Especial Rascunho e JUP

Ao Vivo

«Che, The Argentine» abre Fantasporto

O discurso de apresentação do 29ª edição do Fantasporto surpreendeu ao não continuar a rotina de queixume e entitlement do costume. Mas o tom de pequenez foi mantido com o mantra da noite. “Este não é um Fantas da crise”, afirmou a directora do festival, Beatriz Pacheco Pereira, em jeito de resposta directa a “títulos de jornais nacionais” e como uma espécie de ultimato lançado ao Instituto do Turismo, que aparentemente tem dois meses para decidir se apoia o Fantasporto. Contudo, a lista de agradecimentos a instituições e entidades que apoiam o “Fantas” esteve, ao contrário do que aconteceu o ano passado, desprovida de farpas.

che-poster-lowqual-bigFindo o discurso, a anunciada preview de The Wolfman não foi projectada devido ao atraso dos procedimentos, tendo um grande auditório do Rivoli repleto assistido, de seguida, a The Argentine. O filme reveste-se da linearidade típica de Soderbergh, uma aproximação dos factos sem enquadramento nem valor acrescentado. A reconstituição da guerrilha, nos limitados cenários a que se dedica, é competente e por alturas bastante dinâmica (a tomada de Santa Clara, no terceiro acto). Mas com pouco mais do que figurões a debitar efemérides, o peso do filme iria cair sobre os ombros do retrato de Benicio del Toro. Mas este dá-nos uma performance recatada, em postura de humildade perante a figura homenageada. Com apenas metade do filme visto (e aparentemente The Argentine é a metade inferior) será difícil lançar juízo, até porque há claramente desenvolvimentos que apenas são semeados aqui. Contudo, The Argentine mantém-se na tradição dos biopics: sem relevância, apenas uma aglomeração de documentação sobre uma personalidade.

A noite prosseguiu no grande auditório com a exibição de The Deal, uma comédia tragicamente defeituosa e vazia, terminando com a projecção do soberbo Blade Runner, de Ridley Scott, aqui na versão Final Cut (que já o ano passado o festival tentou trazer ao Rivoli).


Abstração biotécnica

Conferência sobre as Ruínas do FuturoNesta quinta-feira, o ciclo de palestras sobre a arquitectura do futuro, promovido pelo Fantasporto e pela Ordem dos Arquitectos teve a sua segunda e final edição. Desta vez, o convidado foi o arquitecto português radicado em Londres, Marcos Cruz, que acaba de receber do Royal Institute of British Architects, prémio máximo de destaque em teses de doutoramento.

No início da palestra, o arquitecto criou relações entre marcos da ficção científica cinematográfica e a produção arquitectónica que as seguiram e persistem com grande força até hoje, principalmente em escritórios londrinos, citando como exemplo os filmes Barbarella (1968), Blade Runner (1982) e Matrix (1999). Foi usando este último como ponto de partida que Marcos Cruz expôs seus conceitos por trás de sua produção arquitectónica. A biotecnologia, associada as potencialidades da tecnologia digital e dos estudos sobre materialidade nos espaços construídos são as bases em que o arquitecto sustenta sua pesquisa e trabalho.

Conferência sobre as Ruínas do FuturoEm seguida, exibiu algumas imagens dos seus projectos, sempre com formas inusitadas e orgânicas, aproveitando-se ao máximo dos efeitos que uma nova relação corpo-espaço pode gerar. Para Cruz não há limites para esta relação: «A nossa ideia de corpo em arquitectura é construída de forma oposta à noção comum e redutora da metáfora da pele como uma membrana fina e plana. A ideia do corpo perfeito e burguês influenciou muito a forma com que a arquitectura é projectada desde o modernismo, ela deve ser sentida e vivida e não apenas observada como obra de arte». Partindo desta ideia, o arquitecto demonstrou o quanto a imagem «cyborguiana» de um corpo sem limites e totalmente aberto a extensões é importante para suas obras e como tal imagem, sempre renovada por filmes de ficção científica, está cada vez mais presente no trabalho de muitos artistas e teóricos de vanguarda.

Terminada a apresentação, iniciou-se o tempo reservado para perguntas. Fugindo de questões técnicas e concentrando-se na teoria, elas serviram de pretexto para que o arquitecto falasse mais sobre questões que o preocupam na relação das pessoas com os espaços. Para Marcos Cruz a arquitectura não deve ser pensada apenas como um jogo abstracto de planos, pontos e linhas, mas sim como um corpo inteiro, muito mais do que uma simples barreira física de convivência, ela deve ser a própria imagem em movimento que reflecte a vida e ambições de uma sociedade.

Para os muitos alunos da FAUP que assistiram a palestra restou apenas uma dúvida. Se Marcos Cruz, este novo e promissor arquitecto português, fosse dar a mesma palestra na escola projectada por Siza, sairia ele aplaudido ou apedrejado?


Fujimoto, o conceptualista

A primeira conferência sobre arquitectura no futuro teve como convidado o arquitecto japonês Sou Fujimoto. Através de uma apresentação de slides, contendo imagens, diagramas e desenhos técnicos, o arquitecto exibiu os seus projectos inovadores para habitações. Partindo sempre de formas e volumes simples, aposta mais na relação que as pessoas podem criar com os espaços do que na sofisticação dos mesmos.

Sou Fujimoto mostra o seu trabalho (Foto: Cíntia Morais)

Sou Fujimoto mostra o seu trabalho (Foto: Cíntia Morais)

O arquitecto iniciou a apresentação explicando os conceitos que dão forma aos seus projectos: «ninho», em referência a espaços que são projectados para a acomodação imediata das pessoas, e «caverna», espaços sem preparo em que os usuários se acomodam aos poucos. A partir daí, Fujimoto explicou as diferenças da sua arquitectura inovadora em relação aos conceitos básicos da arquitectura moderna criados pelo arquitecto suíço-francês Le Corbusier em 1914 (piso, pilar e escada). Na sua arquitectura, explicou o japonês, não existem pré-definições, estruturais ou formais, os espaços e formas são gerados como elementos de paisagem em que as pessoas naturalmente encontram um espaço em que se sintam bem.

Após mostrar estes conceitos aplicados em alguns dos seus projectos, Fujimoto respondeu a algumas perguntas da plateia. Apesar de a maioria serem referentes a questões técnicas e construtivas nos seus projectos, alguns questionaram a viabilidade das ideias do arquitecto, apesar de serem muito interessantes, e como elas seriam realmente implantadas na sociedade actual. O arquitecto defendeu-se, dizendo que a maioria dos suas obras se localizam no Japão exactamente por este país ter uma mentalidade mais aberta para novas formas de habitação e relação com os espaços.

Apesar da geral satisfação a respeito da apresentação e qualidade dos projectos de Sou Fujimoto, a maioria dos espectadores saiu com a ideia de que o arquitecto japonês trabalha baseado em ideias bastante conceptualistas, que talvez tenham mais condições de serem aplicadas apenas no Japão.