Abstração biotécnica
Nesta quinta-feira, o ciclo de palestras sobre a arquitectura do futuro, promovido pelo Fantasporto e pela Ordem dos Arquitectos teve a sua segunda e final edição. Desta vez, o convidado foi o arquitecto português radicado em Londres, Marcos Cruz, que acaba de receber do Royal Institute of British Architects, prémio máximo de destaque em teses de doutoramento.
No início da palestra, o arquitecto criou relações entre marcos da ficção científica cinematográfica e a produção arquitectónica que as seguiram e persistem com grande força até hoje, principalmente em escritórios londrinos, citando como exemplo os filmes Barbarella (1968), Blade Runner (1982) e Matrix (1999). Foi usando este último como ponto de partida que Marcos Cruz expôs seus conceitos por trás de sua produção arquitectónica. A biotecnologia, associada as potencialidades da tecnologia digital e dos estudos sobre materialidade nos espaços construídos são as bases em que o arquitecto sustenta sua pesquisa e trabalho.
Em seguida, exibiu algumas imagens dos seus projectos, sempre com formas inusitadas e orgânicas, aproveitando-se ao máximo dos efeitos que uma nova relação corpo-espaço pode gerar. Para Cruz não há limites para esta relação: «A nossa ideia de corpo em arquitectura é construída de forma oposta à noção comum e redutora da metáfora da pele como uma membrana fina e plana. A ideia do corpo perfeito e burguês influenciou muito a forma com que a arquitectura é projectada desde o modernismo, ela deve ser sentida e vivida e não apenas observada como obra de arte». Partindo desta ideia, o arquitecto demonstrou o quanto a imagem «cyborguiana» de um corpo sem limites e totalmente aberto a extensões é importante para suas obras e como tal imagem, sempre renovada por filmes de ficção científica, está cada vez mais presente no trabalho de muitos artistas e teóricos de vanguarda.
Terminada a apresentação, iniciou-se o tempo reservado para perguntas. Fugindo de questões técnicas e concentrando-se na teoria, elas serviram de pretexto para que o arquitecto falasse mais sobre questões que o preocupam na relação das pessoas com os espaços. Para Marcos Cruz a arquitectura não deve ser pensada apenas como um jogo abstracto de planos, pontos e linhas, mas sim como um corpo inteiro, muito mais do que uma simples barreira física de convivência, ela deve ser a própria imagem em movimento que reflecte a vida e ambições de uma sociedade.
Para os muitos alunos da FAUP que assistiram a palestra restou apenas uma dúvida. Se Marcos Cruz, este novo e promissor arquitecto português, fosse dar a mesma palestra na escola projectada por Siza, sairia ele aplaudido ou apedrejado?



