De olho em 2010
Não foi esta edição de 2009 o que mais se comentou nos últimos dias do Fantasporto. O assunto a respeito do futuro do festival perpassou pela direcção do evento, pelos media e pelo público.
No discurso de encerramento, na noite de 28 de Fevereiro, o director do Fantas, Mário Dorminsky, afirmou que o festival pode estar a correr o perigo se 80 por cento do orçamento continuar a ser coberto por patrocinadores privados. Dorminsky fez apelo à SuperBock – «que vem sendo o nosso papai e a nossa mamãe» –, cujo contrato de três anos acabou neste festival, e ao Ministério da Economia (revezando com o apelo feito ao Ministério do Turismo no discurso de abertura realizado por Beatriz Pacheco Pereira), para que emita mais subsídios para os festivais, pois «são eles que ainda sustentam grande parte das actividades culturais e ainda ajudam a divulgar o turismo da região Norte».
Durante os quinze dias de ecléctica programação, corroborando um Fantas cada vez menos focado no nicho do universo fantástico, foram mais de 50 mil espectadores com bilhetes, além dos 150 lugares reservados em cada uma das 50 sessões realizadas, considerando apenas o Grande Auditório do Rivoli.
Apesar do aumento de espectadores na ordem dos 17 por cento, fica a dúvida de como serão angariados os quatro milhões de euros necessários para realizar o festival com a mesma qualidade deste ano. A 30ª edição do Fantasporto será realizada entre 26 de Fevereiro e 6 de Março de 2010. O período pré-Fantas será dedicado à Ciência e à Robótica. «Será uma festa menor, mas iremos fazê-la com a mesma alegria e determinação que nos fez chegar a 30 anos na direção desse festival», completou Beatriz Pereira. Agora é esperar para ver.
Malu Mader divulga estreia como realizadora no Fantasporto
A actriz Malu Mader esteve no Fantasporto e fez questão de divulgar o primeiro filme em que actuou como realizadora, apesar de não o exibir no festival. Contratempo foi lançado no segundo semestre do ano passado e já participou de eventos como a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O documentário vem conquistando críticas positivas, para surpresa da actriz, que confessou ter pensado que seria condenada pela crítica por ser uma «actriz que se meteu a ser realizadora», como afirmou de maneira descontraída. De grande simpatia e firmeza na fala, Malu Mader revela as novas directrizes para a sua carreira e a sua relação com o seu próprio trabalho e com os media.

Malu Mader com Tony Bellotto (Foto: José Ferreira)
O que pode esperar o público de Contratempo?
É um filme sobre jovens de comunidades carentes do Rio de Janeiro, que pelo desejo de mudar o destino foram atrás de um projecto de música erudita e foram seleccionados para esse projecto, o Villa-Lobinhos. Nem sempre essas mudanças nas vidas deles aconteceram da maneira prevista, mas muitas vezes sim, porque eles desejaram mudar esse destino. Por acaso o filme tem emocionado bastante, tem feito rir, tem feito chorar… Não foi a intenção passar mensagem nenhuma, nem moral, nem final, mas eu tenho achado que ele merece ser visto por muitos jovens de escolas, de favelas.
Então foi um filme prazenteiro de fazer…
O filme ficou com um sentido muito afirmativo, muito positivo, os meninos são muito positivos, eles têm bons sentimentos, eles têm muita vontade. Acho que quando você deseja realmente alguma coisa e sonha isso tem que ser visto por outros jovens que estão ali, em terrenos escorregadios como os da favela, entendeu? Acho que, de alguma forma, é importante que outros jovens que estão perigando ali vejam. Não foi feito com essa intenção, mas agora que está pronto acho que merece ser visto por outros jovens que estão nessa mesma situação.
Porquê sair de frente das câmaras para dirigir este documentário?
Já tinha vontade de dirigir há bastante tempo, mas achava que ia dirigir filmes de ficção, dirigir actores, criar histórias… Porque dentro da minha cabeça há milhões de personagens e histórias que tenho vontade que tomem forma. Só que nem sempre você é que escolhe as coisas, as coisas te escolhem também. O documentário aconteceu antes do filme de ficção e, agora que o consegui realizar, fiquei feliz com ele, senti-me realizada, fiquei muito estimulada. Estou tentando escrever um filme de ficção, que já é um segundo passo, e estou muito apaixonada com isso. Fica todo mundo perguntando se eu vou querer deixar de ser actriz, mas a profissão de actriz é uma paixão também.

Malu Mader e Theodoro Fontes, produtor de cinema (Foto: José Ferreira)
Foi difícil angariar fundos para o documentário?
Era um orçamento muito barato. Agora quero ver como será com o filme de ficção, que é obviamente muito mais caro, muito mais complexo, por isso que acabou acontecendo o documentário antes também. Foi mais viável.
Não ficou com receio da crítica? Afinal, pelo próprio tema do documentário, poder-se-ia interpretar como autopromoção, aquele estereótipo da «actriz que ajuda jovens carentes».
Claro que não sou um tipo de pessoa que faz um filme só para mim, claro que você quer que todo mundo goste. A princípio, o que mais queria é que eu ficasse satisfeita e que eles gostassem de se ver na tela. E aí, num segundo momento, claro, quanto mais a crítica gostasse, as pessoas gostassem… Mas acho que há críticas e críticas e eu estava aberta até para críticas ruins. Um filme existe com o olhar do outro também.
Mas o facto de ser uma actriz famosa interfere, claramente, nas críticas.
Por mais que ficasse triste, estava disposta a ouvir o que as pessoas tinham a dizer, de ruim e de bom. Mesmo que a crítica fosse destrutiva, estava preparada. Mas queria ouvir críticas que me ajudassem a crescer como cineasta, eu estava muito disposta a ouvir pessoas que me falassem: «olha, isso e isso aqui não estava bom e tal». Queria aprender, estava me sentindo uma iniciante, como estou me sentindo ainda assim, sabe? Não é porque já tenho um nome como actriz… Estou me sentindo como dando um primeiro passo como realizadora, estou me sentindo como se tivesse vinte e poucos anos…

Malu Mader (Foto: José Ferreira)
Não te incomoda o facto de aparecer mais nos media do que a sua obra?
A indústria de celebridades é uma coisa muito forte. Talento é uma coisa que sempre se impõe, quando você tem um mega talento, tudo isso é mais forte que tudo. Se você vai construindo, trabalhando e não vai aceitando esse jogo, quando você fica no meio-termo… Eventualmente você tem que ceder, tem que fazer uma entrevista aqui, ir a um evento ali… Mas se não fica vivendo de um jogo fútil eterno, vai lá, senta lá, escreve todo dia, não fica só indo a festas o tempo inteiro, você constrói o seu trabalho. É que as pessoas acham que para fazer um trabalho precisam ir a festas várias vezes por semana, e não é nada disso. O que faz de um artista ou de um actor ou de um cineasta ou de um realizador ou o que quer que seja alguém é o trabalho dele.
É por isso que tem uma carreira sólida, com mais de duas décadas…
Não adianta a pessoa ter a ilusão de que ir a três festas por semana e aparecer na revista vai fazer dele alguém. Pode fazer dele alguém naquela semana; passou aquele tempinho ali, se ele não tiver alguma coisa a oferecer de facto… Ou não, posso estar enganada, sei lá… Posso estar falando besteira. Hoje em dia a pessoa emagrece quatro quilos e sai na capa: «emagreci quatro quilos». Semana que vem: «separei do meu marido». Daqui a cinco semanas: «ganhei um carro do meu novo namorado». Pode ser, quem sabe… Claro, a pessoa se sustenta por aí uns dez anos nos media, mas alguma hora… Depende da tua vontade também, do que você almeja para você. Se você quer construir alguma coisa da qual você vai se orgulhar ou da qual você quer que o seu filho se orgulhe ou se busca alguma realização, aí é mais difícil, aí tem que trabalhar. Tem que ser algo que te dê felicidade de verdade. Não só material, mas que te preencha.
As telenovelas brasileiras fazem muito sucesso em Portugal. É um país que acolhe com carinho muitos artistas brasileiros…
Portugal é uma delícia… Desde a comida, que adoro, até às pessoas… O carinho, os lugares bonitos, a sensação de estar em casa. Pretendo vir a algum festival aqui em Portugal este ano com o meu documentário.
Escritor de «Bellini e o Demónio» considera adaptação ao cinema «muito positiva»
O escritor Tony Bellotto, também músico dos Titãs, esteve presente no primeiro fim-de-semana do Fantasporto para divulgar o seu livro Bellini e o Demónio (Companhia das Letras), que em Portugal foi lançado com o título de Um Caso com o Demónio. Com uma carreira iniciada na década de 1980 e casado com uma das mais famosas actrizes brasileiras, Malu Mäder, Bellotto fala em entrevista ao JUP/RASCUNHO sobre a adaptação do livro ao cinema , o preconceito que sofre por ser um músico que também é escritor, a crítica de arte e o intercâmbio cultural.

Tony Bellotto no Fantasporto (Foto: José Ferreira)
Quem é Bellini?
No começo ele nem era um detective, eu pensei num alter-ego meu, alguém que reflectisse um pouco da minha visão do mundo. As primeiras histórias dele eu nunca publiquei, eram fragmentos de um adolescente no interior de São Paulo, como eu fui. Aí abandonei esse projecto e quando fui escrever o meu primeiro romance, Bellini e a Esfinge, em 1994, estava lendo muita literatura policial e quis fazer um livro de literatura policial. Ao criar o meu livro, criei esse detective, que é um homem desiludido, fracassado, que tem umas tiradas irónicas e reflexões um pouco desiludidas sobre o mundo.

Bellotto com a esposa, Malu Mäder, e Theodoro Fontes, produtor do filme (Foto: José Ferreira)
Não teve receio quanto à adaptação, já que o cinema exige uma outra linguagem?
Já aprendi com o tempo que toda adaptação para o cinema tem que mudar a essência do livro. São raros os livros que são transportados literalmente para o cinema e que você fica satisfeito com o resultado. Geralmente, nos frustramos um pouco quando vemos no cinema a adaptação de um livro de que gostamos. Como é uma linguagem diferente, o livro deve mesmo servir só como base para o filme ser feito, que é o que acontece aqui; Bellini e o Demónio é um filme totalmente diferente do livro. Por exemplo: uma das coisas que acho mais legais do livro, que é o monólogo interior de Bellini, é impossível de transpor. Não é que fique apreensivo, mas quando vendo os direitos de uma obra já aceito que vai ser diferente, e quando se aceita não se sofre tanto.
Mas o resultado da adaptação do filme foi positivo?
Foi muito positivo. É um filme interessante, mas diferente do livro porque ficou um filme mais fantástico. No meu livro, o livro perdido é um romance policial do Dashiell Hammett que nunca foi publicado, e no filme é o livro do Aleister Crowley, ligado à magia negra. Eu fico muito satisfeito porque é um filme muito bem realizado, muito legal. Agora, a pessoa vendo o filme não quer dizer que leu o livro, pois são emoções diferentes.
Não se teve aquele receio de cair no lugar comum e nos estereótipos?
Não participei da feitura do filme. Eles correram esse risco, é um risco que se corre mesmo. Eu, de certa maneira, também corri esse risco dos estereótipos da literatura policial, o tempo todo você tem que tentar fugir do cliché para não cair no óbvio. Acho que o filme conseguiu fugir desse óbvio porque fica muito aberto, até o final brinca um pouco com essa ideia da literatura de Jorge Luis Borges, da pessoa encontrando a si mesma e a ideia do demónio como um aspecto dentro de você mesmo.

Tony Bellotto em entrevista ao JUP/RASCUNHO (Foto: Caio Meirelles)
Em algumas entrevistas, você afirmou que Bellini tem um teor sarcástico e existencialista. Os personagens são uma parte dos seus autores ou é algo completamente distinto, obra e autor?
Todo personagem tem um pouco do autor. Todo personagem que eu invente, por mais que eu tente fazê-lo diferente do que eu sou, sempre ele parte de mim e, inevitavelmente, tem aspectos meus. Agora esse sarcasmo do Bellini, que é mais claro no livro, essa ironia e desilusão dele fazem parte da ideia que eu tenho do mundo. Não sou tão irónico nem sarcástico nem desiludido, mas coloco nele toda uma ampliação dessa minha desilusão.
Hoje o artista torna-se mais importante do que a obra?
Infelizmente, sim [risos]. Essa cultura da celebridade é uma coisa que vem acontecendo há muito tempo, já começou no século passado. Faz parte do nosso tempo, né? Existe o artista e existe a obra e de certa forma estão um pouco desatrelados. Às vezes a obra é boa e você nem sabe quem é o artista e às vezes você nem sabe qual é a obra e o artista é uma celebridade. Faz parte dessa cultura do nosso tempo, e estou envolvido nela, não dá para negar. Sou escritor e ao mesmo tempo sou guitarrista de uma banda… Não sei até que ponto as pessoas conseguem avaliar uma obra minha sem levar em conta o artista. Eu acho que seria mais interessante que a gente desse mais atenção para a obra, mas os artistas aparecem muito e acabam dificultando. Gosto muito e invejo esses escritores que não dão entrevistas, que não aparecem, é uma forma de preservar a obra. Mas isso seria impossível pelo facto de eu ser um guitarrista de uma banda que já está dentro de um sistema mediático, é uma alternativa que eu não tenho.

Bellotto com a mãe, a professora universitária Heloísa Liberalli Bellotto (Foto: Manaíra Aires)
A crítica constrói ou destrói?
As duas coisas. Cada vez se tem menos o trabalho do crítico de fazer uma análise sobre a obra. A gente tem muita informação sobre a obra. Na crítica no Brasil, às vezes eu sofro de um preconceito pelo facto de ser um músico escrevendo, às vezes as pessoas duvidam que um guitarrista de rock possa escrever um livro. Mas eu não me pauto muito na crítica, uma obra requer mais tempo. O que uma obra significa é o tempo que responde, com os leitores e tal. A crítica é importante, mas não tem força para construir ou destruir, é sempre a obra que se faz, para o bem e para o mal.
Como enxerga o Brasil nesse intercâmbio cultural, proporcionado por eventos como o Fantasporto?
Acho o Brasil muito autocentrado. Tirando a produção americana, principalmente na música, no Brasil é difícil fazer sucesso de verdade música latina ou de Portugal ou da Espanha ou de outros países da América do Sul e da América Central. Acho que temos um certo preconceito no Brasil contra músicas que não sejam, por exemplo, cantadas em Inglês e em Português. A cultura brasileira é um pouco fechada nesse sentido, a gente não tem muito conhecimento do que acontece fora do nosso país, como esse festival, por exemplo, que tem o foco num tipo de cinema específico.
Fantasporto no Brasil: Leo Falcão
O JUP/RASCUNHO continua a fazer saber da repercussão do Fantas do outro lado do oceano. Depois do jornalista Rafhael Barbosa e da produtora Maíra Viana, esta série de três entrevistas curtas a agentes culturais brasileiros (todos de regiões diferentes, recordamos) fica hoje completa com as respostas do cineasta Leo Falcão (foto).
Conhece o Fantasporto? Como?
Já ouvi, sim. É um evento bastante conhecido no circuito de festivais, especialmente por guardar este recorte específico de lidar com o fantástico, que é um género de suma importância e influência para a literatura e para o cinema latino.
Por que gostaria de participar no festival?
Participar de um festival é importante por vários motivos. Além da oportunidade de mostrar o seu filme para um público diverso, trocar ideias e impressões acerca do seu trabalho, contribui para o amadurecimento contínuo, em termos técnicos e estilísticos, eu diria.
Qual a importância desses festivais?
Estabelecer networks (pessoais e profissionais) é um aspecto fundamental de qualquer evento de cinema, justamente por permitir esse maior contacto entre diferentes realidades de trabalho e viabilizar pragmaticamente actividades de cooperação, promovendo assim um maior desenvolvimento e diversificação da produção cinematográfica contemporânea.
Fantasporto no Brasil: Maíra Viana
O JUP/RASCUNHO continua a fazer saber da repercussão do Fantas do outro lado do oceano. Depois do jornalista Rafhael Barbosa, colocámos as mesmas perguntas a Maíra Viana (foto), produtora cultural. Esta série de três entrevistas curtas chega amanhã ao fim com a publicação das respostas do cineasta Leo Falcão.
Conhece o Fantasporto? Como?
Já ouvi falar através da Internet. Como trabalho com roteiros estou sempre lendo muito sobre a área de vídeo, curtas, cinema, etc.
Por que gostaria de participar no festival?
Acho interessante, sim. Pretendo encaminhar alguns vídeos meus para festivais e o Fantasporto é uma óptima porta.
Qual a importância desses festivais?
Esses festivais podem auxiliar, por exemplo, no intercâmbio Brasil–Portugal de produções cinematográficas. É a globalização cada vez mais avançando, eu acho. A união e troca de culturas entre esses dois países leva a vantagem de não ter a barreira da língua. Um festival como este estimula e enobrece o intercâmbio entre Brasil e Portugal, o que para mim está entre as principais relevâncias ao se fazer um festival.
Crítica: «Idiots and Angels», de Bill Plympton
Um negociante de armas frequenta todos os dias o mesmo bar. Olhos pesados, corcunda, sempre a fumar e a beber: os aspectos físicos denunciam o carácter imoral, corrupto e violento do protagonista. Um belo dia, o homem percebe que lhe está a crescer, nas costas, um par de asas que possui vida própria. A bondade e a justiça das asas fazem o homem tentar livrar-se, sem êxito, daquele fardo que outrora lhe parecera um grande bónus. As asas nascem para aproximar o anti-herói da mulher que ama, a esposa do dono do bar, e acabam por tornar-se o objecto símbolo da redenção do homem.
Bill Plympton constrói um belo filme de animação, no sentido mais clássico e estético a que a palavra belo possa ascender. É uma leitura muito peculiar de fábulas que permeiam a memória colectiva. A construção do enredo até parece uma continuação da alegoria da Parelha Alada, de Platão. Nesta alegoria, o homem fez tantas coisas erradas que as suas asas perderam as forças e, sem elas para o sustentar, o ser humano caiu no mundo das sombras, condenado a pairar apenas pelos espectros da verdade.
Plympton devolve ao homem as asas neste mundo sombrio de excessos – grosseria, perversões sexuais, corrupção, ambição desmedida. E todas essas violações estão subordinadas a uma: o excesso de liberdade leva o ser humano a ignorar os seus próprios limites, o que culmina em solidão e escárnio.
Em termos estilísticos, o filme é sóbrio e elegante. O tom lírico (e por vezes onírico) é preservado em meio a cores mornas e a um traço de desenho denso, com muitos rabiscos e um acabamento prodigioso. A trilha sonora é um espectáculo à parte, inclusive com a participação de Tom Waits.
Marcelo Galvão: «Temos que fazer bons filmes comerciais»
Em entrevista exclusiva a partir de São Paulo, o realizador Marcelo Galvão fala ao JUP/RASCUNHO sobre o processo de construção de Bellini e o Demónio, a relação entre cinema empreendedor e cinema sustentável, e o intercâmbio de produções cinematográficas entre o Brasil e Portugal.
Galvão é graduado em Propaganda e Marketing pela Fundação Armando Alves Penteado e em Cinema pela New York Film Academy, e já tem na bagagem filmes como Rinha (apresentado no último Festival de Cannes) e Lado B: Como fazer um longa sem grana no Brasil.
O que pode esperar o público de Bellini e o Demónio?
Um filme com imagens fortes e viscerais, onde o demónio não tem rabo nem chifre, mas está presente na loucura dos nossos mais íntimos desejos. Além disso, o público irá perceber um trabalho de direcção de actor intenso, com uma resposta incrível do Fabio Assunção.
Como surgiu o convite para dirigir o filme?
Um grande produtor e amigo meu, Marçal Souza, me apresentou Theodoro Fontes, o produtor de Belline e o Demónio. Depois de uma grande conversa num restaurante, ele contratou-me para escrever o roteiro do filme e para ser o realizador. Acabei no final de tudo sendo também co-produtor, pois tive que colocar dinheiro para terminarmos o filme.
Em algumas entrevistas, você afirma que Bellini e o Demónio possuía um fio condutor mais visceral, no estilo de David Lynch e Cronenberg, e que o produtor descaracterizou essa linha orgânica. Esse é um dos grandes entraves ao ser um realizador contratado?
Depende dos contratos que são feitos. Fui muito ingénuo em aceitar entrar neste filme sem ter a liberdade de poder montá-lo. Desta forma escrevi um roteiro e dirigi um filme para um tipo de montagem que não aconteceu. Resultando assim em algo banal e sem coesão, um filme com imagens fortes, mas desconexas. Quando você repete 10 takes numa cena não é à toa, é porque você sabe que em várias delas houve algum problema. Então, como alguém pode montar um filme sem saber que problemas viu o realizador naqueles takes todos? Às vezes o começo do take 3 e o final do take 2 complementam-se, mas só o realizador sabe disso, é o único que tem o filme todo na cabeça. Outra forma de se fazer filmes é escrever, dirigir e entregar tudo ao produtor, mas sendo muito bem remunerado por isso, o que também não foi o caso.
Os seus dois filmes com maior repercussão internacional (Rinha, que participou do Festival de Cannes, e Bellini e o Demónio, que participa agora do Fantasporto) não seguiram propriamente os seus objectivos ideológicos. Como remar contra a maré, se para se manter é preciso fazer filmes de puro entretenimento ou que mostram pobreza e violência quando, na verdade, o que se quer é produzir filmes que revelem a «podridão da burguesia», como já afirmou?
Rinha ainda não foi lançado nos festivais internacionais. Levámos o filme apenas para o mercado em Cannes para sentir a recepção dos buyers, que por sinal foi muito boa. Terminámos o filme agora e ele está bem diferente, com uma hora a menos e com o som e as imagens totalmente finalizadas. Rinha seguiu os meus objectivos ideológicos: foi feito como imaginei e concebi; ao invés de fazer um filme de luta no estilo O Grande Dragão Branco, desenvolve-se num universo de bizarrices reais e ao mesmo tempo absurdas, servindo de questionamento do status quo dessa sociedade burguesa sem limites. Já Belline [e o Demónio] não seguiu os meus objectivos ideológicos por entrave do produtor, pois foi escrito e filmado para isso.
Como transformar o cinema empreendedor, voltado para o circuito tipicamente comercial, em cinema sustentável, em que não se depende de subsídios estatais nem industriais?
Dentro da realidade brasileira, onde não existe indústria cinematográfica, onde o número de salas de cinema é bem inferior ao de muitos países menores que o nosso, a saída mais rápida é diminuirmos os custos de produção, escolhendo roteiros mais simples e ao mesmo tempo mais interessantes. Um bom exemplo é o meu primeiro filme, o Quarta B, feito com 12 mil dólares, que ganhou a Mostra Internacional de São Paulo pelo júri popular.
Bellini e o Demónio é o único filme brasileiro no Fantasporto 2009. Faltam filmes no Brasil que se adeqúem ao universo do cinema fantástico?
Acredito que a maior parte dos filmes brasileiros fogem a essa temática do universo fantástico, porém temos que lembrar que todo festival tem o seu critério de escolha. Não podemos dizer que por Belline e o Demónio ter sido o único filme brasileiro do Fantasporto 2009, faltam filmes brasileiros que se adeqúem a esse universo.
O filme é uma adaptação do livro homónimo de Tony Bellotto. Quais os aspectos importantes ao fazer-se uma adaptação, tendo em vista que a linguagem literária e a linguagem cinematográfica possuem peculiaridades intransferíveis?
O principal numa adaptação literária é entender bem a narrativa da história, os objectivos e valores de cada personagem e tentar trazer isso para o filme com um ritmo que prenda o espectador. O aval do escritor é uma boa dica de que o caminho está certo.
Bellini e o Demónio é uma sequência de Bellini e a Esfinge, dirigido por Roberto Santucci Filho em 2001. Quando se tem em mãos a continuação de uma obra, as cobranças são maiores por haver comparações?
Acredito que não, a não ser quando a obra anterior se torna uma grande referência.
«Filme de paixões cinéfilas e de livros de cordel», é como se inicia o breve texto sobre o filme no catálogo do Fantas. O cordel é uma tradição originária de Portugal, e agora o filme leva aos portugueses aspectos do cordel sob uma concepção brasileira. Hoje temos uma visão cultural «digerida» daquilo que foi há muito as nossas raízes?
Acho que sim. As informações reciclam-se a todo o momento e desta forma surgem coisas novas, que acabam com o tempo enraizando e tornado-se referências de uma nova sociedade.
De que maneira festivais como o Fantas podem auxiliar no intercâmbio de produções cinematográficas entre o Brasil e Portugal?
Servindo de vitrina para que ambos os países conheçam melhor o cinema que está sendo feito em cada território e assim estreitando relações de co-produção entre os dois países.
Assim como você, muitos cineastas hoje possuem uma formação inicial em Publicidade e Propaganda, começando a carreira como redactores publicitários. Como a bagagem adquirida nessa área intervém na construção de tua linguagem cinematográfica?
Dá experiência na construção de histórias com começo meio e fim, mesmo que estas tenham apenas 30 segundos. Além disso dá-lhe um grande critério com relação ao nível de produção que deverá exigir-se para um filme, cerca-o com enorme repertório das mais diversas referências de linguagem e amplia o seu network com os melhores profissionais da área, já que, no Brasil, praticamente é a publicidade que sustenta os técnicos do cinema.
Em 1999, vendeu o seu carro e foi estudar cinema na New York Film Academy. Para se sustentar, ganhava a vida como lutador de Jiu-Jitsu. A importância dessa experiência está reflectida na visão crítica diante de um cinema cada vez mais afunilado ao entretenimento? Estudar em grandes centros é mais relevante para se aprender a fazer cinema ou para se ganhar projecção?
Acho que o cinema tem que ser sempre entretenimento, pois é feito para que outras pessoas assistam. Isso não quer dizer que por ser um filme comercial tem que ser ruim. Quantos filmes excelentes conhecemos que são líderes de bilheteira: Cidade de Deus, Little Miss Sunshine, Forrest Gump, etc. Não podemos fazer é apenas filmes comerciais, temos que fazer bons filmes comerciais. Quanto à segunda parte da pergunta, estudar é sempre bom, seja em grandes ou pequenos centros, mas só se aprende cinema, fazendo cinema. E quando se faz um cinema bom, aí sim ganha-se projecção.
No universo do fantástico, vê-se cada vez mais filmes em que a linha entre o real e o ficcional é ténue. Isso também pode ser visto nos teus filmes?
Sim, gosto de brincar com o real e o ficcional de forma a fazer com que o espectador participe do filme. Acho que o bom filme só se completa com a interacção do espectador. Não existe um certo ou errado, é como um quadro, cada um interpreta a obra da sua maneira e isso é o que mais gosto no cinema.
Não incomoda muitas vezes um filme ser mais conhecido por ter determinado actor ou actriz do que pela obra em si, com toda a complexidade que uma produção cinematográfica sugere?
Acho que não. Num filme existem inúmeros elementos para serem apreciados. Cabe ao espectador escolher qual ou quais deles lhe agrada mais.
Crítica: «Che, The Argentine», de Steven Soderbergh
O filme de Steven Soderbergh retrata a biografia do revolucionário Ernesto Che Guevara em dois longas-metragens, sendo The Argentine a primeira parte, que abrange a história do guerrilheiro desde o encontro com Fidel Castro no México até a conquista do território cubano, antes dominado pelo regime de Batista. A segunda parte, The Guerrilla, que não faz parte da programação do “Fantas”, perpassa pela renúncia de Che ao seu cargo no governo cubano e à sua cidadania no país até a decepção do revolucionário por não conseguir na Bolívia o apoio que conseguiu em Cuba.

A linearidade do filme já era esperada. O que intrigou foram as fortes doses de humor, quer sejam criadas por situações cómicas, quer sejam pela dubialidade de certos diálogos. O fato é que esse humor garantiu um bom timing à trama, isto é, ajudou a distribuir a tensão no decorrer da história para não tornar as cenas de guerrilha cansativas.
A posição humanista do revolucionário é largamente reforçada, inclusive mostrando o contraste entre a ideologia anti-imperialista e o ícone mundial em que transformaram Che, cuja imagem foi mediatizada e vendida pelo próprio capitalismo.
Vem daí o preto e branco utilizado nos momentos paralelos aos episódios da guerrilha, um bom recurso estético para
não tornar cansativa a narração. Nesses entremeios, Che aparece em discursos na ONU e na recepção que teve em sua viagem a Nova Iorque em 1964 ou em excertos de entrevistas. Deixa-se claro que o guerrilheiro não lutava por nações e territórios, mas por melhores condições humanas independente de limítrofes espaciais ou culturais. “Qual a principal característica de um revolucionário?”, pergunta uma jornalista. Che responde: “O amor. O amor à humanidade, à justiça e à verdade”.
A longa acaba de maneira tão abrupta e inesperada – numa tentativa de impelir o público a assistir a segunda parte – que se torna confuso o desfecho para aqueles que não sabem que a história sob a óptica de Soderbergh não fica por ali.
Como protagonista, merece destaque a actuação de Benicio Del Toro (também produtor do filme e prémio de Melhor Actor no último Festival de Cannes) pela peculiaridade de não intencionar atingir o máximo de semelhanças ao Che na vida real, mas por incorporar o personagem com as possibilidades e limitações que a ficção cinematográfica sugere. Aliás, a película dá a ideia de que não existe uma obsessão pelo detalhe histórico – é um filme que, apesar da história fragmentada pelas conquistas paulatinas do grupo de guerrilheiros, reflecte uma visão do todo, e não de partes.
Crítica: «Dark City», de Alex Proyas
No segundo dia do Fantasporto, foi bastante considerável o número de pessoas no Grande Auditório do Rivoli para assistir ao Dark City (1998), de Alex Proyas. Lançado em Portugal e no Brasil com o título de Cidade das Sombras, o filme é uma miscelânea entre lugares comuns dos filmes de ficção científica e diálogos profundamente metafísicos.
John Murdock (Rufus Sewell) acorda atónito num quarto de hotel com vagas lembranças de uma série de assassinatos que ele jamais imaginaria ter cometido. Vê-se perseguido pela polícia, mas logo descobre que está a ser, verdadeiramente, procurado pelos «The Strangers». Estes são seres tétricos que fazem experiências trocando as lembranças dos seres humanos, a fim de saber o que é que constitui a alma humana.
Dark City tem um claro embasamento filosófico, onde os seres e poderes fantásticos compõem uma trama que questiona a formação da identidade humana, tanto nos aspectos mais individuais (como as reminiscências, que são únicas a cada pessoa) como na construção de uma memória colectiva. «É como se eu tivesse sonhado e quando acordei, já estava numa outra vida», afirma Murdock.
A concepção plástica sobrevém muito do senso comum, com figurinos previsíveis, cores que oscilam entre o claro e o escuro e efeitos virtuais repetitivos, além de um melodrama bem convencional para aliviar as tensões no decorrer da história. No entanto, o roteiro segue tão metodicamente os três actos de uma narrativa cinematográfica (o chamado «à aventura», a provação suprema e o retorno com o elixir) que o filme garante-nos uma boa dose de cada aspecto que compõe uma trama.
Crítica: «Immortel», de Enki Bilal
Uma pirâmide suspensa na Nova Iorque de 2095. O deus Horus tem a sua condição de imortal abjurada e precisa de garantir a perpetuação da espécie humana, numa sociedade em que os seres artificiais são a maioria. Nikopol (Thomas Kretschmann), um revolucionário preso há 30 anos, é o escolhido para «emprestar» o corpo a Horus e fazer com que este fecunde a mutante Jill (Linda Hardy).
É assim que se desdobra Immortel (2004), um filme de extremos: perpassa-se da mitologia egípcia directamente para o futuro criado por Enki Bilal. O mais curioso é que, sem assentar necessariamente no presente, o filme é claramente uma referência a questões que permeiam a humanidade hoje, como os desdobramentos da genética, as intrigas políticas e as revoluções sociais imanentes.
O tom satírico é o principal termómetro do filme. O «deus falcão» satiriza atitudes humanas quando, na verdade, ele mesmo comete acções tão igualmente inferiores. Assim, podem ser lidas várias ironias à nossa condição actual: as falhas que apontamos nos outros são também as nossas; a artificialidade dissemina-se não só nos meios materiais mas nas próprias relações (letreiros anunciam: «Nada de amor e sexo, procriem geneticamente»); as fraudes políticas continuam as mesmas, apesar da desenvolvida sociedade do fim do século.
Immortel tem uma plasticidade intrigante, numa linha ténue entre ficção e realidade. Os efeitos 3D estão em harmonia com as três dimensões reais e não há nenhuma contaminação entre as duas balizas – define-se bem por que se adoptou o real para determinados cenários e personagens e por que a escolha do virtual para as outras criações. Num roteiro linear, Immortel parece vir do futuro para nos falar, em tom quase caricatural, sobre os nossos tempos de crise – ou sobre a crise dos nossos tempos.






Com a sua pluralidade temática que vai do thriller ao terror, da ficção científica ao imaginário, o Festival Internacional de Cinema do Porto transpõe os limites do território europeu e aterra no Brasil. O JUP/RASCUNHO teve a curiosidade de saber qual é a repercussão do Fantas do outro lado do oceano. Falámos com Rafhael Barbosa (foto), jornalista especializado em cinema, e inauguramos assim uma série de três entrevistas curtas. Seguem-se Maíra Viana, produtora cultural, e o cineasta Leo Falcão, a publicar nos próximos dias. Moram todos em diferentes regiões do Brasil (Maceió, São Paulo e Recife, respectivamente).


