Crítica: «The Escapist», de Rupert Wyatt
A 19ª Semana dos Realizadores do Fantasporto contou, este ano, com mais uma boa surpresa do velho continente, o refinado The Escapist, do realizador francês, radicado em Londres, Rupert Wyatt.
The Escapist dá-nos a conhecer a história de Frank Perry (Brian Cox), um presidiário, condenado a prisão perpétua, que decide fugir da prisão quando recebe a notícia de que a filha está com graves problemas de toxicodependência. Perry começa então a reunir uma equipa de presidiários, cada um com os seus talentos, e a elaborar um plano de fuga. (A forma como planeiam a evasão é bastante original: a cena passa-se numa mesa de dominó em que as peças representam os obstáculos que o grupo terá de ultrapassar para atingir o seu objectivo.)
Numa primeira fase, o filme vive muito do aspecto visual e sonoro, passando-se um largo tempo quase sem falas das personagens, mas, mesmo assim, com grande dinamismo.
Para além de um final notável, a magia do filme reside no período de tempo em que decorre a fuga, que nos é mostrado, à boa maneira de Lost, durante o decorrer do enredo, não em flashbacks, mas flashfowards. The Escapist ganha ainda muito com as grandes interpretações, não só de Brian Cox, que ganhou o Prémio de Melhor Actor no Fantas, mas também de Joseph Fiennes e Steven Mackintosh.
Para quem gosta de filmes de fugas de prisões, The Escapist é um filme a não perder: introduz um novo conceito neste género – a fuga de consciência.
Animação de «anjos e idiotas» vence Fantas
A película de animação do norte-americano Bill Plympton, Idiots and Angels, arrecadou o Grande Prémio da Secção Oficial de Cinema Fantástico, bem como o Pémio de Melhor Argumento, enquanto Hansel & Gretel, que concorria também ao Prémio de Cinema Fantástico, acabou por perder nesta categoria, arrebatando o Prémio da Secção Oficial Orient Express e o Prémio Especial de Cinema Fantástico.
Ainda dentro da categoria de Cinema Fantástico, o britânico James Watkins colheu o Prémio de Melhor Realização por Eden Lake, distinguido ainda com o galardão para Melhor Actor – Jack O’Connell, que interpreta o líder de um gangue que aterroriza a vida de um jovem casal de namorados.
Por seu turno, Moscow, Belgium, do cineasta belga Christophe Van Rompaey levou para casa o Prémio da 19ª Semana dos Realizadores. O Prémio Especial da Semana dos Realizadores foi para o mais recente trabalho de Wim Wenders, Palermo Shooting, o Prémio da Crítica foi atribuído a Delta, do hungáro Kornel Mundruczo, e The Wrestler, de Darren Aronofsky, obteve o Prémio do Público.
Os realizadores José Fonseca e Costa, Wim Wenders e Paul Schrader serão ainda homenageados, na sessão de encerramento e de entrega de prémios, com o Prémio Carreira.
Mário Dorminsky: «Solução para o Fantas tem que aparecer até ao final de Abril»
Numa altura em que a 29ª edição do Fantasporto caminha para o final, o JUP/RASCUNHO foi falar com um dos fundadores e director do Festival Internacional de Cinema do Porto, Mário Dorminsky.
Há 29 anos atrás o jornal Correio da Manhã trazia na primeira página, em letras grandes, o título: «Sangue invade as ruas do Porto». Desde então, nunca mais o Fantasporto se conseguiu descolar da imagem de cinema fantástico. Hoje, a um ano de completar trinta anos, o Fantas, que se tornou num dos 25 melhores festivais de cinema do mundo, vive dias de incerteza. Se não aparecer uma solução financeira até Abril, a edição 30 pode mesmo não se realizar. Aquela que tem sido a cara do Fantasporto desde sempre, Mário Dorminsky, explica-nos como é organizar um festival que se tornou «num monstro burocrático gigante». Fotos de Manuel Ribeiro
Para o ano o Fantasporto faz 30 anos. Afirmou há dias que a próxima edição pode estar em risco – porquê?
Sim, pode. É a edição 30, como podia ter sido a edição 21, a 22 ou a 14. Todos os anos, no meio cultural, sentimos um problema extremamente complicado, que é saber a capacidade financeira que possa existir pela parte quer do Estado e das autarquias, quer, sobretudo, dos privados. É preciso não esquecer que o Fantasporto talvez seja exemplo único em Portugal, ao ter cerca de 80 por cento de apoio dos privados e apenas 20 por cento de apoio das entidades públicas.
Essa percentagem incomoda-o?
Incomoda. O Estado devia ser responsável pela existência de projectos culturais considerados de interesse e, no caso do Fantasporto, isso é um facto. Ainda agora, o Instituto do Turismo nos atribui o Prémio Nacional do Turismo pela imagem internacional do festival e pela imagem que levamos de Portugal para o estrangeiro. Somos considerados um dos 25 melhores festivais do mundo, pela Variety, como somos considerados o melhor festival de cinema fantástico da Europa, a par do festival de Sietges perto de Barcelona. Outro aspecto que me parece muito importante é o facto de o Fantasporto estar a Norte. Como temos tido governos muito centralizadores, Lisboa e o Vale do Tejo são o centro do país, o resto é província.
Um dos próximos passos será a criação da Fundação Fantasporto. Quais são os principais objectivos e vantagens desse projecto?
Enquanto, neste momento, temos apoio do Estado e o apoio dos privados, ao nível de empresas, com a fundação poderemos ter outro tipo de apoios dos privados, isto é, das pessoas. E há pessoas que têm muito dinheiro e que podem ajudar.
É essa a ideia dos «amigos do Fantas»?
Há os mecenas, que são as empresas, e os patronos, que são os individuais, e depois há os amigos, que são aquelas pessoas que vêm ao Fantas há muito anos. É mais uma questão de simpatia para ter as pessoas perto de nós, como sócias. É curioso ver que já vamos em cerca de duzentos participantes e, neste festival, algumas pessoas já assumiram essa categoria de sócios do Fantasporto.
Passando para a recente edição. Tivemos no Pré-Fantas um ciclo dedicado à arquitectura. Qual é o balanço dessa iniciativa?
Foi fantástico. O ciclo de arquitectura foi uma ideia que substituiu o que fazíamos no Pré-Fantas, que era um conjunto de antestreias. Decidimos apresentar um programa com cabeça, tronco e membros, um programa envolvendo a Ordem dos Arquitectos, sendo co-organizado com o arquitecto Jorge Patrício, que é uma pessoa em quem temos toda a confiança. A escolha dos filmes foi nossa e eles fizeram os textos e os conceitos. Eles desenvolveram um projecto contra a «escola» do Porto, isto é, a escolha dos arquitectos convidados para as conferências, como é o caso do japonês Sou Fujimoto, ou de Marcos Cruz, que tem conceitos completamente diferentes da Escola de Arquitectura do Porto. Quando estávamos a preparar o programa pensamos fazer as conferências no pequeno auditório, para duzentos e muitas pessoas, mas acabamos por optar pelo grande e tivemos cerca de 600 a 700 pessoas em cada uma das conferências, o que é notável.
Na mensagem do programa oficial pode ler-se que a crítica do cinema acabou. Revê-se nessa afirmação?
É verdade. Revejo-me nessa afirmação por uma razão muito simples. Basta pegar em todos os diários nacionais que trazem notícias do Fantasporto e nenhum deles fala dos filmes que passam no festival, só falam do ambiente e das pessoas que estão cá. Onde é que está a crítica? Onde é que está o falar sobre os filmes? Não está. Tirando dois ou três críticos, os outros não gostam de cinema. Dizem sempre mal de tudo e mais alguma coisa. A crítica de cinema a sério terminou, em Portugal, no final dos anos 90. Nessa altura havia um conjunto de pessoas que ainda olhavam para o filme e o enquadravam no país onde era produzido e depois envolviam a sua crítica em torno desses conceitos. Isso não só acontece no cinema, mas também nas artes plásticas, na literatura e em praticamente todas as artes. Ainda há o crítico que diz gosto e não gosto, mas ponto final, acabou. Em termos genéricos, dizer que há um conceito de crítica que permita às pessoas ter uma leitura diferente em relação àquilo que é o produto cultural é uma situação que já não existe. E falo à-vontade porque durante vinte anos fui jornalista da área cultural dos três jornais do Porto.
Imaginando que tinha todos os apoios necessários. A 30ª edição do Fantas vai ter uma programação especial?
Sabemos o que queremos fazer. Agora não vamos anunciar nada porque não tem lógica estar a anunciar aquilo que vamos fazer e, ao mesmo tempo, dizer que pode não haver festival. Por isso, enquanto não tivermos a certeza, não vamos anunciar rigorosamente nada.
Ao fim de quase trinta anos ainda lhe dá gozo organizar o Fantasporto?
Dá muito gozo. A única coisa que acontece é que, cada vez mais, para além dos problemas para obter apoios do Estado, é necessária uma burocracia gigantesca, coisa que não existia no passado. E, ao nível dos privados, estamos a fazer contratos que metem advogados e tudo isto, que era feito com uma certa frescura, transformou-se num monstro burocrático gigante que ocupa as pessoas durante todo o ano. Dizem que sou a cara do festival, mas há mais – a Beatriz Pacheco Pereira e o António Reis. Infelizmente as coisas recaem muito sobre mim, as pessoas querem falar comigo e, nesse aspecto, é complicado porque tenho outras vidas, mas isso já é outra história.
Hoje no Fantasporto
Moscow, Belgium, de Christophe Van Rompaey, às 21h15 no Grande Auditório.
Hoje no Fantasporto
The Wrestler, de Darren Aronofsky, às 23h15 no Grande Auditório.
The Chaiser, de Hong- jin Na, às 21h15 no Grande Auditório
Crítica: «Virus Undead», de Wolf Wolff e Ohmuthi
Os zombies voltaram a invadir o grande auditório do Rivoli com a projecção de Virus Undead, uma película de homenagem ao mestre do suspense da sétima arte, Alfred Hitchcock, e a uma das suas obras mais emblemáticas, The Birds (1963).
A premissa é simples: depois de alguns anos fora, Robert Hansen volta à sua terra natal com mais dois amigos – Patrick, um playboy com cabelo à James Dean, e Eugen, o nerd do grupo – para reclamar a herança do avô, Herbert, que morrera vítima de um estranho ataque de pássaros. Pelo caminho o trio cruza-se numa bomba de gasolina com duas raparigas – Marlene, a ex-namorada de Robert, e a sensual Vanessa – que se juntam ao grupo numa festa na antiga mansão do professor Herbert, situada num lugar ermo e afastada do centro da povoação. Tudo parece correr de feição até que alguns pássaros, portadores de um vírus desconhecido, começam a tombar do céu e a infectar algumas pessoas.
Está assim lançado o cenário para a propagação do vírus e para o sempre esperado e inevitável ataque de zombies em manada. Contudo, o que se segue é mais do mesmo: personagens peculiares, como o polícia ou o bad boy da vila, que se transformam em zombies e teimam em não morrer mesmo depois de alvejados com vários tiros e de atingidos com vários golpes de machado, a inevitável infecção de uma das personagens principais que depois se vira contra os seus amigos ou a luta desproporcional entre a sexy-girl da fita com um grande decote contra vários zombies alucinados.
Ao contrário do que a maioria das sinopses preconizava, o filme, da dupla de realizadores alemã Wolf Wolff/Ohmuthi, não é um filme de ataque de pássaros, mas um típico filme de zombies, na linha de títulos maiores deste género como The Dawn of the Dead, de Zack Snyder, ou 28 Days Later, de Danny Boyle, cineasta este que venceu o Fantas de 95 com Shallow Grave e que, este ano, concorre aos Óscares com Slumdog Millionaire. Todavia, há uma grande diferença entre estes últimos títulos de zombies e Vírus Undead – o orçamento que, neste caso, torna o mais recente trabalho de Wolf Wolff e Ohmuthi num filme de pura série B.
Em suma, apesar de contar com algumas personagens bens construídas (Eugen é sem dúvida aquela que mais se destaca no elenco) e com algumas cenas bem conseguidas que arrancaram alguns sorrisos e aplausos da plateia, Virus Undead parece, à partida, uma carta fora do baralho na Secção Oficial de Cinema Fantástico.
Hoje no Fantasporto
Che: Part One, de Steven Soderbergh, às 20h30 no Grande Auditório.
Hoje no Fantasporto
Breaking and Entering, de Anthony Minghella, às 21:15 no Grande Auditório
Hoje no Fantasporto
Blindness, de Fernando Meirelles, às 21h15 no Grande Auditório.
Immortel, de Enki Bilal, às 23h30 no Grande Auditório


























