Especial Rascunho e JUP

Escritor de «Bellini e o Demónio» considera adaptação ao cinema «muito positiva»

O escritor Tony Bellotto, também músico dos Titãs, esteve presente no primeiro fim-de-semana do Fantasporto para divulgar o seu livro Bellini e o Demónio (Companhia das Letras), que em Portugal foi lançado com o título de Um Caso com o Demónio. Com uma carreira iniciada na década de 1980 e casado com uma das mais famosas actrizes brasileiras, Malu Mäder, Bellotto fala em entrevista ao JUP/RASCUNHO sobre a adaptação do livro ao cinema , o preconceito que sofre por ser um músico que também é escritor, a crítica de arte e o intercâmbio cultural.

Tony Bellotto no Fantasporto (Foto: José Ferreira)

Tony Bellotto no Fantasporto (Foto: José Ferreira)

Quem é Bellini?
No começo ele nem era um detective, eu pensei num alter-ego meu, alguém que reflectisse um pouco da minha visão do mundo. As primeiras histórias dele eu nunca publiquei, eram fragmentos de um adolescente no interior de São Paulo, como eu fui. Aí abandonei esse projecto e quando fui escrever o meu primeiro romance, Bellini e a Esfinge, em 1994, estava lendo muita literatura policial e quis fazer um livro de literatura policial. Ao criar o meu livro, criei esse detective, que é um homem desiludido, fracassado, que tem umas tiradas irónicas e reflexões um pouco desiludidas sobre o mundo.

Tony Bellotto com a esposa, Malu Mader, e Theodoro Fontes, produtor do filme

Bellotto com a esposa, Malu Mäder, e Theodoro Fontes, produtor do filme (Foto: José Ferreira)

Não teve receio quanto à adaptação, já que o cinema exige uma outra linguagem?
Já aprendi com o tempo que toda adaptação para o cinema tem que mudar a essência do livro. São raros os livros que são transportados literalmente para o cinema e que você fica satisfeito com o resultado. Geralmente, nos frustramos um pouco quando vemos no cinema a adaptação de um livro de que gostamos. Como é uma linguagem diferente, o livro deve mesmo servir só como base para o filme ser feito, que é o que acontece aqui; Bellini e o Demónio é um filme totalmente diferente do livro. Por exemplo: uma das coisas que acho mais legais do livro, que é o monólogo interior de Bellini, é impossível de transpor. Não é que fique apreensivo, mas quando vendo os direitos de uma obra já aceito que vai ser diferente, e quando se aceita não se sofre tanto.

Mas o resultado da adaptação do filme foi positivo?
Foi muito positivo. É um filme interessante, mas diferente do livro porque ficou um filme mais fantástico. No meu livro, o livro perdido é um romance policial do Dashiell Hammett que nunca foi publicado, e no filme é o livro do Aleister Crowley, ligado à magia negra. Eu fico muito satisfeito porque é um filme muito bem realizado, muito legal. Agora, a pessoa vendo o filme não quer dizer que leu o livro, pois são emoções diferentes.

Não se teve aquele receio de cair no lugar comum e nos estereótipos?
Não participei da feitura do filme. Eles correram esse risco, é um risco que se corre mesmo. Eu, de certa maneira, também corri esse risco dos estereótipos da literatura policial, o tempo todo você tem que tentar fugir do cliché para não cair no óbvio. Acho que o filme conseguiu fugir desse óbvio porque fica muito aberto, até o final brinca um pouco com essa ideia da literatura de Jorge Luis Borges, da pessoa encontrando a si mesma e a ideia do demónio como um aspecto dentro de você mesmo.

Tony Bellotto em entrevista ao JUP/RASCUNHO (Foto: Caio Meirelles)

Tony Bellotto em entrevista ao JUP/RASCUNHO (Foto: Caio Meirelles)

Em algumas entrevistas, você afirmou que Bellini tem um teor sarcástico e existencialista. Os personagens são uma parte dos seus autores ou é algo completamente distinto, obra e autor?
Todo personagem tem um pouco do autor. Todo personagem que eu invente, por mais que eu tente fazê-lo diferente do que eu sou, sempre ele parte de mim e, inevitavelmente, tem aspectos meus. Agora esse sarcasmo do Bellini, que é mais claro no livro, essa ironia e desilusão dele fazem parte da ideia que eu tenho do mundo. Não sou tão irónico nem sarcástico nem desiludido, mas coloco nele toda uma ampliação dessa minha desilusão.

Hoje o artista torna-se mais importante do que a obra?

Infelizmente, sim [risos]. Essa cultura da celebridade é uma coisa que vem acontecendo há muito tempo, já começou no século passado. Faz parte do nosso tempo, né? Existe o artista e existe a obra e de certa forma estão um pouco desatrelados. Às vezes a obra é boa e você nem sabe quem é o artista e às vezes você nem sabe qual é a obra e o artista é uma celebridade. Faz parte dessa cultura do nosso tempo, e estou envolvido nela, não dá para negar.  Sou escritor e ao mesmo tempo sou guitarrista de uma banda… Não sei até que ponto as pessoas conseguem avaliar uma obra minha sem levar em conta o artista. Eu acho que seria mais interessante que a gente desse mais atenção para a obra, mas os artistas aparecem muito e acabam dificultando. Gosto muito e invejo esses escritores que não dão entrevistas, que não aparecem, é uma forma de preservar a obra. Mas isso seria impossível pelo facto de eu ser um guitarrista de uma banda que já está dentro de um sistema mediático, é uma alternativa que eu não tenho.

Bellotto com a mãe, a professora universitária Heloísa Liberalli Bellotto (Foto: Manaíra Aires)

Bellotto com a mãe, a professora universitária Heloísa Liberalli Bellotto (Foto: Manaíra Aires)

A crítica constrói ou destrói?
As duas coisas. Cada vez se tem menos o trabalho do crítico de fazer uma análise sobre a obra. A gente tem muita informação sobre a obra. Na crítica no Brasil, às vezes eu sofro de um preconceito pelo facto de ser um músico escrevendo, às vezes as pessoas duvidam que um guitarrista de rock possa escrever um livro. Mas eu não me pauto muito na crítica, uma obra requer mais tempo. O que uma obra significa é o tempo que responde, com os leitores e tal. A crítica é importante, mas não tem força para construir ou destruir, é sempre a obra que se faz, para o bem e para o mal.

Como enxerga o Brasil nesse intercâmbio cultural, proporcionado por eventos como o Fantasporto?
Acho o Brasil muito autocentrado. Tirando a produção americana, principalmente na música, no Brasil é difícil fazer sucesso de verdade música latina ou de Portugal ou da Espanha ou de outros países da América do Sul e da América Central. Acho que temos um certo preconceito no Brasil contra músicas que não sejam, por exemplo, cantadas em Inglês e em Português. A cultura brasileira é um pouco fechada nesse sentido, a gente não tem muito conhecimento do que acontece fora do nosso país, como esse festival, por exemplo, que tem o foco num tipo de cinema específico.

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