
Um dos momentos de maior tensão no filme onde uma família aparentemente feliz acaba por se ver confrontada com uma situação anormal. (Foto:Fantasporto)
A história é nos contada numa Dinamarca de defeitos, onde o mal que consome a alma das pessoas se conjectura numa praga de influências. Ole Bornedal constrói um filme dividido entre a seriedade do que nos conta e a paródia escondida da crueldade extrema que pretende tocar. Colorido mas não muito, porque não é tudo cinzento… seria assim, talvez, o princípio de uma ideia.
Realizador conhecido pela versão original norueguesa de Night watch, e já com um outro filme da sua carreira estreado em Portugal, o épico I am Dina, surge-nos em 2009 com este Deliver us from evil, uma história simples numa localidade pequena. Um casal que regressa à sua cidade para se estabelecer pacificamente nas suas raízes, uma família aparentemente feliz com os seus dois filhos e Alan, um imigrante Bósnio que procura na Dinamarca esquecer um passado sombrio, acolhido pela família para os ajudar na construção do lar. É este o ponto de partida de uma história simples que nos é contada lentamente e com planos íntimos.
O enredo é nos revelado por uma voz-off feminina sem que esta seja uma personagem da história. E na primeira parte do filme são as excelentes paisagens de uma Dinamarca povoada de mar que nos é mostrado. Contudo, desde o início já sabemos que uma mulher vai morrer. Que o irmão do pai de família é uma pessoa sem amparo, e que a mulher morta era casada com um senhor poderoso. São motes introduzidos para o horror dessa história simples que nos guiará até a um final desconcertante. Na segunda parte do filme, o que nos é mostrado são as desumanas acções de um grupo regional desorientado pela morte acidental dessa mulher. O marido da defunta prossegue numa vingança fanática ao mal provocado pela a dor da sua morte. E com ele, a comunidade vem toda a trás. Escolhido o suspeito, o óbvio Alan imigrante, o filme embarca numa sucessão de terríveis comportamentos xenófobos, onde nem se escapa a tentação carnal de uma violação impiedosa. São imagens de puro choque em que o realizador acalma-as com a paródia ao absurdo, seguindo as directrizes de um Robert Rodriguez.
Seria fácil de digerir este filme se ele não se propusesse a uma campanha realista sobre o que as pessoas são mesmo capazes de fazer, seria simples argumentar um final mais feliz, colocando a morte em segundo plano, ou então esconder a deseducação deste vasto mundo de pessoas que efectivamente não se escapam do inferno, seria bonito distanciarmos da realidade deste filme. Mas o realizador não deixa. Um ponto ganho pela emoção, um ponto menor para a desorientada versão caricata da forma como a personagem principal é obrigada a defender a sua própria personagem.



SImplesmente o melhor filme do festival.