Espanha e que o processo de beatificação da pequena Camino está ainda em curso. Se é que alguma destas informações é realmente importante…

No entanto, nem tudo são dúvidas, em “Camino”. Na verdade, saí do filme convencido de duas coisas que parecem não ter discussão: em Espanha, é muito fácil conquistar prémios de cinema, assim como é tremendamente simples ser-se beatificado.

Nuno Matos


A febre do amor

(Foto: Fantasporto)

Eu sei, o título desta crítica é um tudo ou nada piegas. Mas “Febre da Fieno”, filme de estreia da italiana Laura Luchetti, é uma história de amor e de como esse sentimento nos deixa doentes, febris e incapazes de racionalizar normalmente.

A realizadora, presente no Rivoli, fez questão de descrever o seu filme como sendo um moderno conto de fadas. Não diria tanto, mas que é um filme simpático, despreocupado e bem disposto, lá isso é, E produziu esse mesmo efeito nos poucos espectadores que tiveram disponibilidade para o ver.

Passado em Roma, “Febre da Fieno” mostra-nos a vida de um grupo de pessoas, unidas em torno de uma loja de artigos vintage, mas acima de tudo ligadas pelo amor; pelo amor que se sente, pelo amor que se perde e pelo que se conquista. E isso chega para fazer deste um filme bonito, suave e demasiado agradável para se levar a mal alguma pieguice em que incorre, eventualmente.

E depois, como seria possível não gostar de um filme que tem uma banda sonora de eleição, encabeçada por esse génio sentimental de seu nome Devendra Banhart?

Em suma, ” Febre da Fieno” foi um dos filmes simpáticos do Fantasporto 2011 – a par de outra obra italiana, “18 Anno Dopo – e de tal forma influenciou positivamente o público no Rivoli, que ninguém sequer sentiu o choque de transitar da violência de “Secuestrados” para a delicadeza proposta por Laura Luchetti.

Esta é a prova de que todos os géneros cinematográficos podem coexistir pacificamente no mesmo festival, na mesma sala e para o mesmo público. Basta, para isso, que tenham qualidade.

Nuno Matos


Como nos bons velhos tempos…

(Foto: Fantasporto)

É tão bom, entrar no Rivoli, acomodar-me naquelas cadeiras que, ao fim de uma semana , o corpo já não suporta, e ser transportado para um tempo em que o Auditório Nacional de Carlos Alberto ainda era uma sala confortável e acolhedora, e em que o Fantasporto era um festival interessante e surpreendente.

 

Momento destes foram raros, na presente edição do Fantas. Até ontem, só por duas ou três vezes, me tinha realmente sentido preso ao ecrã. “Secuestrados” agarrou o público pelos colarinhos, e durante 80 minutos não parou de o sacudir, empurrar, agredir e assustar. Foi, a todos os níveis, o filme mais intenso e violento que passou pelo Rivoli este ano.

Realizado por Miguel Àngel Vivas, “Secuestrados” conta a história de uma família que, na primeira noite na sua casa nova, acaba por viver um pesadelo nada condizente com o que deveria ser uma ocasião festiva. O tema não é original, e a organização do festival compara-o mesmo a “Funny Games”, de Michael Haneke.

A comparação não é descabida. A grande diferença, é que enquanto Haneke realizou um filme que atacava o nervoso miudinho dos espectadores, Vivas apostou na violência pura e dura, não escondendo nada do público. Aliás, essa é uma das qualidades de “Secuestrados”: não há segredos, não há grandes surpresas guardadas e tudo é muito simples e, de certa forma, próximo da realidade.

Genial é a opção do realizador em construir o seu filme através de planos-sequência, alguns de largos minutos, sem no entanto perder qualquer energia, tensão e emoção. E “Secuestrados” é, de facto, um filme que leva estes três atributos ao limite do suportável. Culpa da mão firme do realizador espanhol, e culpa também de um elenco irrepreensível e que se entregou totalmente ao desempenho de papéis nada simples.

Único defeito de “Secuestrados”: não querendo abdicar dos planos-sequência, Miguel Àngel Vivas opta, por vezes, em mostrar duas acções em simultâneo, recorrendo, para isso, ao ecrã dividido. Não funciona. E não funciona porque a acção é tanta e de tal maneira electrizante, que o espectador acaba por não se conseguir concentrar em nenhuma.

É pena. Assim não fosse, e estaríamos perante um filme perfeito. Ainda assim – e pese embora mais uma decisão pouco compreensível da organização, que o empurrou para uma pouco digna primeira sessão da tarde – é muito possível que “Secuestrados” não saia deste Fantasporto de mãos a abanar.

Nuno Matos


Sala cheia para ver uma mão cheia de inadaptados sociais

Bazil é a personagem que desencadeia toda a acção (Foto: Fantasporto)

Micmacs, de Jean-Pierre Jeunet é um filme a jogar em casa. Assim foi, sala completamente cheia, com bilhetes esgotados durante a tarde. Mesmo assim minutos antes do inicio bastantes pessoas ainda tentavam a sua sorte na bilheira e entrada do Rivoli.

A história tem como pano de fundo os bairros da periferia de Paris, da mesma forma como fez  em “A Fabulosa História de Amélie Poulain” e mesmo com essa previsibilidade, “Micmacs” consegue prender a atenção dos espectadores, divertir e trazer à tona um assunto para deixar a pensar. A começar pelo nome dos personagens: Remington, um homem que escreve histórias na máquina de escrever; Fracasse, um homem que só fracassou na vida; e Calculette, uma rapariga que consegue calcular tudo, desde as medidas do seu corpo, até à distância relativa entre dois carros em movimento. Vivem todos em familia, unidos pelas desgraças, motivados a viver um dia depois do outro, numa casa construída em cima de um lixeira, feita apenas com materiais reciclados.

A expectativa era obviamente alta e Com actores acostumados a trabalhar com o realizador, como Dominique Pinon – actor fetish do cineasta que participou em “Delicatessen” e “Amélie”, Dany Boon e André Dussollier, entre outros, “Micmacs à tire-larigot” leva Jeunet a um mundo mais surreal, mais perto de “Delicatessen”, mas esticando mais os limites da farsa. O resultado é um filme bastante cómico, que por vezes porém excede-se na surrealidade e repega em pequenos detalhes já esbatidos, na forma, em outros trabalhos anteriores.

No meio de tanto absurdo é de realçar a sátira à indústria bélica e pela forma como no meio do humor se pode passar uma mensagem bastante critica à forma como a linguagem da guerra se torna tantas vezes a linguagem do nosso dia-a-dia.

Como aperitivo e para abrir o apetite para um filme que não deve demorar muito a estar nas salas aqui ficam umas perguntas para responder:

“É melhor viver com uma bala alojada no cérebro, mesmo que isso signifique que possas morrer a qualquer instante? Ou preferias retirar a bala e viver como um vegetal para o resto da vida? As zebras são brancas com listas pretas, ou pretas com listas brancas? Valem mais os estilhaços que as minas? Cabe uma mulher num frigorífico? Qual o recorde mundial de um homem lançado num canhão?”

Pedro Ferreira


Carancho, um abutre vindo da Argentina

As duas personagens principais do filme (Foto: Fantasporto)

Um advogado chamado Sosa, que perdeu sua licença para praticar, mas que continua a trabalhar nas ruas durante a noite de Buenos Aires. Oferecendo aos clientes lesados o serviço de seguros e indemnizações de uma empresa predatória que irá paga-los, entre um quarto ou um quinto do valor, é conhecido nas ruas como abutre. Quando ele encontra pela primeira vez Luján, uma médica que tem um horário sobrecarregado entre emergências de ambulância para ganhar dinheiro extra e a urgência no hospital, ela parece ser o anjo que pode resgatar a existência deste advogado.

Estas duas almas feridas acabam por se apaixonar, é claro, mas este é o tipo de história onde cada um tem segredos que não consegue dizer ao outro não poderá ter um final feliz. Sosa está em dívida com algumas pessoas e acaba fazendo algo que é criminoso e quase imperdoável para Luján.

Trapero mantém a tensão crescente, gradualmente forte, e o director de fotografia Julián Apezteguia alterna entre cores saturadas e nightscapes. Num estilo de filmagem que faz lembrar o filme “Amor Cão”, a velocidade é quase a mesma. Com um esquema de argumento e filmagem como este, seria fácil para “Carancho” ser implacável, até mesmo comicamente sisudo, e há alguns momentos de espiral dos personagens que arrastam toda a história com eles. Entre o advogado que tenta conciliar as contradições inerentes a um homem que foi violentamente empurrado para um mundo violento, mas que parece estranhamente a jogar em casa, e a médica com nuances de junkie, em que o consumo de drogas são consequência quer do ritmo do seu trabalho quer de uma dependência voluntária. Trapero conduz-nos até ao fim com integridade e  para uma chocante conclusão do filme.

É um retrato fiel da corrupção enraizada na sociedade urbana da Argentina. Interessante tanto pela caracterização social como pelas voltas do guião que não nos deixam acomodar. A chave está precisamente na forma como nos obriga a atenção mesmo até ao último frame.

Pedro Ferreira


“R U There”

 

(Foto: Fantasporto)

O cinema, como qualquer outra arte, suponho, é altamente influenciado por acontecimentos marcantes na história da humanidade, modas, tendências e gerações marcantes por uma razão ou outra.

Hoje em dia, é visível a influência da Internet, e especialmente das redes sociais, em muitos dos argumentos que chegam ao grande ecrã. “R U There”, do holandês David Verbeek, por exemplo, tem como ponto de partida as competições de jogos online e o mundo virtual do Second Life, mas é muito mais do que isso.

Jitze, interpretado por Stijn Koomen, é uma espécie de super-estrela dos jogos em rede, e está em Taipé para disputar uma importante competição. Reservado e muito concentrado nos seus objectivos, Jitze vive fechado no seu mundo virtual, pouco dado a contactos de índole social. Até ao dia que conhece Min Min e se apaixona.

É a partir desse momento que percebemos que “R U There” não é um filme sobre o fenómeno da Internet mas sim sobre o isolamento e a dificuldade em comunicar e sobre as diferenças entre culturas. No limite, “R U There” é também uma história de amor. Bonita, diga-se.

O problema reside no ritmo que Verbeek impôs ao seu filme. Tudo é demasiado lento e excessivamente contemplativo. A comparação é exagerada, mas por vezes “R U There” faz lembrar “The Thin Red Line”, de Terrence Malick. Por ser tão pausado, tão silencioso e, aqui e ali, tão poético.

Só que não é Malick quem quer, e as boas intenções do realizador, acabam por prejudicar um filme simpático e de que apetece gostar. Fica a ideia de que um pouco menos de ambição não lhe teria feito mal nenhum.

Nuno Matos


Para molhar o pãozinho

(Foto: Fantasporto)

Não se preocupem, esta crítica não tem nada a ver com culinária. «Molhar o pãozinho» era a expressão favorita do público do Fantasporto quando este ainda era (literalmente) um festival de sangue, tripas e mortes violentas.

Este ano, apesar de já se terem visto algumas coisas do género, nenhum dos filmes tinha cumprido as regras de ouro do bom cinema gore. A espera terminou ao 6º dia de festival e com um improvável filme de terror israelita de seu nome “Rabies” (Kalevet, em hebráico).

Realizado por Ahron Keshales e Navot Paposhaddo, o filme demonstra na perfeição a velha Lei de Murphy, que defende que “se algo pode correr mal, correrá mal da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível”. E em “Rabies” as coisas correm terrivelmente mal para um grupo de pessoas que, por uma razão ou outra, se encontram na mesma floresta, no pior momento e na pior altura.

Não se sabe se seria essa a intenção dos realizadores, mas é possível ver nestes acontecimentos tenebrosos uma metáfora da condição humana e de como esta facilmente se transforma numa selvajaria irracional. Porque de facto, e pensando bem, nada faz prever a barbárie com que somos presenteados durante uma bem passada hora e meia.

Quando um filme arranca palmas a cada uma das mortes, isso significa duas coisas: que é um filme de «molhar o pãozinho», à boa moda do antigo Fantas, e que, por isso mesmo, diverte o público.

Já aqui foi dito, num post anterior, que o Fantasporto deste ano tem sido marcado por filmes pouco entusiasmantes e, sejamos sinceros, bastante chatos. Por essa razão, ver “Rabies” em clima de festa foi, ao mesmo tempo, nostálgico e muito, muito divertido. Mais um ou outro como ele, e o Fantas 2011 seria bem mais interessante.

Nuno Matos


O diabo no Fantas

(Foto: Fantasporto)

Comecemos por uma previsão:  “I Saw The Devil” vai vencer o Fantasporto 2011.  Já sei, prever estas coisas pode muito bem ser um risco desnecessário. Mas enfim, tantos anos como espectador do Fantas ajudam a perceber quais são os filmes que ainda conseguem impressionar o júri.

Não é a primeira vez que Jee-woon Kim apresenta um filme seu no Fantasporto. Em 2004 venceu o festival com “A Tale of Two Sisters” e em 2009 trouxe o delírio western-spaghetti de seu nome “The Good The Bad The Weird”. Ou seja, é um daqueles nomes cuja descoberta é gritada a plenos pulmões pela organização do Fantas.

Falando do que realmente interessa: o novo filme de Jee-woon Kim é realmente bom e se a previsão se concretizar, e o principal prémio do certame lhe for dirigido, será inteiramente justo. Por todas as razões.

O argumento é genial, a acção e tensão são magistralmente doseadas, e os actores estão em absoluto estado de graça. Min-sik Choi e Byun-hun Lee não são nomes propriamente conhecidos do grande público, mas assinam interpretações electrizantes, de intensidade acima do normal e são os principais culpados por passarmos mais de duas horas agarrados à cadeira. Por prazer, não por medo ou desconforto.

Choi já tinha surpreendido o público do Fantas com um papel igualmente intenso no filme “Oldboy”, de 2003. Em “I Saw The Devil” leva ainda mais longe as suas capacidades e mostra todo o seu potencial de actor. Concorre, sem dúvida, para o prémio de melhor actor do festival.

Em suma: o filme de Jee-woon Kim parece ter enchido a barriga do público presente no Rivoli. Simultaneamente, deu a este Fantas, até agora tão pouco entusiasmante, um cheirinho do que era o bom velho Fantasporto. O festival de cinema de que tanta gente sente ainda falta.

Nuno Matos


Finalmente, ar fresco

(Foto: Fantasporto)

É sabido, o Fantasporto há muito que deixou de ser um festival de cinema de terror e de fantástico. A decisão mudou significativamente o cartaz do certame, que, logicamente, passou a contar com uma maior variedade temática.

As consequências dessa mudança são muitas e, provavelmente, discutíveis, mas a verdade é que essa abertura a outros géneros trouxe ao Porto algumas pérolas da sétima arte. “18 Anni Dopo”, de Edoardo Leo, pode não ser uma pérola, mas é sem dúvida a primeira obra de qualidade indiscutível desta 31ª edição do Fantasporto.

A história é simples e bem contada, sem grandes reviravoltas e complicações desnecessárias. O sentido de humor tipicamente italiano conquista-nos, e o pequeno (sem exageros) drama familiar comove o suficiente para nos sentirmos na pele daquelas pessoas. É uma história simples, repito, mas tocante e muito bem gerida por um realizador que se estreia, da melhor maneira, no grande ecrã.

De Edoardo Leo interessa dizer que é um actor italiano com larga experiência na televisão, que havia já realizado um tele-filme e que, nesta obra, assina, não só a realização, como também um dos papéis principais. E que papel! O seu Mirko é, indiscutivelmente, o ponto mais alto de um filme que prima pelo equilíbrio e pela discrição. Mirko é, simultaneamente, a personificação do drama e da comédia em “18 Anni Dopo”.

É realmente uma pena, um filme destes não ter honras de horário nobre no Fantasporto. A haver alguma justiça na hora de decidir prémios, “18 Anni Dopo” pode muito bem ser um dos mais galardoados e Edoardo Leo distinguido como o melhor actor.

Nuno Matos


Rumo ao Oriente no comboio do cinema Sul Coreano

Cena do filme “Siworae” de Lee Hyun-seung, adaptado mais tarde por Hollywood com o título “The Lake House”

Em 1999, “Shiri” tornou-se o filme de maior sucesso na história  do cinema sul-coreano, campeão de bilheteira não só na Coreia do Sul, mas também de Hollywood. Na verdade, o filme é tão assertivo e emocionante como qualquer produção americana a que estamos habituados. Enquanto os especialistas em cinema, apesar de cientes do sucesso e do porquê, do realizador Im Kwon-taek, as entradas em festivais multiplicaram-se pelo mundo todo. Em casa, “Shiri” marcou o início de um renascimento de uma indústria comercialmente viável, artisticamente aclamada que lançou a Coreia no palco global.

Apenas dois anos após a sua produção, filmes coreanos no próprio país conseguiam o domínio de bilheteira, algo que não acontecia antes perante o monstro concorrencial de Hollywood.

Enquanto o cinema americano continua cheio de filmes adaptados da BD, jogos de computador, “remakes” e sequelas, as coisas não são o mesmo no resto do mundo. Como o cinema mundial se está a tornar menos dominado por uma constante saturação de filmes americanos, destaca-se hoje uma das escolas que nos tem chegado muito por culpa do Fantasporto.

A Coreia do Sul tem visto um aumento de produção e distribuição do seu cinema nos últimos dez anos. Produzindo filmes que são experimentais e divertidos ao mesmo tempo, as histórias abraçam facilmente as plateias. Não são só os fãs de cinema puro que o reconhecem mas Hollywood também, ao tentar produzir “remakes” de alguns dos mais conhecidos filmes da geração actual de realizadores sul-coreanos.

Qual a chave para o sucesso do cinema sul-coreano? É sobre a história, não é apenas como criar uma boa história mas com a qual o público se pode relacionar. Fazem-no sobre a vida familiar disfuncional, tradicional ou não-tradicional e como cada um de nós lida com ela. Sobre a violência física e psicológica, tantas vezes sobre vingança. Sempre com muita reflexão sobre a condição humana e sobre a forma como vivemos na sociedade actual. Desligados pelos telemóveis, computadores e todos os outros meios de relacionamento. Depois, é só adicionar as explosões, as ondas gigantes, monstros, vampiros, loucos ou qualquer trama secundária que toda a gente gosta de ver em cinema mas sempre no meio do caos já instalado.

Sem viver lá ou alguma vez ter visitado sequer a Coreia do Sul, só resta especular sobre aqueles que crescem num país que teve e tem uma história turbulenta com o país vizinho a norte e variados sistemas políticos presentes nos países em torno dele. Serão as razões históricas e sociais factor para despoletar este tipo de cinema?

Pedro Ferreira


A Tempestade que varreu o Fantasporto

Prospera na invocação dos poderes com que combate os seus antigos rivais (Foto: Fantasporto)

Julie Taymor adapta para versão cinematográfica “A Tempestade”, de William Shakespeare. É uma produção pictórica cheia de cor, movimento e paixão. Junta com um elenco de estrelas e só não é um sucesso maior em Portugal porque as pessoas ainda vivem de muitos preconceitos contra o teatro e contra tudo o que não é prazer imediato. Não há surpresas na história, não e não é suposto.

Helen Mirren interpreta o Prospera (que é um personagem masculino chamado Prospero, no original). Prospera, que se tornou a legítima Duque de Milão, quando o marido morreu, foi exilada para uma ilha deserta, junto com a sua filha Miranda, de três anos, pelos adversários. Doze anos se passaram, e Prospera sente que agora é a hora certa para utilizar os seus poderes sobrenaturais e se vingar daqueles que a feriram e humilharam.

A eficácia global do filme reside na fusão dos conflitos humanos contra a presença monumental da natureza. Os aspectos desconfortáveis ao ar livre do filme foram filmadas em Lanai (Hawai), não é o meio habitual que estamos habituados a ver deste local, mas uma área dura, rochosas vulcânicas, pouco acolhedora. Os antagonismos da peça devem lutar contra este pano de fundo duro, enquanto Prospera, com o bastão mágico, relógios e espíritos controla as suas lutas de longe, no topo de um penhasco, com conforto e satisfação.

Sandy Powell criou os figurinos que completam um cuidado fotográfico exímio. Toda a música foi composta por Elliot Goldenthal, colaborador de longa data Taymor. Goldenthal criou também as canções adaptadas de Shakespeare, quer para os momentos de solo, quer para os coros.

Um “pacote” cinematográfico bastante agradável dentro do estilo, fotograficamente brilhante, concretiza uma adaptação ao cinema de uma das maiores referências do teatro.

Nota: não poderia deixar passar em claro a forma como uma boa parte da sala se comportou durante a sessão. Não são desculpáveis os suspiros enfadonhos e a forma como algumas pessoas de comportaram, como crianças a fazerem um frete. Se não sabiam, já deviam saber ao que iam. Estava bem explicito que era uma adaptação da peça de Shakespeare, são mais que conhecidos os pormenores fílmicos e de argumento. Se estavam à espera de uma alteração profunda dos diálogos enganaram-se. E já agora para quem achou que pessoas a cantar não era dali, consultem o texto original ou vejam no teatro e reparem que os coros existem.
A Tempestade devia começar nas mentalidades!

Pedro Ferreira


O Filme Que Não Foi

(Foto: Fantasporto)

Mantendo a tradição de abrir a secção de competição com uma obra prestes a estrear nas salas portuguesas, o Fantasporto apresentou ontem The Resident, com Hilary Swank e Christopher Lee, e realizado pelo finlandês Atti Jokinen.

Foi o próprio realizador quem explicou à audiência que “The Resident” era o concretizar de um sonho antigo: fazer um filme nos Estados Unidos, mais concretamente em Nova Iorque, e com uma grande estrela de Hollywood. Conseguiu-o, é um facto, mas essa deve ser uma proeza que tão cedo não deve repetir.

“The Resident” quer ser um thriller psicológico, seguindo a linhagem de um cinema que utiliza o voyeurismo como ferramenta ao serviço do suspense e que tão bem foi trabalhado, por exemplo, por Alfred Hitchcock. O problema é que Jokinen é um mero tarefeiro e falha em todos os elementos habitualmente associados ao suspense. Desde logo porque suspense é coisa que não existe. Tudo é demasiado óbvio, morno e tão previsível, que qualquer réstia de interesse que pudesse existir se esfuma aos primeiros quinze minutos de filme.

Para além disso, o realizador parece desconhecer uma regra de ouro do thriller. Se o vilão é desvendado ainda o filme não vai a meio, há que alimentar os espectadores com algo que lhes prenda a atenção: ou doses maciças de suspense, ou um twist final daqueles que deixam qualquer um perdido. The Resident não tem nada disso, e acaba por se resumir a uma longa e tortuosa hora e meia de coisa nenhuma. Hora e meia, basicamente, para matar o indivíduo que, já se sabia, teria obrigatoriamente de morrer.

Como é que um realizador da Finlândia, sem créditos firmados, e que se limitava a realizar documentários – e uma edição do Festival Eurovisão de Canção – chega a Hollywood? A resposta é fácil e está escondida no genérico de abertura de “The Resident”: um dos produtores do filme chama-se Renny Harlin, realizador responsável, entre outros, por “Die Hard 2″, e que, só por acaso, é… finlandês.


Um Camaleão à solta no Fantasporto

O "Camaleão" numa cena de falso reencontro familiar (Foto: Fantasporto)

The Chameleon

Um ente querido que está de volta, mas algo não está certo. Uma agente do FBI, marcada pelo passado, para quem a história do jovem não se encaixa. Mas se ele é quem diz, porque mantém a família a história? E se ele não for, então quem é ele. Como peças de um puzzle o passado revela segredos profundos e escuros. Frederick Bourdin, um jovem, passou a maior parte da sua vida, iludindo as autoridades de vários países personificando e assumindo a identidade de adolescentes que foram sequestrados ou estão como desaparecidos durante vários anos. Ele é conhecido como o “Camaleão”.

Um filme baseado numa história real que foge um pouco aos cânones do filme que esperamos ver no Fantasporto.


The time that remains, viver na Palestina ocupada

De Elia Suleiman, este filme de 2009 narra o quotidiano dos palestinianos que vivem como uma minoria na sua terra. Expulsos e mal tratados pelos israelitas desde que estes ocuparam aquela terra, aquela parte do mundo enfrenta um conflito que se prolonga à dezenas de anos seguidos. Este filme é uma divertida sátira que ridiculariza toda esta questão da ocupação israelita. A história é a do próprio realizador e da sua família desde que o seu pai é jovem até que Elia é já um homem. No fundo as coisas mantêm-se sempre o mesmo com a única diferença de que as pessoas se vão preocupando cada vez menos com a presença dos soldados na sua terra. Uma situação que se torna inexplicável e incompreensível e que só pode ser transmitida através do ridículo. O filme acaba por ser uma comédia autêntica acerca de um assunto que é dos mais tristes do mundo, mas as pessoas não se estão a rir neste filme, todas estas situações acontecem realmente naquela terra atingindo um ponto de saturação que acaba por deixar as pessoas indiferentes a elas. As cenas quotidianas repetem-se várias vezes e são quase sempre idênticas, a única coisa que muda são as personagens que nelas intervêm ao longo dos anos. Um filme bem conseguido que nos mostra de forma diferente, e pelo lado da comédia, uma situação de terror que se torna cada vez mais insustentável.


Heartless, beleza e terror

Jamie, personagem principal do filme que vive atormentado pela sua imagem marcada por uma mancha na pele. (Foto: Fantasporto)

Após quinze anos de ausência, Philip Ridley cineasta britânico, já premiado em 1996 no Fantasporto, que conta já com os  altamente recomendados The Reflecting Skin e Darkly Noon, está de regresso.

O mito de Fausto revisitado traz-nos um personagem principal que faz um pacto com o demónio para se ver livre de uma marca de nascença na cara, em forma de coração, e numa parte do seu corpo que fez sempre dele uma pessoa rejeitada e com problemas de sociabilização.  A fotografia e a tentativa de captação do belo presente em todo o argumento leva-nos para importância da imagem e do conceito de beleza. A partir de uma frase do poeta Rilke: “a beleza é o princípio do terror.” que serve para despoletar o pacto com o demónio e como inicio de um amor quase obsessivo que parece ser a salvação e expiação da personagem pela pessoa que é, e não pela sua aparência. O ambiente é de subúrbio inglês, um caldeirão de violência gratuita e criminalidade crescente. Uma nova geração de terror, crimes sem justificação aparente filmados e publicitados, mediatizados pela imagem e pelas características únicas destes actos.

Heartless é um filme de tensões, de segundos em que os susto tomou conta da sala do Rivoli, de pessoas que saltam nas cadeiras quando um vulto se aproxima repentinamente ou um grito ecoa. Sem dúvida um filme Fantasporto, aparentemente bem colocado na corrida para o Grande Prémio do Festival.


Ward No.6

Este é um filme do realizador russo Karen Shakhnazarov. Baseado num conto de Tchekov, o filme retrata o percurso de uma parte da vida de um director de um hospício que ruma progressivamente à loucura. O desespero proveniente do vazio que é deixado pela irrelevância de se fazer seja o que for e a limitada e passageira condição humana leva a personagem principal do filme a um beco sem saída que só pode acabar com o seu internamento.

Filmado quase na sua totalidade no hospício que retrata, o filme consegue extrair e oferecer-nos imagens fortíssimas provenientes da própria condição das pessoas que lá vivem, e dos seus rostos e olhares ora ausentes ora mergulhados numa melancólica tristeza.

A fusão entre géneros, documental e ficcional, está muito bem conseguida e a câmara aparente ter-se deixado ficar por aquele espaço durante algum tempo, os diálogos são deliciosos e inteligentes, a relação estabelecida entre os dois actores principais é de um respeito mútuo incrível, a intenção do filme parece-me despretensiosa deixando-se este arrastar simplesmente a uma velocidade natural. O filme deixa-nos ainda um final livre à interpretação pessoal, mas no meu parecer o seu carácter é fundamentalmente triste. Na minha opinião, um filme muito bom dos melhores que tive a oportunidade de ver neste Fantasporto.


Jennifer’s Body

Após um ritual satânico que corre mal, onde uma banda pop-rock para atingir o sucesso sacrifica Jennifer ao demónio, pensando erradamente que esta seria virgem. Jennifer torna-se num demónio que necessita de se alimentar de jovens rapazes para continuar a viver. Somente será parada pela sua melhor amiga e confidente.
Trata-se de um filme menor no contexto do Fantasporto, cheio de clichés do género, feito para um público sedento de entretenimento, mas com o atractivo de uma Megan Fox semi-nua e com algum humor actual e mordaz aproveitando fenómenos pops como os “emos” e redes sociais.

Terceiro filme de Karyn Kusama, realizadora de Aeon Flux, abordando sempre géneros diferentes mas sempre visando o feminino. Tendo como personagens principais duas adolescentes, as referencias a vida e particularidades das jovens adolescentes não deixam de marcar o filme. A nível de realização não traz nada de novo ao género tendo como ponto positivo o tratamento cómico a situações banais e comuns do dia a dia das adolescentes como o período menstrual e a perda da virgindade. Escrito por Diablo Cody, vencedora do Óscar de melhor argumento original do ano passado por Juno, tem como ponto positivo possivelmente uma tentativa de satirizar o género, filmes de terror para adolescentes.


Hidden

Poster de Hidden(IMDB)

A primeira sessão do dia 3 de Março no Grande Auditório foi preenchida por Hidden. Com a morte da mãe Kai Koss retorna a sua terra natal e volta a confrontar-se com o seu passado. A sua mãe acaba de morrer e recebe com herança uma casa no meio da floresta. Casa onde passou a sua infância onde era maltratado pela mãe. Este retorno desenvolve um conflito interior na personagem principal que vai resultar num destino trágico.

Segunda longa-metragem do realizador Pål Øie que já no seu anterior filme tinha abordado o thriller de terror. Numa pequena intervenção antes da sessão o realizador referiu a dificuldade de realizar filmes em países com pouca expressão comparando com Portugal que tem o mesmo volume de lançamento de longas-metragens por ano. Referiu também que teve a sorte de poder contar com a maior estrela de cinema do seu país no papel principal, Kristoffer Joner. Uma realização segura com uma narrativa consistente mas sem trazer nada de novo ao género. O grande destaque do filme é a cinematografia que aproveita a paisagem característica das florestas norueguesas para belos planos bem como para criar um ambiente soturno e de suspense.


1

(Foto: Fantasporto)

Precisamente um ano após a sua abertura, uma livraria especializada em livros raros vê todo o seu espólio trocado por múltiplos exemplares do mesmo livro. Um livro branco, sem autor com o título “1”. Uma equipa especializada em casos do paranormais de uma instituição obscura, o Departamento de Defesa da Realidade com ligações obscuras com o Vaticano e que não se coíbe de utilizar a tortura para apurar a “verdade dos factos” como se fosse uma versão moderna da Inquisição. È neste clima que se inicia a investigação da troca dos livros e principalmente o conteúdo e autoria do livro “1”. O livro é uma investigação complexa sobre o que sucede num espaço de um minuto na Humanidade. Durante a investigação um volume do livro é colocado a circular, levando a uma onda de histerismo e de destruição colocando a própria humanidade em risco. Enquanto isto o próprio responsável da investigação inicia uma viagem filosófica e de compreensão das relações humanas deixando-se incluir como um dos suspeitos da autoria do livro.

Primeiro filme do húngaro Pater Sparrow, baseado no livro de ficção científica “One Human Minute” de Stanislaw Lem, autor de Solaris. Consegue retratar de uma forma eficaz o crescimento da onda de histeria causada pelo livro, através de uma narrativa fluida aliado ao clima transmitido na investigação do caso remetendo nos para um thriller de ficção científica tanto do agrado do público do Fantasporto. Pena alguma incúria na montagem que por vezes numa tentativa de transmitir o máximo de informação aos espectadores o faça perder o fio condutor da história acabando por não entender o sentido do filme. Situação esta que o realizador já tinha chamado a atenção quando alertou que um filme não deve ser visto somente uma vez.


Deliver us from evil

Um dos momentos de maior tensão no filme onde uma família aparentemente feliz acaba por se ver confrontada com uma situação anormal. (Foto:Fantasporto)

A história é nos contada numa Dinamarca de defeitos, onde o mal que consome a alma das pessoas se conjectura numa praga de influências. Ole Bornedal constrói um filme dividido entre a seriedade do que nos conta e a paródia escondida da crueldade extrema que pretende tocar. Colorido mas não muito, porque não é tudo cinzento… seria assim, talvez, o princípio de uma ideia.

Realizador conhecido pela versão original norueguesa de Night watch, e já com um outro filme  da sua carreira estreado em Portugal, o épico I am Dina, surge-nos em 2009 com este Deliver us from evil, uma história simples numa localidade pequena. Um casal que regressa à sua cidade para se estabelecer pacificamente nas suas raízes, uma família aparentemente feliz com os seus dois filhos e Alan, um imigrante Bósnio que procura na Dinamarca esquecer um passado sombrio, acolhido pela família para os ajudar na construção do lar. É este o ponto de partida de uma história simples que nos é contada lentamente e com planos íntimos.

O enredo é nos revelado por uma voz-off feminina sem que esta seja uma personagem da história. E na  primeira parte do filme são as excelentes paisagens de uma Dinamarca povoada de mar que nos é mostrado. Contudo, desde o início já sabemos que uma mulher vai morrer. Que o irmão do pai de família é uma pessoa sem amparo, e que a mulher morta era casada com um senhor poderoso. São motes introduzidos para o horror dessa história simples que nos guiará até a um final desconcertante. Na segunda parte do filme, o que nos é mostrado são as desumanas acções de um grupo regional desorientado pela morte acidental dessa mulher. O marido da defunta prossegue numa vingança fanática ao mal provocado pela a dor da sua morte. E com ele, a comunidade vem toda a trás. Escolhido o suspeito, o óbvio Alan imigrante, o filme embarca numa sucessão de terríveis comportamentos xenófobos, onde nem se escapa a tentação carnal de uma violação impiedosa. São imagens de puro choque em que o realizador acalma-as com a paródia ao absurdo, seguindo as directrizes de um Robert Rodriguez.

Seria fácil de digerir este filme se ele não se propusesse a uma campanha realista sobre o que as pessoas são mesmo capazes de fazer, seria simples argumentar um final mais feliz, colocando a morte em segundo plano, ou então esconder a deseducação deste vasto mundo de pessoas que efectivamente não se escapam do inferno, seria bonito distanciarmos da realidade deste filme. Mas o realizador não deixa. Um ponto ganho pela emoção, um ponto menor para a desorientada versão caricata da forma como a personagem principal é obrigada a defender a sua própria personagem.


Frozen Flower, formas de amar e formas de matar

Momento de uma sonho do rei que será imortalizado numa pintura. (Foto: Fantasporto)

À partida o que aparentava ser uma simples história de dinastias orientais e de onde poderíamos esperar boas cenas de combates de espadas acaba por nos surpreender com uma história de amor impossível. Depois de quebrado o mito dos cowboys em Brokeback Mountain cai por terra em A Frozen Flower o mito dos guerreiros orientais.

O Rei da Dinastia Goryeo tenta abalar o domínio da Dinastia Yuan na China e estabelecer um estado autónomo. Para tal, ele forma uma guarda palaciana, totalmente dedicada à sua pessoa, composta por trinta e seis jovens soldados, liderados pelo comandante militar Hong-rim. Este jovem para além de líder de uma equipa de elite partilha de grande intimidade com o rei. Amante, amigo e companheiro acaba por ser invejado por parceiros e pela rainha envolvida num casamento de fachada.

Tudo se complica quando confrontado com o problema de sucessão o rei não conseguindo concretizar a tarefa coloca Hong-rim no seu papel. Mais tarde terá de enfrentar a traição, amorosa e de confiança politico-militar, quando Hong-rim se apaixona pela sua esposa, a rainha da dinastia Yuan.

Este filme é o mais recente trabalho do sul-coreano Ha Yu, que além de realizador é também poeta. Dotado de uma excelente qualidade fotográfica e de uma banda sonora à medida a forma como se cruzam os momentos de violência de artes marciais, cenas de sexo e de contradições e contrariedades de amores impossíveis, quer pela homossexualidade quer pela diferença social, tudo parece resultar sem cair em lugares comuns e abrindo sempre surpresas até ao momento de desfecho final.


Hierro, uma mãe em busca de um filho

A mãe que não desiste da sua busca. (Foto: Fantasporto)

A estória deste filme é nos de alguma forma conhecida e por algum motivo já foi abordada várias vezes, ainda que de muitas maneiras diferentes; uma mãe que perde o seu filho misteriosamente durante uma viagem de barco a uma ilha. Este lugar é misterioso e força-nos à sensação de isolamento e prisão característico das ilhas. Isto torna todo o filme mais pesado, tornando o enredo bem mais psicológico, onde a violência não é gratuita mas antes interior e pessoal a cada espectador. A força do filme reside não tanto na sua estória mas na força com que consegue transportar os sentimentos expressos na tela. Intenso do ponto de vista psicológico, deixa-nos confusos fazendo com que nos incomodemos e queiramos participar na acção no sentido de tentar resolver o que se passa no filme. O clima de drama é denso e pesado, conseguindo o filme deixar-nos especados. Bem filmado e com uma fotografia muito boa e efeitos especiais bem conseguidos, subtis e pouco exagerados o filme é uma interessante experiência visual.

No final o tema acaba por ser tratado de uma forma especial e diferente do que eu já tinha visto. Ainda que nem tudo fique resolvido definitivamente, é nos dada uma explicação que poderia ser talvez evitada pelo menos da forma evidente que é feita. De qualquer maneira o final é constrangedor, a mãe inebriada pelo desejo de encontrar o filho e meio convalescente e sem forças acaba por mergulhar numa enorme alucinação em que vê o seu filho noutra criança que também havia sido dada como desaparecida naquela ilha. Quando pensávamos que ela ia finalmente conseguir levar a criança percebemos que não é aquele o seu filho, deixando o filme, uma sensação de vazio quanto ao seu possível final feliz. O que acaba por ser interessante já que, mesmo não tendo ela encontrado o filho Diego ela não parece completamente abatida, isto já no hospital, existe na postura dela uma atitude que nos permite uma interpretação de um final em aberto.

Um filme bastante interessante, principalmente quanto às imagens e a fotografia que apresenta, que nos consegue prender à cadeira.


First Squad e La Horde

First Squad

Pelas 17 horas do dia 27 de Fevereiro o Fantasporto propõem-nos mais uma animação, representante do género fantástico e de aventura que fazem também parte deste festival, o filme relata uma estória sobre meninos prodígio que são utilizados como armas de guerra em plena segunda guerra mundial. Entre o mundo real e o das trevas, reino dos mortos, este filme faz-nos viajar por espaços distintos, nas suas característica de violência e também de tons na imagem que apresentam. Ás tantas podemos não saber muito bem em qual dos dois nos encontramos. Em termos técnicos não é óptimo, o desenho é o tradicional manga os cenários e as texturas não apresentam nada de novo nem são muito bem trabalhadas. Um filme que poderia não se encontrar na programação que não deixaria saudades, isto, pelo menos, na minha opinião.

La Horde

Cena de destaque de um filme à "moda do Fantas"

Pela noite, às 21:15 horas, La Horde foi o filme escolhido. No início os realizadores, Yannick Dahan e Benjamin Rochér, falaram sobre o seu filme e a verdade é que este veio a revelar-se em conformidade com o que eles próprios disseram sobre o seu filme. Realizado na França onde, segundo eles mesmos “é difícil fazer filmes deste género”, é uma experiência algo incomum na perspectiva do terror que apresenta, ainda para mais num país com uma tradição cinematográfica que evoluiu num sentido diferente do género de terror, pelo menos como nós o concebemos de filmes americanos ou asiáticos, isto falando num sentido lacto.
É um bom filme, cómico, provoca gargalhadas na sala, o pessoal fica a pedir por mais, bons efeitos especiais, (vi uma caneca a explodir de uma forma que ainda não havia visto antes), propõe uma mistura de muitas coisas. Diz-se “Filme Noire”, não percebi exactamente de que maneira, acção, terror, zombies, um grupo de membros da mesma família que perdem um outro membro, morto por um grupo de assassinos profissionais e que vão parar a um prédio estranho jurando vingar-se dos que lhes provocaram tamanha dor. O problema é que o mundo transforma-se num bonito dia de domingo solarengo numa noite profunda e cheia de zombies, (isto para aí em dois minutos!). O grupo de familiares tem agora de se juntar ao grupo de assassinos que mataram o seu compadre para saírem dali com vida. Um filme à Fantas…


The Human Centipede… a centopeia humana à solta no Fantasporto

"Produto" final da experiência do Dr. Josef Heiter

Um soco no estômago podia ser uma boa frase para resumir este filme. Domingo à noite no Pequeno Auditório do Rivoli que encheu para ver The Human Centipede e onde se voltaram a ver pessoas a abandonar a sala a meio do filme. Não sem antes terem visto três curtas portuguesas: Close, Anestesia e Gnosis.

No circuito internacional fala-se deste filme como um dos filmes de terror/ horror com mais impacto nos públicos. Uma coisa é garantida ou se gosta e se consegue dar umas gargalhadas ou se odeia e a nossa visão sobre algumas coisas nunca mais será a mesma.

Acabando com o mistério mas sem fazer um spoiler aqui fica o que se pode dizer sobre este filme. Dr. Josef Heiter tem uma doentia visão sobre a humanidade. O filme começa com um sarcástico humor recorrendo a clichés do terror/ horror. Amacia o público para o que se segue. Um cirurgião alemão especializado em separar irmãos siameses resolve unir humanos numa espécie de centopeia. Duas amigas americanas turistas e um japonês são aprisionados e vão acabar unidos pelo seu sistema digestivo (completo)… removendo as rótulas para que os humanos tenham que andar de quatro e então cirurgicamente costurá-los bocas com ânus.

Imagens dificilmente inesquecíveis, actores e papéis muito bem trabalhados num argumento complexo bem realizado, pela qualidade da montagem e da fotografia, pelos momentos de cortar a respiração e pelo cuidado nos pormenores clínicos. Sadismo escatológico, condição humana e animal e resistência.

Se depois disto estiverem mesmo com vontade… arrisquem! Se forem capazes!