De Robótica a Espíritos
A sessão dupla do terceiro dia do Fantasporto foi marcada por dois temas aparentemente divergente (virtualidade e transcendente espiritual), mas que apresentavam abordagens semelhantes. O real e o virtual ou sobrenatural, misturam-se e condicionam as acções e sentimentos humanos.
Tecknolust – Lynn Hershman-Leeson
O primeiro filme, retratou a história de uma investigadora biomédica, Rosetta Stone, que clona os seus genes e cria três mulheres à sua imagem e semelhança, no entanto essas criaturas possuem características distintas. Uma é sedutora e fatal, outra ambiciosa e com uma curiosidade aguçada, a terceira é conformada e obediente. No entanto, todas possuem seus próprios medos, desejos e anseios, além de serem frágeis aos germes das cidades, só podendo equilibrar seu organismo com esperma masculino. Aí está o mote do filme, que de maneira um pouco caricata, tenta difundir a ideia de que o homem contamina e é contaminado, seja pela necessidade de aperfeiçoamento e de não-aceitação da sua própria condição, seja por se permitir contaminar pelo vírus da modernidade, que torna cada vez as máquinas mais humanas e os homens mais robôs. Psicologicamente, o filme retrata o medo, o anormal e o contagioso que existe nas relações sociais.
A Tale of Two Sisters – Ji-woon Kim
O Segundo filme da noite, também tem como protagonista uma mulher, a jovem sul coreana, Su-mi, que ao retornar para sua casa após um tratamento psiquiátrico, se depara com o medo do conhecido e desconhecido que assombra as lembranças ocultas de sua família. O realizador Ji-woon, consegue um drama psicológico capaz de associar montagem, trilha, actuação e roteiro em uma trama envolvente, além de uma edição inteligente e assustadora. O clichê fica a cargo do mote final, onde em forma de flashs é desvendado o mistério da tormenta da jovem, com relação à morte da irmã. Fica a cargo do público descobrir o que é real ou não na história. A fotografia é outro factor importante, um jogo de arte que permite ao longa um ar matinal e a casa onde o filme se passa, consegue ser ao mesmo tempo linda e sinistra.
De forma excepcional o director coreano, mostra como as relações interfamiliares doentias, podem perturbar gerações distintas de uma mesma descendência. Muito valorizado no oriente, o tema da transcendentalidade permite fazer associações com o real, o imagético e o sobrenatural, possibilitando que atitudes sociais tidas como doentias e até mesmo inexplicáveis, tenham algum sentido e explicação psico-emocional. A ficção que ganhou o prémio de melhor realizador e actriz no Fantasporto de 2004, reúne em um mesmo ambiente familiar os descontroles humanos, associados aos sentimentos de inveja, medo, arrogância, impotência, timidez, culpa e ironia, que apoiados no transcendente dão sentido à trama psicológica do filme.




