Hoje no Fantasporto
The Wrestler, de Darren Aronofsky, às 23h15 no Grande Auditório.
The Chaiser, de Hong- jin Na, às 21h15 no Grande Auditório
Crítica: «Next Floor», de Denis Villeneuve
Next Floor, realizada pelo canadiano Denis Villeneuve, é uma estória, que, embora pequena, é arrepiante, não pela fantasia, mas antes pelo contrário, pela forma como é tão próxima à nossa sociedade, de consumo, que procura ser o que é, o que não é, e tudo que está entre estes dois.
Durante um jantar, um digno banquete, que nos remete aos The Cook, The Thiefe, His Wife and Her Lover, de Peter Greenaway, as personagens embarricam-se com comida e mais comida, por gosto, por jeito ou por vergonha, enfardam sem que se sintam mal dispostos, numa atitude de consolo. Este é um filme que esteticamente é muito bonito e bem construído, os efeitos são muito bem disfarçados e as personagens minimalistas e muito bem caracterizadas. A realização é muito cuidada, muito bem apresentada, fotograficamente muito bem tratada a luz. O argumento leva-nos para uma reflexão social.
Estes seres a comer desta forma são equiparáveis à nossa sociedade onde procuramos absorver tudo, quanto mais melhor, sem olharmos para a qualidade. No filme é-nos apresentado esta questão com cérebros de animais, a serem devorados sem limites. A queda entre piso poderá ser a nossa descensão social, pela força que vamos perdendo, pela falta de confiança. E quando somos confrontados com uma mulher a chorar, pensamos que vai parar, mas não, para que não seja descriminada, pelos restantes, come as lágrimas, junto com os miúdos, dos veados que chegam inteiros à mesa. A figura mais importante que nos aparece, para justificar a evolução, é um senhor sósia do Charles Darwin.
Uma curta que poderá sair vencedora deste festival.
Crítica: «Virus Undead», de Wolf Wolff e Ohmuthi
Os zombies voltaram a invadir o grande auditório do Rivoli com a projecção de Virus Undead, uma película de homenagem ao mestre do suspense da sétima arte, Alfred Hitchcock, e a uma das suas obras mais emblemáticas, The Birds (1963).
A premissa é simples: depois de alguns anos fora, Robert Hansen volta à sua terra natal com mais dois amigos – Patrick, um playboy com cabelo à James Dean, e Eugen, o nerd do grupo – para reclamar a herança do avô, Herbert, que morrera vítima de um estranho ataque de pássaros. Pelo caminho o trio cruza-se numa bomba de gasolina com duas raparigas – Marlene, a ex-namorada de Robert, e a sensual Vanessa – que se juntam ao grupo numa festa na antiga mansão do professor Herbert, situada num lugar ermo e afastada do centro da povoação. Tudo parece correr de feição até que alguns pássaros, portadores de um vírus desconhecido, começam a tombar do céu e a infectar algumas pessoas.
Está assim lançado o cenário para a propagação do vírus e para o sempre esperado e inevitável ataque de zombies em manada. Contudo, o que se segue é mais do mesmo: personagens peculiares, como o polícia ou o bad boy da vila, que se transformam em zombies e teimam em não morrer mesmo depois de alvejados com vários tiros e de atingidos com vários golpes de machado, a inevitável infecção de uma das personagens principais que depois se vira contra os seus amigos ou a luta desproporcional entre a sexy-girl da fita com um grande decote contra vários zombies alucinados.
Ao contrário do que a maioria das sinopses preconizava, o filme, da dupla de realizadores alemã Wolf Wolff/Ohmuthi, não é um filme de ataque de pássaros, mas um típico filme de zombies, na linha de títulos maiores deste género como The Dawn of the Dead, de Zack Snyder, ou 28 Days Later, de Danny Boyle, cineasta este que venceu o Fantas de 95 com Shallow Grave e que, este ano, concorre aos Óscares com Slumdog Millionaire. Todavia, há uma grande diferença entre estes últimos títulos de zombies e Vírus Undead – o orçamento que, neste caso, torna o mais recente trabalho de Wolf Wolff e Ohmuthi num filme de pura série B.
Em suma, apesar de contar com algumas personagens bens construídas (Eugen é sem dúvida aquela que mais se destaca no elenco) e com algumas cenas bem conseguidas que arrancaram alguns sorrisos e aplausos da plateia, Virus Undead parece, à partida, uma carta fora do baralho na Secção Oficial de Cinema Fantástico.
Crítica: «Vanaja», de Rajnesh Domalpalli
Pensado como trabalho de conclusão de curso na Universidade de Columbia do realizador Rajnesh Domalpalli, Vanaja é a história de uma menina com o mesmo nome a entrar na adolescência.

A descobrir o mundo e o seu corpo, vive numa situação financeira difícil. Carregando a responsabilidade de sustentar o seu pai viúvo, pescador e alcoólico, cedo abandona a escola e vai trabalhar para uma senhoria. Encantada com as danças Kuchipudi e com a esperteza de uma menina adulta, consegue convencer a sua senhoria a ensinar-lhe música e a dançar. Quando tudo parecia correr bem, é com a entrada do filho da senhoria que tudo se complica. Violada e grávida fica à mercê da sua própria sorte, contrariando o que lhe tinha sido dito numa leitura de mão. Astuta, tenta ir recuperando a parte da sua vida que a faz mais feliz – a dança – mas as contrariedades não param e aprisionada pela sua situação social vê a sua tragédia pessoal culminar na morte do pai.
Este filme é um excelente retrato de uma Índia rural e do seu sistema de castas. O argumento lembra a escrita de Dickens. A pobre menina acolhida pela família rica é também um grampo de ficção vitoriana. Mas Vanaja vive sempre no momento, crescendo a partir de uma história simples para o complexo, proporciona-nos uma heroína. Vanaja, não sendo o típico filme indiano, termina de uma maneira muito indiana, confiando na sorte e na fortuna, acreditando que há uma maré nos assuntos dos homens.
Retrospectiva de Wim Wenders
A edição deste ano do Fantasporto conta com dois convidados de grande influência no cinema, respectivamente Paul Schrader e Wim Wenders, realizador alemão nascido em 1945.
O trabalho do Wenders começa nos anos 60 com curtas de baixo custo como Schauplätze, daí até 1984 foram uns vinte filmes, todos eles de baixo custo. Até que em 1984 um rasgo de soberania provocou o Paris, Texas, que arrecadou inúmeros prémios entre eles, A Palma de Ouro em Cannes. Este filme é uma obra-prima, pelo elenco muito bem dirigido, pela fotografia extremamente bem cuidada por Kate Altman.
O que faz de Wim Wenders um nome influente e com rasgos de loucura saudável é a polivalência que o caracteriza. Notória, esta polivalência no filme de ficção, que neste caso é para aqui chamado pelo tema fantástico intrínseco ao Fantas, intitulado Bis ans Ende der Welt, primeiro filme que introduziu efeitos especiais. Dentro ainda desta polivalência existem documentários, extremamente bem executados, como Buena Vista Social Club, ou então do ponto de vista mais experimental podemos ver o Lisbon Story, que aproveita a ausência de som para ser provocado uma sensação de atenção contemplativa, filmes de 1999 e 1994, respectivamente. Mais recentemente podemos ver um filme que voltou ao registo do Paris, Texas, caso do Don’t Come Knocking, um filme de 2005, que conta com um elenco muito bem dirigido.

Este ano no Fantas podemos ver o seu mais recente filme, Palermo Shooting, um trabalho esteticamente americanizado.
Crítica: «Che, The Argentine», de Steven Soderbergh
O filme de Steven Soderbergh retrata a biografia do revolucionário Ernesto Che Guevara em dois longas-metragens, sendo The Argentine a primeira parte, que abrange a história do guerrilheiro desde o encontro com Fidel Castro no México até a conquista do território cubano, antes dominado pelo regime de Batista. A segunda parte, The Guerrilla, que não faz parte da programação do “Fantas”, perpassa pela renúncia de Che ao seu cargo no governo cubano e à sua cidadania no país até a decepção do revolucionário por não conseguir na Bolívia o apoio que conseguiu em Cuba.

A linearidade do filme já era esperada. O que intrigou foram as fortes doses de humor, quer sejam criadas por situações cómicas, quer sejam pela dubialidade de certos diálogos. O fato é que esse humor garantiu um bom timing à trama, isto é, ajudou a distribuir a tensão no decorrer da história para não tornar as cenas de guerrilha cansativas.
A posição humanista do revolucionário é largamente reforçada, inclusive mostrando o contraste entre a ideologia anti-imperialista e o ícone mundial em que transformaram Che, cuja imagem foi mediatizada e vendida pelo próprio capitalismo.
Vem daí o preto e branco utilizado nos momentos paralelos aos episódios da guerrilha, um bom recurso estético para
não tornar cansativa a narração. Nesses entremeios, Che aparece em discursos na ONU e na recepção que teve em sua viagem a Nova Iorque em 1964 ou em excertos de entrevistas. Deixa-se claro que o guerrilheiro não lutava por nações e territórios, mas por melhores condições humanas independente de limítrofes espaciais ou culturais. “Qual a principal característica de um revolucionário?”, pergunta uma jornalista. Che responde: “O amor. O amor à humanidade, à justiça e à verdade”.
A longa acaba de maneira tão abrupta e inesperada – numa tentativa de impelir o público a assistir a segunda parte – que se torna confuso o desfecho para aqueles que não sabem que a história sob a óptica de Soderbergh não fica por ali.
Como protagonista, merece destaque a actuação de Benicio Del Toro (também produtor do filme e prémio de Melhor Actor no último Festival de Cannes) pela peculiaridade de não intencionar atingir o máximo de semelhanças ao Che na vida real, mas por incorporar o personagem com as possibilidades e limitações que a ficção cinematográfica sugere. Aliás, a película dá a ideia de que não existe uma obsessão pelo detalhe histórico – é um filme que, apesar da história fragmentada pelas conquistas paulatinas do grupo de guerrilheiros, reflecte uma visão do todo, e não de partes.
«Che, The Argentine» abre Fantasporto
O discurso de apresentação do 29ª edição do Fantasporto surpreendeu ao não continuar a rotina de queixume e entitlement do costume. Mas o tom de pequenez foi mantido com o mantra da noite. “Este não é um Fantas da crise”, afirmou a directora do festival, Beatriz Pacheco Pereira, em jeito de resposta directa a “títulos de jornais nacionais” e como uma espécie de ultimato lançado ao Instituto do Turismo, que aparentemente tem dois meses para decidir se apoia o Fantasporto. Contudo, a lista de agradecimentos a instituições e entidades que apoiam o “Fantas” esteve, ao contrário do que aconteceu o ano passado, desprovida de farpas.
Findo o discurso, a anunciada preview de The Wolfman não foi projectada devido ao atraso dos procedimentos, tendo um grande auditório do Rivoli repleto assistido, de seguida, a The Argentine. O filme reveste-se da linearidade típica de Soderbergh, uma aproximação dos factos sem enquadramento nem valor acrescentado. A reconstituição da guerrilha, nos limitados cenários a que se dedica, é competente e por alturas bastante dinâmica (a tomada de Santa Clara, no terceiro acto). Mas com pouco mais do que figurões a debitar efemérides, o peso do filme iria cair sobre os ombros do retrato de Benicio del Toro. Mas este dá-nos uma performance recatada, em postura de humildade perante a figura homenageada. Com apenas metade do filme visto (e aparentemente The Argentine é a metade inferior) será difícil lançar juízo, até porque há claramente desenvolvimentos que apenas são semeados aqui. Contudo, The Argentine mantém-se na tradição dos biopics: sem relevância, apenas uma aglomeração de documentação sobre uma personalidade.
A noite prosseguiu no grande auditório com a exibição de The Deal, uma comédia tragicamente defeituosa e vazia, terminando com a projecção do soberbo Blade Runner, de Ridley Scott, aqui na versão Final Cut (que já o ano passado o festival tentou trazer ao Rivoli).
Abstração biotécnica
Nesta quinta-feira, o ciclo de palestras sobre a arquitectura do futuro, promovido pelo Fantasporto e pela Ordem dos Arquitectos teve a sua segunda e final edição. Desta vez, o convidado foi o arquitecto português radicado em Londres, Marcos Cruz, que acaba de receber do Royal Institute of British Architects, prémio máximo de destaque em teses de doutoramento.
No início da palestra, o arquitecto criou relações entre marcos da ficção científica cinematográfica e a produção arquitectónica que as seguiram e persistem com grande força até hoje, principalmente em escritórios londrinos, citando como exemplo os filmes Barbarella (1968), Blade Runner (1982) e Matrix (1999). Foi usando este último como ponto de partida que Marcos Cruz expôs seus conceitos por trás de sua produção arquitectónica. A biotecnologia, associada as potencialidades da tecnologia digital e dos estudos sobre materialidade nos espaços construídos são as bases em que o arquitecto sustenta sua pesquisa e trabalho.
Em seguida, exibiu algumas imagens dos seus projectos, sempre com formas inusitadas e orgânicas, aproveitando-se ao máximo dos efeitos que uma nova relação corpo-espaço pode gerar. Para Cruz não há limites para esta relação: «A nossa ideia de corpo em arquitectura é construída de forma oposta à noção comum e redutora da metáfora da pele como uma membrana fina e plana. A ideia do corpo perfeito e burguês influenciou muito a forma com que a arquitectura é projectada desde o modernismo, ela deve ser sentida e vivida e não apenas observada como obra de arte». Partindo desta ideia, o arquitecto demonstrou o quanto a imagem «cyborguiana» de um corpo sem limites e totalmente aberto a extensões é importante para suas obras e como tal imagem, sempre renovada por filmes de ficção científica, está cada vez mais presente no trabalho de muitos artistas e teóricos de vanguarda.
Terminada a apresentação, iniciou-se o tempo reservado para perguntas. Fugindo de questões técnicas e concentrando-se na teoria, elas serviram de pretexto para que o arquitecto falasse mais sobre questões que o preocupam na relação das pessoas com os espaços. Para Marcos Cruz a arquitectura não deve ser pensada apenas como um jogo abstracto de planos, pontos e linhas, mas sim como um corpo inteiro, muito mais do que uma simples barreira física de convivência, ela deve ser a própria imagem em movimento que reflecte a vida e ambições de uma sociedade.
Para os muitos alunos da FAUP que assistiram a palestra restou apenas uma dúvida. Se Marcos Cruz, este novo e promissor arquitecto português, fosse dar a mesma palestra na escola projectada por Siza, sairia ele aplaudido ou apedrejado?
Antevendo a sessão de abertura
A escolha do filme de abertura oficial, à primeira vista, dificilmente poderia estar mais afastada do terror ou do fantástico. Afinal, Che é um biopic de uma figura por demais mediatizada, e a realização é de Steven Soderbergh, um mercenário maquilhado como auteur. Mas este díptico de reflexão sobre a vida do revolucionário argentino tem recolhido muito boas reacções por onde passou, nomeadamente em Sundance.
The Argentine é a primeira parte desta biografia de Che Guevara, e acompanha o Comandante desde o encontro com Fidel Castro no México até à vitória sobre o regime de Batista, com pequenas prolepses do pós-revolução a entremear a narrativa. The Guerrilla, uma segunda parte bem separada da primeira por tom e cinematografia, não faz parte da programação do Fantas. A projecção de The Argentine vai ser precedida por um clip de dez minutos do filme The Wolfman, a homenagem por Joe Johnston ao monstro clássico da Universal.

«The Deal», de Steven Schachter
Mas o dia de inauguração da competição do Fantasporto vai estar recheado de opções. A seguir à primeira sessão, o Grande Auditório recebe The Deal, um filme de Steven Schachter com Elliot Gould e William H Macy, este último também o autor do guião. À uma e quinze de sábado, vai poder ser revisto o Final Cut de Blade Runner – obrigatório para quem perdeu a sessão do dia 16, ou a adorou. Já no Pequeno Auditório, poder-se-à assistir a: Bellini e o Demónio, um filme brasileiro em antestreia; Samurai Avenger, um midnight movie delirante; e Schramm, que abrirá a retrospectiva de Jorg Buttgereit (o autor estará presente no Fantas no dia 23).
Hoje no Fantasporto
Che: Part One, de Steven Soderbergh, às 20h30 no Grande Auditório.
Crítica: «Dark City», de Alex Proyas
No segundo dia do Fantasporto, foi bastante considerável o número de pessoas no Grande Auditório do Rivoli para assistir ao Dark City (1998), de Alex Proyas. Lançado em Portugal e no Brasil com o título de Cidade das Sombras, o filme é uma miscelânea entre lugares comuns dos filmes de ficção científica e diálogos profundamente metafísicos.
John Murdock (Rufus Sewell) acorda atónito num quarto de hotel com vagas lembranças de uma série de assassinatos que ele jamais imaginaria ter cometido. Vê-se perseguido pela polícia, mas logo descobre que está a ser, verdadeiramente, procurado pelos «The Strangers». Estes são seres tétricos que fazem experiências trocando as lembranças dos seres humanos, a fim de saber o que é que constitui a alma humana.
Dark City tem um claro embasamento filosófico, onde os seres e poderes fantásticos compõem uma trama que questiona a formação da identidade humana, tanto nos aspectos mais individuais (como as reminiscências, que são únicas a cada pessoa) como na construção de uma memória colectiva. «É como se eu tivesse sonhado e quando acordei, já estava numa outra vida», afirma Murdock.
A concepção plástica sobrevém muito do senso comum, com figurinos previsíveis, cores que oscilam entre o claro e o escuro e efeitos virtuais repetitivos, além de um melodrama bem convencional para aliviar as tensões no decorrer da história. No entanto, o roteiro segue tão metodicamente os três actos de uma narrativa cinematográfica (o chamado «à aventura», a provação suprema e o retorno com o elixir) que o filme garante-nos uma boa dose de cada aspecto que compõe uma trama.
Crítica: «Immortel», de Enki Bilal
Uma pirâmide suspensa na Nova Iorque de 2095. O deus Horus tem a sua condição de imortal abjurada e precisa de garantir a perpetuação da espécie humana, numa sociedade em que os seres artificiais são a maioria. Nikopol (Thomas Kretschmann), um revolucionário preso há 30 anos, é o escolhido para «emprestar» o corpo a Horus e fazer com que este fecunde a mutante Jill (Linda Hardy).
É assim que se desdobra Immortel (2004), um filme de extremos: perpassa-se da mitologia egípcia directamente para o futuro criado por Enki Bilal. O mais curioso é que, sem assentar necessariamente no presente, o filme é claramente uma referência a questões que permeiam a humanidade hoje, como os desdobramentos da genética, as intrigas políticas e as revoluções sociais imanentes.
O tom satírico é o principal termómetro do filme. O «deus falcão» satiriza atitudes humanas quando, na verdade, ele mesmo comete acções tão igualmente inferiores. Assim, podem ser lidas várias ironias à nossa condição actual: as falhas que apontamos nos outros são também as nossas; a artificialidade dissemina-se não só nos meios materiais mas nas próprias relações (letreiros anunciam: «Nada de amor e sexo, procriem geneticamente»); as fraudes políticas continuam as mesmas, apesar da desenvolvida sociedade do fim do século.
Immortel tem uma plasticidade intrigante, numa linha ténue entre ficção e realidade. Os efeitos 3D estão em harmonia com as três dimensões reais e não há nenhuma contaminação entre as duas balizas – define-se bem por que se adoptou o real para determinados cenários e personagens e por que a escolha do virtual para as outras criações. Num roteiro linear, Immortel parece vir do futuro para nos falar, em tom quase caricatural, sobre os nossos tempos de crise – ou sobre a crise dos nossos tempos.
Hoje no Fantasporto
Breaking and Entering, de Anthony Minghella, às 21:15 no Grande Auditório
Fujimoto, o conceptualista
A primeira conferência sobre arquitectura no futuro teve como convidado o arquitecto japonês Sou Fujimoto. Através de uma apresentação de slides, contendo imagens, diagramas e desenhos técnicos, o arquitecto exibiu os seus projectos inovadores para habitações. Partindo sempre de formas e volumes simples, aposta mais na relação que as pessoas podem criar com os espaços do que na sofisticação dos mesmos.

Sou Fujimoto mostra o seu trabalho (Foto: Cíntia Morais)
O arquitecto iniciou a apresentação explicando os conceitos que dão forma aos seus projectos: «ninho», em referência a espaços que são projectados para a acomodação imediata das pessoas, e «caverna», espaços sem preparo em que os usuários se acomodam aos poucos. A partir daí, Fujimoto explicou as diferenças da sua arquitectura inovadora em relação aos conceitos básicos da arquitectura moderna criados pelo arquitecto suíço-francês Le Corbusier em 1914 (piso, pilar e escada). Na sua arquitectura, explicou o japonês, não existem pré-definições, estruturais ou formais, os espaços e formas são gerados como elementos de paisagem em que as pessoas naturalmente encontram um espaço em que se sintam bem.
Após mostrar estes conceitos aplicados em alguns dos seus projectos, Fujimoto respondeu a algumas perguntas da plateia. Apesar de a maioria serem referentes a questões técnicas e construtivas nos seus projectos, alguns questionaram a viabilidade das ideias do arquitecto, apesar de serem muito interessantes, e como elas seriam realmente implantadas na sociedade actual. O arquitecto defendeu-se, dizendo que a maioria dos suas obras se localizam no Japão exactamente por este país ter uma mentalidade mais aberta para novas formas de habitação e relação com os espaços.
Apesar da geral satisfação a respeito da apresentação e qualidade dos projectos de Sou Fujimoto, a maioria dos espectadores saiu com a ideia de que o arquitecto japonês trabalha baseado em ideias bastante conceptualistas, que talvez tenham mais condições de serem aplicadas apenas no Japão.
Fantasporto em fotogramas #01
- Cidade do Cinema
- Cidade do Cinema
- Teatro Rivoli
- Falsos cartazes antigos da Super Bock
- Sala cheia para assistir à primeira conferência
- Apresentação de Sou Fujimoto
- Sou Fujimoto mostra o seu trabalho
- Sou Fujimoto mostra o seu trabalho
- Sou Fujimoto mostra o seu trabalho
- À saída, depois da conferência
Hoje no Fantasporto
Blindness, de Fernando Meirelles, às 21h15 no Grande Auditório.
Immortel, de Enki Bilal, às 23h30 no Grande Auditório
Plympton, a revolução na animação
Bill Plympton é já um visitante assíduo do Fantasporto, este ano com especial destaque para a edição inédita em Portugal em DVD de parte da sua obra. A última longa-metragem, Idiots and Angels (imagem), encontra-se em competição na categoria Cinema Fantástico. De 2008, este é tido como o mais negro e satírico de todos os seus filmes e conta com uma banda sonora de luxo: Tom Waits, Moby e Pink Martini são alguns dos nomes que o musicam.
Nunca são demais as vezes que visionamos os filmes do norte-americano. Na sua obra, destacam-se os trabalhos do fim dos anos 80, como as animações One of Those Days, How to Kiss, 25 Ways to Quit Smoking e o famoso Plymptoons, altura em que começa a evidenciar-se e a preparar animações financiadas por si próprio.
Com a utilização nos seus argumentos de uma linguagem mais adulta, mostrando nudez, violência e revelando o lado «negro» do humor das pessoas, Plympton ajudou a construir uma linguagem que conhecemos hoje nas animações. Desmistificado o preconceito de que animação só serve para entreter crianças abre-se aqui o caminho para o que são actualmente as grandes produções de séries como Simpsons ou American Dad, mas também para animação em longas-metragens onde o humor utilizado e as técnicas de escrita permitem dois níveis de público.
Crianças e adultos partilham nos dias de hoje ícones da animação e conseguem extrair do mesmo argumento e filme dois sentidos – o lúdico e de diversão, e o humor político ou com grandes marcas de sátira social.
Fantas ocupa Rivoli até 1 de Março
Mais um ano, mais um Fantasporto. Entre os habituais ciclos e retrospectivas, da programação do festival destacam-se a mostra de cinema galego, a homenagem ao realizador Fonseca e Costa, e um catálogo alargado de curtas-metragens europeias. O filme de abertura é Che – The Argentine de Steven Soderbergh, e a sessão de encerramento será com Adam Ressurrected de Paul Schrader. A experiência de midnight movies no Sá da Bandeira não se repete nesta edição.
Antes da abertura oficial do Fantas a 20 de Fevereiro, o festival vai brindar-nos com um ciclo submetido ao tema As Ruínas do Futuro. Este ciclo abriu ontem o Grande Auditório com Blade Runner (no ano passado o Fantas tentou trazer o Final Cut mas não conseguiu), e conta ainda com Metropolis, e Immortel, entre outros. O valor acrescentado, a conferência, terá a sua primeira parte hoje, dia 17, e a segunda e última parte no dia 19. Esta conferência é comissariada pelo arquitecto Jorge Patrício Martins e tem o apoio da Ordem dos Arquitectos. Durante este período, o Pequeno Auditório vai receber uma mini-retrospectiva de Mario Bava, o prolífico mestre do giallo, no Pequeno Auditório. Embora com uma selecção reduzidíssima, vamos poder encontrar favoritos como Black Sunday, The Girl Who Knew Too Much ou Kill, Baby… Kill.
No dia 20, sexta-feira, a competição do festival vai abrir com a estreia de Che – The Argentine, de Steven Soderbergh. The Argentine é somente a primeira parte da biopic de Che Guevara, e lidará sobretudo com a revolução cubana. The Guerrilla, a segunda parte, poderá ter sido deixada de fora não só pela duração (em conjunto, perfazem um biopic com mais de quatro horas) mas também porque a segunda parte, que incide sobre a luta de Che na América do Sul, parece ter um ritmo demasiado lento para o glamour de uma sessão de abertura. Esta sessão é precedida por uma preview de dez minutos do filme The Wolfman, a homenagem ao monstro clássico da Universal realizada por Joe Johnston.
Após a sessão de abertura, está lançada a competição. As secções são as já habituais: Cinema Fantástico, Semana dos Realizadores, Orient Express e os prémios Mélies de Prata. Este ano o Fantasporto vai homenagear a carreira de José Fonseca e Costa (foto), mais uma grande figura do Cinema Novo português. O cineasta vai ter uma retrospectiva de seis dos seus filmes no festival, culminando com uma entrevista no palco do Pequeno Auditório no dia 26 de Fevereiro. Está também prevista a presença de duas grandes figuras do cinema internacional: Paul Schrader e Wim Wenders. Schrader, argumentista de Taxi Driver e Raging Bull vem apresentar o seu filme Adam Ressurrected, uma adaptação literária que segue a história de um sobrevivente do holocausto internado num sanatório. Wim Wenders traz-nos Palermo Shooting, a história da fuga de um fotógrafo para Itália, a fim de expandir os seus horizontes.
Outra retrospectiva de nota é a de Jorg Buttgereit. O cineasta de culto alemão fez carreira como o polémico retratista de morte, sexo e violência. Os filmes que podem ser vistos no Fantas foram objecto de repúdio e banidos numa longa lista de países. Por estas e outras razões são objectos difíceis de encontrar para o consumidor comum, havendo aqui uma oportunidade única para os ver como merecem: em salas escuras com audiências a reagirem em uníssono.
O Fantasporto deste ano, como noutros, possui um catálogo extenso repleto de nomes sonantes e projecções únicas que farão as delícias dos cinéfilos. Mas também podemos contar com outras tradições: projecção de DVDs no pequeno auditório, discursos a pedinchar, horários de filmes da competição em conflito. Mas nada disto diminui a experiência do maior festival de cinema do país ter lugar na cidade-nação do Porto.
Acompanhem este espaço para as reportagens da equipa JUP-Rascunho.
Walled In, baseado no romance Os Emparedados do francês Serge Brussolo, é levado a cena com o realizador Gilles Paquet-Brenner. Um thriller psicológico que conta com a participação de Misha Barton, conhecida em Portugal pela sua participação na série de televisão O.C., que desempenha o papel de uma recém formada engenheira enviada para a sua primeira demolição, sob alçada de uma empresa da sua família. Mas o edifício que lhe calha como primeiro trabalho não é um qualquer. Um prédio enigmático com uma arquitectura fascinante envolto numa história de assassinatos em série, em que as vitimas foram emparedadas dentro do próprio edifício. O arquitecto, supostamente também encontrado entre as vitimas, tratar-se-ia de um génio, visto que nenhum dos seus edifícios teria alguma vez caído resistindo inclusive a terramotos.





























