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Malu Mader divulga estreia como realizadora no Fantasporto

A actriz Malu Mader esteve no Fantasporto e fez questão de divulgar o primeiro filme em que actuou como realizadora, apesar de não o exibir no festival. Contratempo foi lançado no segundo semestre do ano passado e já participou de eventos como a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O documentário vem conquistando críticas positivas, para surpresa da actriz, que confessou ter pensado que seria condenada pela crítica por ser uma «actriz que se meteu a ser realizadora», como afirmou de maneira descontraída. De grande simpatia e firmeza na fala, Malu Mader revela as novas directrizes para a sua carreira e a sua relação com o seu próprio trabalho e com os media.

Malu Mader com Tony Bellotto (Foto: José Ferreira)

Malu Mader com Tony Bellotto (Foto: José Ferreira)

O que pode esperar o público de Contratempo?
É um filme sobre jovens de comunidades carentes do Rio de Janeiro, que pelo desejo de mudar o destino foram atrás de um projecto de música erudita e foram seleccionados para esse projecto, o Villa-Lobinhos. Nem sempre essas mudanças nas vidas deles aconteceram da maneira prevista, mas muitas vezes sim, porque eles desejaram mudar esse destino. Por acaso o filme tem emocionado bastante, tem feito rir, tem feito chorar… Não foi a intenção passar mensagem nenhuma, nem moral, nem final, mas eu tenho achado que ele merece ser visto por muitos jovens de escolas, de favelas.

Então foi um filme prazenteiro de fazer…
O filme ficou com um sentido muito afirmativo, muito positivo, os meninos são muito positivos, eles têm bons sentimentos, eles têm muita vontade. Acho que quando você deseja realmente alguma coisa e sonha isso tem que ser visto por outros jovens que estão ali, em terrenos escorregadios como os da favela, entendeu? Acho que, de alguma forma, é importante que outros jovens que estão perigando ali vejam. Não foi feito com essa intenção, mas agora que está pronto acho que merece ser visto por outros jovens que estão nessa mesma situação.

Porquê sair de frente das câmaras para dirigir este documentário?
Já tinha vontade de dirigir há bastante tempo, mas achava que ia dirigir filmes de ficção, dirigir actores, criar histórias… Porque dentro da minha cabeça há milhões de personagens e histórias que tenho vontade que tomem forma. Só que nem sempre você é que escolhe as coisas, as coisas te escolhem também. O documentário aconteceu antes do filme de ficção e, agora que o consegui realizar, fiquei feliz com ele, senti-me realizada, fiquei muito estimulada. Estou tentando escrever um filme de ficção, que já é um segundo passo, e estou muito apaixonada com isso. Fica todo mundo perguntando se eu vou querer deixar de ser actriz, mas a profissão de actriz é uma paixão também.

Malu Mader e Theodoro Fontes, produtor de cinema (Foto: José Ferreira)

Malu Mader e Theodoro Fontes, produtor de cinema (Foto: José Ferreira)

Foi difícil angariar fundos para o documentário?
Era um orçamento muito barato. Agora quero ver como será com o filme de ficção, que é obviamente muito mais caro, muito mais complexo, por isso que acabou acontecendo o documentário antes também. Foi mais viável.

Não ficou com receio da crítica? Afinal, pelo próprio tema do documentário, poder-se-ia interpretar como autopromoção, aquele estereótipo da «actriz que ajuda jovens carentes».
Claro que não sou um tipo de pessoa que faz um filme só para mim, claro que você quer que todo mundo goste. A princípio, o que mais queria é que eu ficasse satisfeita e que eles gostassem de se ver na tela. E aí, num segundo momento, claro, quanto mais a crítica gostasse, as pessoas gostassem… Mas acho que há críticas e críticas e eu estava aberta até para críticas ruins. Um filme existe com o olhar do outro também.

Mas o facto de ser uma actriz famosa interfere, claramente, nas críticas.
Por mais que ficasse triste, estava disposta a ouvir o que as pessoas tinham a dizer, de ruim e de bom. Mesmo que a crítica fosse destrutiva, estava preparada. Mas queria ouvir críticas que me ajudassem a crescer como cineasta, eu estava muito disposta a ouvir pessoas que me falassem: «olha, isso e isso aqui não estava bom e tal». Queria aprender, estava me sentindo uma iniciante, como estou me sentindo ainda assim, sabe? Não é porque já tenho um nome como actriz… Estou me sentindo como dando um primeiro passo como realizadora, estou me sentindo como se tivesse vinte e poucos anos…

Malu Mader (Foto: José Ferreira)

Malu Mader (Foto: José Ferreira)

Não te incomoda o facto de aparecer mais nos media do que a sua obra?
A indústria de celebridades é uma coisa muito forte. Talento é uma coisa que sempre se impõe, quando você tem um mega talento, tudo isso é mais forte que tudo. Se você vai construindo, trabalhando e não vai aceitando esse jogo, quando você fica no meio-termo… Eventualmente você tem que ceder, tem que fazer uma entrevista aqui, ir a um evento ali… Mas se não fica vivendo de um jogo fútil eterno, vai lá, senta lá, escreve todo dia, não fica só indo a festas o tempo inteiro, você constrói o seu trabalho. É que as pessoas acham que para fazer um trabalho precisam ir a festas várias vezes por semana, e não é nada disso. O que faz de um artista ou de um actor ou de um cineasta ou de um realizador ou o que quer que seja alguém é o trabalho dele.

É por isso que tem uma carreira sólida, com mais de duas décadas…
Não adianta a pessoa ter a ilusão de que ir a três festas por semana e aparecer na revista vai fazer dele alguém. Pode fazer dele alguém naquela semana; passou aquele tempinho ali, se ele não tiver alguma coisa a oferecer de facto… Ou não, posso estar enganada, sei lá… Posso estar falando besteira. Hoje em dia a pessoa emagrece quatro quilos e sai na capa: «emagreci quatro quilos». Semana que vem: «separei do meu marido». Daqui a cinco semanas: «ganhei um carro do meu novo namorado». Pode ser, quem sabe… Claro, a pessoa se sustenta por aí uns dez anos nos media, mas alguma hora… Depende da tua vontade também, do que você almeja para você. Se você quer construir alguma coisa da qual você vai se orgulhar ou da qual você quer que o seu filho se orgulhe ou se busca alguma realização, aí é mais difícil, aí tem que trabalhar. Tem que ser algo que te dê felicidade de verdade. Não só material, mas que te preencha.

As telenovelas brasileiras fazem muito sucesso em Portugal. É um país que acolhe com carinho muitos artistas brasileiros…
Portugal é uma delícia… Desde a comida, que adoro, até às pessoas… O carinho, os lugares bonitos, a sensação de estar em casa. Pretendo vir a algum festival aqui em Portugal este ano com o meu documentário.

Posted in Entrevista.

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One Response

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  1. J Boss says

    Quero ver este filme!



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