The time that remains, viver na Palestina ocupada
De Elia Suleiman, este filme de 2009 narra o quotidiano dos palestinianos que vivem como uma minoria na sua terra. Expulsos e mal tratados pelos israelitas desde que estes ocuparam aquela terra, aquela parte do mundo enfrenta um conflito que se prolonga à dezenas de anos seguidos. Este filme é uma divertida sátira que ridiculariza toda esta questão da ocupação israelita. A história é a do próprio realizador e da sua família desde que o seu pai é jovem até que Elia é já um homem. No fundo as coisas mantêm-se sempre o mesmo com a única diferença de que as pessoas se vão preocupando cada vez menos com a presença dos soldados na sua terra. Uma situação que se torna inexplicável e incompreensível e que só pode ser transmitida através do ridículo. O filme acaba por ser uma comédia autêntica acerca de um assunto que é dos mais tristes do mundo, mas as pessoas não se estão a rir neste filme, todas estas situações acontecem realmente naquela terra atingindo um ponto de saturação que acaba por deixar as pessoas indiferentes a elas. As cenas quotidianas repetem-se várias vezes e são quase sempre idênticas, a única coisa que muda são as personagens que nelas intervêm ao longo dos anos. Um filme bem conseguido que nos mostra de forma diferente, e pelo lado da comédia, uma situação de terror que se torna cada vez mais insustentável.
Ward No.6
Este é um filme do realizador russo Karen Shakhnazarov. Baseado num conto de Tchekov, o filme retrata o percurso de uma parte da vida de um director de um hospício que ruma progressivamente à loucura. O desespero proveniente do vazio que é deixado pela irrelevância de se fazer seja o que for e a limitada e passageira condição humana leva a personagem principal do filme a um beco sem saída que só pode acabar com o seu internamento.
Filmado quase na sua totalidade no hospício que retrata, o filme consegue extrair e oferecer-nos imagens fortíssimas provenientes da própria condição das pessoas que lá vivem, e dos seus rostos e olhares ora ausentes ora mergulhados numa melancólica tristeza.
A fusão entre géneros, documental e ficcional, está muito bem conseguida e a câmara aparente ter-se deixado ficar por aquele espaço durante algum tempo, os diálogos são deliciosos e inteligentes, a relação estabelecida entre os dois actores principais é de um respeito mútuo incrível, a intenção do filme parece-me despretensiosa deixando-se este arrastar simplesmente a uma velocidade natural. O filme deixa-nos ainda um final livre à interpretação pessoal, mas no meu parecer o seu carácter é fundamentalmente triste. Na minha opinião, um filme muito bom dos melhores que tive a oportunidade de ver neste Fantasporto.
Hierro, uma mãe em busca de um filho
A estória deste filme é nos de alguma forma conhecida e por algum motivo já foi abordada várias vezes, ainda que de muitas maneiras diferentes; uma mãe que perde o seu filho misteriosamente durante uma viagem de barco a uma ilha. Este lugar é misterioso e força-nos à sensação de isolamento e prisão característico das ilhas. Isto torna todo o filme mais pesado, tornando o enredo bem mais psicológico, onde a violência não é gratuita mas antes interior e pessoal a cada espectador. A força do filme reside não tanto na sua estória mas na força com que consegue transportar os sentimentos expressos na tela. Intenso do ponto de vista psicológico, deixa-nos confusos fazendo com que nos incomodemos e queiramos participar na acção no sentido de tentar resolver o que se passa no filme. O clima de drama é denso e pesado, conseguindo o filme deixar-nos especados. Bem filmado e com uma fotografia muito boa e efeitos especiais bem conseguidos, subtis e pouco exagerados o filme é uma interessante experiência visual.
No final o tema acaba por ser tratado de uma forma especial e diferente do que eu já tinha visto. Ainda que nem tudo fique resolvido definitivamente, é nos dada uma explicação que poderia ser talvez evitada pelo menos da forma evidente que é feita. De qualquer maneira o final é constrangedor, a mãe inebriada pelo desejo de encontrar o filho e meio convalescente e sem forças acaba por mergulhar numa enorme alucinação em que vê o seu filho noutra criança que também havia sido dada como desaparecida naquela ilha. Quando pensávamos que ela ia finalmente conseguir levar a criança percebemos que não é aquele o seu filho, deixando o filme, uma sensação de vazio quanto ao seu possível final feliz. O que acaba por ser interessante já que, mesmo não tendo ela encontrado o filho Diego ela não parece completamente abatida, isto já no hospital, existe na postura dela uma atitude que nos permite uma interpretação de um final em aberto.
Um filme bastante interessante, principalmente quanto às imagens e a fotografia que apresenta, que nos consegue prender à cadeira.
First Squad e La Horde
First Squad
Pelas 17 horas do dia 27 de Fevereiro o Fantasporto propõem-nos mais uma animação, representante do género fantástico e de aventura que fazem também parte deste festival, o filme relata uma estória sobre meninos prodígio que são utilizados como armas de guerra em plena segunda guerra mundial. Entre o mundo real e o das trevas, reino dos mortos, este filme faz-nos viajar por espaços distintos, nas suas característica de violência e também de tons na imagem que apresentam. Ás tantas podemos não saber muito bem em qual dos dois nos encontramos. Em termos técnicos não é óptimo, o desenho é o tradicional manga os cenários e as texturas não apresentam nada de novo nem são muito bem trabalhadas. Um filme que poderia não se encontrar na programação que não deixaria saudades, isto, pelo menos, na minha opinião.
La Horde
Pela noite, às 21:15 horas, La Horde foi o filme escolhido. No início os realizadores, Yannick Dahan e Benjamin Rochér, falaram sobre o seu filme e a verdade é que este veio a revelar-se em conformidade com o que eles próprios disseram sobre o seu filme. Realizado na França onde, segundo eles mesmos “é difícil fazer filmes deste género”, é uma experiência algo incomum na perspectiva do terror que apresenta, ainda para mais num país com uma tradição cinematográfica que evoluiu num sentido diferente do género de terror, pelo menos como nós o concebemos de filmes americanos ou asiáticos, isto falando num sentido lacto.
É um bom filme, cómico, provoca gargalhadas na sala, o pessoal fica a pedir por mais, bons efeitos especiais, (vi uma caneca a explodir de uma forma que ainda não havia visto antes), propõe uma mistura de muitas coisas. Diz-se “Filme Noire”, não percebi exactamente de que maneira, acção, terror, zombies, um grupo de membros da mesma família que perdem um outro membro, morto por um grupo de assassinos profissionais e que vão parar a um prédio estranho jurando vingar-se dos que lhes provocaram tamanha dor. O problema é que o mundo transforma-se num bonito dia de domingo solarengo numa noite profunda e cheia de zombies, (isto para aí em dois minutos!). O grupo de familiares tem agora de se juntar ao grupo de assassinos que mataram o seu compadre para saírem dali com vida. Um filme à Fantas…
Wonderful Days e Fausto 5.0, regressos antes do arranque oficial
No dia 25 de Fevereiro o Fantasporto proporcionou mais uma sessão dupla de filmes que fazem parte das projecções que antecedem a abertura oficial do festival. Nesta visionámos os filmes Wonderful Days, de Moon-saeng Kim, e Fausto 5.0, de Álex Ollé e Isidro Ortiz.
Wonderful Days de Moon-saeng Kim
Wonderful Days, inserido na secção “Robótica e Cinema”, é um filme de animação sul-coreano que conta a história de uma cidade futurista que se alimenta e cresce à custa da poluição do mundo. A narrativa do filme não se apresenta fora do comum, a relação entre dois personagens apaixonados que juntos tentarão mudar uma sequência de acontecimentos que se prevêem inevitáveis e destrutivos. Dotado de uma boa composição em termos de textura dos cenários e de movimentos de câmara – que na animação se tornam possíveis de uma forma única e diferente dos formatos tradicionais cinematográficos – o filme encontra-se do ponto de vista técnico muito bem conseguido. É ainda utilizado um cruzamento de técnicas entre o 2D e o 3D. As personagens desenhadas de uma forma tradicional e exemplar da anime asiática, principalmente da japonesa, colocam o filme num género mais ou menos definido. Um filme que retrata algumas das preocupações actuais em relação ao ambiente de uma forma futurista. Algumas das sequências dos acontecimentos estão, na minha opinião, algo mal explicados e acontecem um pouco inesperadamente, mas esse não seria, de qualquer forma e em príncipio, o objectivo do filme. Uma boa experiência visual em termos técnicos e da percepção dos espaços físicos que envolvem toda a aventura.
Fausto 5.0 de Álex Ollé e Isidro Ortiz

Nova leitura do mito de Fausto, o homem que vende a alma ao diabo, em busca da imortalidade. (Foto: Fantasporto)
Fausto 5.0, o segundo filme da noite, revelou-se uma boa surpresa. Uma estória de um doutor cirurgião abatido pelo stress da vida e que deixou de apreciar os momentos mais simples desta encontra um ex-paciente seu, a quem tinha retirado o estômago. À partida teria sido impossível a este paciente viver mas a verdade é que ele persegue o médico durante todo o filme e vai fazer com que este descubra e passe a olhar a vida de outra forma. O médico irá até, pelo menos, até perto do final, desconfiar deste homem que parece estar em todos os sítios de forma imprevista e inexplicável sempre pronto a “realizar os seus desejos”.
O filme apresenta-se bastante rico em pequenos pormenores ao longo de toda a acção sendo muitas vezes esta acompanhada de situações caricatas, divertidas e por vezes bizarras. Um filme surpreendente sobre a descoberta de pontos de vista positivos da vida e que nos deixa um final de certa forma em aberto.
Segundo dia e mais uma sessão dupla
No segundo dia do Fantasporto 2010, o Grande Auditório do Rivoli contou com uma sessão dupla de filmes. Com início pelas 21h30 os filmes apresentados foram Tetsuo 2 – The Cyberpunk, de Shynia Tsukamoto, e Cronos, de Guillermo del Toro.
Tetsuo 2 – The Cyberpunk
O primeiro filme faz parte da secção «Cinema e Robótica» existente este ano no festival. Trata-se de uma experiência inquietante e perturbadora de imagens e sons. Sendo filmado com uma camâra quase sempre a uma velocidade vertiginosa, onde os sons incomodativos acompanham toda a acção, é um filme que apresenta uma tonalidade sempre fora do comum, ora marcado pelos altos contrastes de azul ora por contrastes mais amarelados.
O universo cinematográfico, e também cultural, japonês remete-nos muitas vezes para a relação homem-máquina. E não só o homem está ligado à máquina como o homem é a própria máquina e esta reproduz as suas vontades e desejos mais profundos. Mas existe também o outro lado da questão, a dúvida que assombra os desejos humanos, as questões que colocará o homem-máquina a si próprio num futuro. Não se trata apenas de ter a maior arma de todas, ainda que grande parte do filme viva disso, da troca de tiros com metralhadoras e bazucas gigantes, e ainda bem porque é a isso que o filme se propõe também, trata-se de estar tão intimamente ligado com o desejo destrutivo humanos que a arma se torne uma extensão natural da brutalidade agressiva existente em nós. Isto levanta toda uma série de questões relativamente ao que nos move enquanto criaturas pensantes e que se aniquilam a si próprios. A paisagem citadina é uma constante, a maquinação do sujeito, os cenários sujos e degradados pela destruição bélica.
O filme é ainda uma experiência do ponto de vista da montagem, talvez não só da montagem, da noção de sequências dos planos. Sempre a grande velocidade apresenta imagens aleatórias de texturas, stop-motion e película que parece riscada e que lhe atribui um efeito específico e bizarro. Um bom filme, uma experiência aterradora de um grande realizador do fantástico actual.
Cronos
O segundo filme – Cronos, de Guillermo del Toro – apresenta-nos uma estrutura narrativa mais linear, existe uma história que tem um propósito de apresentar uma série de acontecimentos um pouco mais específicos. Um inventor constrói a máquina da imortalidade, o resto já se adivinha; luta entre dois homens pela máquina com todas as intrigas possíveis pelo meio e ainda a morte e a ressuscitação de um deles.
É um filme incluído no conjunto de «Vencedores Fantasporto» de anos anteriores. Neste caso, ganhou um Grande Prémio, Prémio Melhor Actor e Prémio do Público em 1984. Um filme interessante onde um imaginário um pouco mais adulto reina. É o primeiro filme de Guillermo del Toro, que realizou Hellboy e O Labirinto de Fauno, por exemplo e para ilustrar alguns dos mais conhecidos.







