Sede de sangue e sala cheia em “Thirst” de Chan-wook Park
Numa altura em que já começamos a estar todos cheios de filmes, livros e sabe-se lá mais o quê sobre vampiros estes podia ser só mais um filme de vampiros, não fosse mais uma vez a inspiração genial de Chan-wool Park. Filme com presença no Festival de Cannes e com cartaz censurado na Coreia do Sul esgotou ainda durante a tarde o Grande Auditório do Rivoli.
Um padre em busca da solução última de salvação das almas que se submete a uma experiência clinica, ao estilo de um São Francisco de Assis dos tempos modernos, onde acaba por se submeter a uma transfusão de sangue para lhe salvar a vida. É dado como morto e ressuscita com uma incontrolável sede de sangue humano, uma enorme força física e vigor sexual, a segunda aquisição incompatível com a batina que acabará por largar. Park volta à sátira sobre os valores e sobre a condição da vida humana. Uma reflexão sobre sentimentos e sobre as diferentes formas de amor e ódio.
Fotografia de excelente qualidade, pormenores, trabalho de actores e algum surrealismo e muita expresão e claro a marca de imagem do realizador nos contrastes de sangue com ambientes alvos onde castidade e vida se confrontam com sexo e morte. O que resta: corpos no seu processo físico de destruição que, no entanto, não apresentam qualquer perspectiva de fim. Por aí o final do filme – que não vou revelar, não deixa de inferir, vai romper a noção de destruição infinita, ao mesmo tempo que revela um projeto que, por muitas vezes, acaba por se esquecer do todo.
Abertura Oficial do Fantasporto 2010, com Solomon Kane
Produzido por Samuel Hadida, um dos grandes produtores do cinema europeu e realizado por Michael J. Basset, Solomon Kane é a última incursão do cinema no universo literário de Robert E. Howard. Depois de nos anos 80 o cinema se ter apropriado das aventuras épicas de sword and sorcery com os filmes Conan, Red Sonja e Krull, este sub-género do fantástico hibernou durante vinte anos. Agora está de regresso com uma panóplia dos efeitos especiais espectaculares.
Solomon Kane é um herói solitário, soldado que vive na Inglaterra do século XVI, corroído pelo remorso, afastado do mundo e dos homens, a pagar a penitência pelos seus pecados. Confrontado com o poder do senhor das trevas e dos seus servos que ameaçam escravizar e dominar Inglaterra, quebra a sua promessa de ermita e embarca numa cruzada de redenção e vingança.
No elenco reencontramos Max Von Sydow, prémio carreira Fantasporto 2008, como rei, subjugado pelas forças do mal.
Trailer oficial do filme
Wonderful Days e Fausto 5.0, regressos antes do arranque oficial
No dia 25 de Fevereiro o Fantasporto proporcionou mais uma sessão dupla de filmes que fazem parte das projecções que antecedem a abertura oficial do festival. Nesta visionámos os filmes Wonderful Days, de Moon-saeng Kim, e Fausto 5.0, de Álex Ollé e Isidro Ortiz.
Wonderful Days de Moon-saeng Kim
Wonderful Days, inserido na secção “Robótica e Cinema”, é um filme de animação sul-coreano que conta a história de uma cidade futurista que se alimenta e cresce à custa da poluição do mundo. A narrativa do filme não se apresenta fora do comum, a relação entre dois personagens apaixonados que juntos tentarão mudar uma sequência de acontecimentos que se prevêem inevitáveis e destrutivos. Dotado de uma boa composição em termos de textura dos cenários e de movimentos de câmara – que na animação se tornam possíveis de uma forma única e diferente dos formatos tradicionais cinematográficos – o filme encontra-se do ponto de vista técnico muito bem conseguido. É ainda utilizado um cruzamento de técnicas entre o 2D e o 3D. As personagens desenhadas de uma forma tradicional e exemplar da anime asiática, principalmente da japonesa, colocam o filme num género mais ou menos definido. Um filme que retrata algumas das preocupações actuais em relação ao ambiente de uma forma futurista. Algumas das sequências dos acontecimentos estão, na minha opinião, algo mal explicados e acontecem um pouco inesperadamente, mas esse não seria, de qualquer forma e em príncipio, o objectivo do filme. Uma boa experiência visual em termos técnicos e da percepção dos espaços físicos que envolvem toda a aventura.
Fausto 5.0 de Álex Ollé e Isidro Ortiz

Nova leitura do mito de Fausto, o homem que vende a alma ao diabo, em busca da imortalidade. (Foto: Fantasporto)
Fausto 5.0, o segundo filme da noite, revelou-se uma boa surpresa. Uma estória de um doutor cirurgião abatido pelo stress da vida e que deixou de apreciar os momentos mais simples desta encontra um ex-paciente seu, a quem tinha retirado o estômago. À partida teria sido impossível a este paciente viver mas a verdade é que ele persegue o médico durante todo o filme e vai fazer com que este descubra e passe a olhar a vida de outra forma. O médico irá até, pelo menos, até perto do final, desconfiar deste homem que parece estar em todos os sítios de forma imprevista e inexplicável sempre pronto a “realizar os seus desejos”.
O filme apresenta-se bastante rico em pequenos pormenores ao longo de toda a acção sendo muitas vezes esta acompanhada de situações caricatas, divertidas e por vezes bizarras. Um filme surpreendente sobre a descoberta de pontos de vista positivos da vida e que nos deixa um final de certa forma em aberto.
De Robótica a Espíritos
A sessão dupla do terceiro dia do Fantasporto foi marcada por dois temas aparentemente divergente (virtualidade e transcendente espiritual), mas que apresentavam abordagens semelhantes. O real e o virtual ou sobrenatural, misturam-se e condicionam as acções e sentimentos humanos.
Tecknolust – Lynn Hershman-Leeson
O primeiro filme, retratou a história de uma investigadora biomédica, Rosetta Stone, que clona os seus genes e cria três mulheres à sua imagem e semelhança, no entanto essas criaturas possuem características distintas. Uma é sedutora e fatal, outra ambiciosa e com uma curiosidade aguçada, a terceira é conformada e obediente. No entanto, todas possuem seus próprios medos, desejos e anseios, além de serem frágeis aos germes das cidades, só podendo equilibrar seu organismo com esperma masculino. Aí está o mote do filme, que de maneira um pouco caricata, tenta difundir a ideia de que o homem contamina e é contaminado, seja pela necessidade de aperfeiçoamento e de não-aceitação da sua própria condição, seja por se permitir contaminar pelo vírus da modernidade, que torna cada vez as máquinas mais humanas e os homens mais robôs. Psicologicamente, o filme retrata o medo, o anormal e o contagioso que existe nas relações sociais.
A Tale of Two Sisters – Ji-woon Kim
O Segundo filme da noite, também tem como protagonista uma mulher, a jovem sul coreana, Su-mi, que ao retornar para sua casa após um tratamento psiquiátrico, se depara com o medo do conhecido e desconhecido que assombra as lembranças ocultas de sua família. O realizador Ji-woon, consegue um drama psicológico capaz de associar montagem, trilha, actuação e roteiro em uma trama envolvente, além de uma edição inteligente e assustadora. O clichê fica a cargo do mote final, onde em forma de flashs é desvendado o mistério da tormenta da jovem, com relação à morte da irmã. Fica a cargo do público descobrir o que é real ou não na história. A fotografia é outro factor importante, um jogo de arte que permite ao longa um ar matinal e a casa onde o filme se passa, consegue ser ao mesmo tempo linda e sinistra.
De forma excepcional o director coreano, mostra como as relações interfamiliares doentias, podem perturbar gerações distintas de uma mesma descendência. Muito valorizado no oriente, o tema da transcendentalidade permite fazer associações com o real, o imagético e o sobrenatural, possibilitando que atitudes sociais tidas como doentias e até mesmo inexplicáveis, tenham algum sentido e explicação psico-emocional. A ficção que ganhou o prémio de melhor realizador e actriz no Fantasporto de 2004, reúne em um mesmo ambiente familiar os descontroles humanos, associados aos sentimentos de inveja, medo, arrogância, impotência, timidez, culpa e ironia, que apoiados no transcendente dão sentido à trama psicológica do filme.
Segundo dia e mais uma sessão dupla
No segundo dia do Fantasporto 2010, o Grande Auditório do Rivoli contou com uma sessão dupla de filmes. Com início pelas 21h30 os filmes apresentados foram Tetsuo 2 – The Cyberpunk, de Shynia Tsukamoto, e Cronos, de Guillermo del Toro.
Tetsuo 2 – The Cyberpunk
O primeiro filme faz parte da secção «Cinema e Robótica» existente este ano no festival. Trata-se de uma experiência inquietante e perturbadora de imagens e sons. Sendo filmado com uma camâra quase sempre a uma velocidade vertiginosa, onde os sons incomodativos acompanham toda a acção, é um filme que apresenta uma tonalidade sempre fora do comum, ora marcado pelos altos contrastes de azul ora por contrastes mais amarelados.
O universo cinematográfico, e também cultural, japonês remete-nos muitas vezes para a relação homem-máquina. E não só o homem está ligado à máquina como o homem é a própria máquina e esta reproduz as suas vontades e desejos mais profundos. Mas existe também o outro lado da questão, a dúvida que assombra os desejos humanos, as questões que colocará o homem-máquina a si próprio num futuro. Não se trata apenas de ter a maior arma de todas, ainda que grande parte do filme viva disso, da troca de tiros com metralhadoras e bazucas gigantes, e ainda bem porque é a isso que o filme se propõe também, trata-se de estar tão intimamente ligado com o desejo destrutivo humanos que a arma se torne uma extensão natural da brutalidade agressiva existente em nós. Isto levanta toda uma série de questões relativamente ao que nos move enquanto criaturas pensantes e que se aniquilam a si próprios. A paisagem citadina é uma constante, a maquinação do sujeito, os cenários sujos e degradados pela destruição bélica.
O filme é ainda uma experiência do ponto de vista da montagem, talvez não só da montagem, da noção de sequências dos planos. Sempre a grande velocidade apresenta imagens aleatórias de texturas, stop-motion e película que parece riscada e que lhe atribui um efeito específico e bizarro. Um bom filme, uma experiência aterradora de um grande realizador do fantástico actual.
Cronos
O segundo filme – Cronos, de Guillermo del Toro – apresenta-nos uma estrutura narrativa mais linear, existe uma história que tem um propósito de apresentar uma série de acontecimentos um pouco mais específicos. Um inventor constrói a máquina da imortalidade, o resto já se adivinha; luta entre dois homens pela máquina com todas as intrigas possíveis pelo meio e ainda a morte e a ressuscitação de um deles.
É um filme incluído no conjunto de «Vencedores Fantasporto» de anos anteriores. Neste caso, ganhou um Grande Prémio, Prémio Melhor Actor e Prémio do Público em 1984. Um filme interessante onde um imaginário um pouco mais adulto reina. É o primeiro filme de Guillermo del Toro, que realizou Hellboy e O Labirinto de Fauno, por exemplo e para ilustrar alguns dos mais conhecidos.
Já rodam filmes no Fantasporto 2010

Ontem as pessoas ainda faziam o reconhecimento do local e do programa, no Rivoli. (Foto: Pedro Ferreira)
Abriu ontem a 30ª edição do Fantasporto, apesar de a abertura oficial só estar prevista para sexta-feira. Este pré-Fantas é já algo a que nos temos habituado nas últimas edições e serve para rever alguns dos filmes que por lá já passaram. Ontem na abertura dois clássicos do espírito Fantasporto, no Grande Auditório, Re-Animator e Braindead em sessão dupla e no Pequeno Auditório o primeiro filme da série, que vai passar durante toda a semana, de Robocop e o filme Idiots and Angels do Bill Plympton, vencedor do Grande Prémio Fantasporto em 2009.
Para hoje, terça-feira, os destaques da noite vão para a possibilidade de ver de novo, no Pequeno Auditório, Frostbitten, vencedor do Grande Prémio Fantasporto em 2006 e no Grande Auditório, Cronos de Guillermo del Toro, um filme vencedor de vários prémios do Fantasporto em 1984, como o Grande Prémio e Melhor Actor entre outros.
Reabrimos o estaminé
O RASCUNHO e o JUP decidiram reeditar a parceria de cobertura especial do Fantasporto. Para o fazer, reabilitamos este blogue. A novidade seguirá calçada pelas histórias, as críticas, as fotografias e tudo o resto que trouxemos, no ano passado, do Festival Internacional de Cinema do Porto.
Em 2010, voltando a ocupar o Rivoli de 26 de Fevereiro a 6 de Março, o Fantasporto comemora 30 anos. A idade é notável e, para a tratarmos com toda a sagacidade possível, contamos convosco, os nossos leitores, para que façam deste um espaço de debate, de perspectiva e de enriquecimento. É também ao que nos propomos.






























