Especial Rascunho e JUP

Archive for Fevereiro, 2009

Prémios Fantasporto 2009

SECÇÃO OFICIAL CINEMA FANTÁSTICO

Grande Prémio Melhor Filme Fantasporto 2009
Idiots and Angels – Bill Plympton  (EUA)

Prémio Especial do Júri/Prémio Super Bock
Hansel & Gretel – Gunnar Gudmundsson Phill-Sung Yim (COR. SUL)

Menção Honrosa do Júri Internacional
Astropia – Gunnar Gudmundsson (ISL/GB/FIN)

Melhor Realização
Eden Lake – James Watkins (GB)

Melhor Actor
Jack O’Connel –  Eden Lake (GB)

Melhor Actriz
Macarena Goméz –  Sexykiller (ESP)

Melhor Argumento
Bill Plympton Idiots and Angels (EUA)

Melhor Fotografia
James HawkinsonThe Unborn (EUA)

Melhor Curta-Metragem
Next Floor – Denis Vilebeuve (CAN)

19ª SEMANA DOS REALIZADORES

Grande Prémio Manoel de Oliveira, Melhor Filme Semana dos Realizadores
Moscow, Belgium – Christophe Van Rompaey (BEL)

Prémio Especial Júri
Palermo Shooting – Wem Wenders (ALE/FRA/ITA)

Melhor Realizador
Bent Hamer O’Horten (NOR/ALE/FRA)

Melhor Actor
Brian CoxThe Escapist (GB)

Melhor Actriz
Mamatha BhukyaVanaja (IND/EUA)

Melhor Argumento
Sergey Rokotov, Yevgeniy NikishowThe Vanished Empire (RUS)

SECÇÃO OFICIAL ORIENT EXPRESS

Prémio Melhor Filme Orient Express
Hansel & Gretel – Phill-Sung Yim (COR. SUL)

Prémio Especial Júri
The Chaser – Hong-Jin Na (COR. SUL)

PRÉMIO DA CRÍTICA
Delta – Kornel Mundruczo (HUNG)

PRÉMIO DE AUDIÊNCIA JN
The Wrestler – Darren Aronofsy (EUA)


Animação de «anjos e idiotas» vence Fantas

fantasporto2009A película de animação do norte-americano Bill Plympton, Idiots and Angels, arrecadou o Grande Prémio da Secção Oficial de Cinema Fantástico, bem como o Pémio de Melhor Argumento, enquanto Hansel & Gretel, que concorria também ao Prémio de Cinema Fantástico, acabou por perder nesta categoria, arrebatando o Prémio da Secção Oficial Orient Express e o Prémio Especial de Cinema Fantástico.

Ainda dentro da categoria de Cinema Fantástico, o britânico James Watkins colheu o Prémio de Melhor Realização por Eden Lake, distinguido ainda com o galardão para Melhor Actor Jack O’Connell, que interpreta o líder de um gangue que aterroriza a vida de um jovem casal de namorados.

Por seu turno, Moscow, Belgium, do cineasta belga Christophe Van Rompaey levou para casa o Prémio da 19ª Semana dos Realizadores. O Prémio Especial da Semana dos Realizadores foi para o mais recente trabalho de Wim Wenders, Palermo Shooting, o Prémio da Crítica foi atribuído a Delta, do hungáro Kornel Mundruczo, e The Wrestler, de Darren Aronofsky, obteve o Prémio do Público.

Os realizadores José Fonseca e Costa, Wim Wenders e Paul Schrader serão ainda homenageados,  na sessão de encerramento e de entrega de prémios, com o Prémio Carreira.


Crítica: «Palermo Shooting», de Wim Wenders

Palermo Shooting não é só um filme. Da forma como o fim para o qual foi pensado pelo realizador transformam-no quase automaticamente num filme de culto. Um filme com uma fotografia exemplar pensado quase fotograma por fotograma, sensível ao movimento e com um ritmo lento mas propositado para nos arrastar para a forma como sentimos a passagem do tempo.

Os ingredientes estão todos lá e passando pela homenagem até ao ponto do ensaio, as referências para a filosofia inerente ao acto da captação de imagem agiganta-se sobre o público causando um rol de sensações que nos acompanham por muito tempo depois de sair da sala. Bergman e Antonioni são assumidos, mas há no filme muito mais. Há Dziga Vertov no Homem por trás da Camera de Filmar, há Barthes na procura do entendimento entre o fotógrafo e o objecto. Há um pouco de nós todos e não foi por acaso que na apresentação do filme Wenders disse que era o primeiro filme interactivo a passar pelo Fantasporto.

A história do filme é simples. Um fotógrafo famoso de renome mundial quer nas artes como na moda, Finn leva uma vida agitada, dorme pouco, o telemóvel nunca pára de tocar e a música dos seus auscultadores são a companhia mais constante e que lhe dão o poder de se isolar completamente do mundo. Na verdade a música é o primeiro tijolo na construção de um mundo só seu que tenta recriar nas fotografias que faz. A verdade fotográfica e a manipulação, o drama do fotógrafo perante a impossibilidade de capturar o momento e a preocupação atenta com o que rodeia caracterizam esta personagem tipo com a qual é fácil, para qualquer fotógrafo, se identificar.

Subitamente, a sua vida fica fora de controlo, uma viagem que o transporta para fora de si mesmo leva Finn a partir e deixar tudo para trás. A sua viagem leva-o de Dusseldorf até Palermo. Aí, vê-se perseguido por um misterioso atirador que o segue com um propósito de vingança. Sobre o resto, contá-lo seria um spoiler. O melhor conselho é que o vejam atentamente e o interpretem da forma que o realizador nos aconselha: sintam-se atingidos pelo shoot deste filme e interajam com ele.

[O RASCUNHO está a oferecer 10 convites duplos para a antestreia de Palermo Shooting, a 3 de Março, no cinema Zon Lusomundo Norteshopping]


Fantasporto no Brasil: Maíra Viana

Maíra VianaO JUP/RASCUNHO continua a fazer saber da repercussão do Fantas do outro lado do oceano. Depois do jornalista Rafhael Barbosa, colocámos as mesmas perguntas a Maíra Viana (foto), produtora cultural. Esta série de três entrevistas curtas chega amanhã ao fim com a publicação das respostas do cineasta Leo Falcão.

Conhece o Fantasporto? Como?
Já ouvi falar através da Internet. Como trabalho com roteiros estou sempre lendo muito sobre a área de vídeo, curtas, cinema, etc.

Por que gostaria de participar no festival?
Acho interessante, sim. Pretendo encaminhar alguns vídeos meus para festivais e o Fantasporto é uma óptima porta.

Qual a importância desses festivais?
Esses festivais podem auxiliar, por exemplo, no intercâmbio Brasil–Portugal de produções cinematográficas. É a globalização cada vez mais avançando, eu acho. A união e troca de culturas entre esses dois países leva a vantagem de não ter a barreira da língua. Um festival como este estimula e enobrece o intercâmbio entre Brasil e Portugal, o que para mim está entre as principais relevâncias ao se fazer um festival.


Fantasporto em fotogramas #07: Wim Wenders


Mário Dorminsky: «Solução para o Fantas tem que aparecer até ao final de Abril»

dsc_6070Numa altura em que a 29ª edição do Fantasporto caminha para o final, o JUP/RASCUNHO foi falar com um dos fundadores e director do Festival Internacional de Cinema do Porto, Mário Dorminsky.

Há 29 anos atrás o jornal Correio da Manhã trazia na primeira página, em letras grandes, o título: «Sangue invade as ruas do Porto». Desde então, nunca mais o Fantasporto se conseguiu descolar da imagem de cinema fantástico. Hoje, a um ano de completar trinta anos, o Fantas, que se tornou num dos 25 melhores festivais de cinema do mundo, vive dias de incerteza. Se não aparecer uma solução financeira até Abril, a edição 30 pode mesmo não se realizar. Aquela que tem sido a cara do Fantasporto desde sempre, Mário Dorminsky, explica-nos como é organizar um festival que se tornou «num monstro burocrático gigante». Fotos de Manuel Ribeiro

Para o ano o Fantasporto faz 30 anos. Afirmou há dias que a próxima edição pode estar em risco – porquê?
Sim, pode. É a edição 30, como podia ter sido a edição 21, a 22 ou a 14. Todos os anos, no meio cultural, sentimos um problema extremamente complicado, que é saber a capacidade financeira que possa existir pela parte quer do Estado e das autarquias, quer, sobretudo, dos privados. É preciso não esquecer que o Fantasporto talvez seja exemplo único em Portugal, ao ter cerca de 80 por cento de apoio dos privados e apenas 20 por cento de apoio das entidades públicas.

dsc_6052Essa percentagem incomoda-o?
Incomoda. O Estado devia ser responsável pela existência de projectos culturais considerados de interesse e, no caso do Fantasporto, isso é um facto. Ainda agora, o Instituto do Turismo nos atribui o Prémio Nacional do Turismo pela imagem internacional do festival e pela imagem que levamos de Portugal para o estrangeiro. Somos considerados um dos 25 melhores festivais do mundo, pela Variety, como somos considerados o melhor festival de cinema fantástico da Europa, a par do festival de Sietges perto de Barcelona. Outro aspecto que me parece muito importante é o facto de o Fantasporto estar a Norte. Como temos tido governos muito centralizadores, Lisboa e o Vale do Tejo são o centro do país, o resto é província.

Um dos próximos passos será a criação da Fundação Fantasporto. Quais são os principais objectivos e vantagens desse projecto?
Enquanto, neste momento, temos apoio do Estado e o apoio dos privados, ao nível de empresas, com a fundação poderemos ter outro tipo de apoios dos privados, isto é, das pessoas. E há pessoas que têm muito dinheiro e que podem ajudar.

É essa a ideia dos «amigos do Fantas»?
Há os mecenas, que são as empresas, e os patronos, que são os individuais, e depois há os amigos, que são aquelas pessoas que vêm ao Fantas há muito anos. É mais uma questão de simpatia para ter as pessoas perto de nós, como sócias. É curioso ver que já vamos em cerca de duzentos participantes e, neste festival, algumas pessoas já assumiram essa categoria de sócios do Fantasporto.

Passando para a recente edição. Tivemos no Pré-Fantas um ciclo dedicado à arquitectura. Qual é o balanço dessa iniciativa?
Foi fantástico. O ciclo de arquitectura foi uma ideia que substituiu o que fazíamos no Pré-Fantas, que era um conjunto de antestreias. Decidimos apresentar um programa com cabeça, tronco e membros, um programa envolvendo a Ordem dos Arquitectos, sendo co-organizado com o arquitecto Jorge Patrício, que é uma  pessoa em quem temos toda a confiança. A escolha dos filmes foi nossa e eles fizeram os textos e os conceitos. Eles desenvolveram um projecto contra a «escola» do Porto, isto é, a escolha dos arquitectos convidados para as conferências, como é o caso do japonês Sou Fujimoto, ou de Marcos Cruz, que tem conceitos completamente diferentes da Escola de Arquitectura do Porto. Quando estávamos a preparar o programa pensamos fazer as conferências no pequeno auditório, para duzentos e muitas pessoas, mas acabamos por optar pelo grande e tivemos cerca de 600 a 700 pessoas em cada uma das conferências, o que é notável.

dsc_6067Na mensagem do programa oficial pode ler-se que a crítica do cinema acabou. Revê-se nessa afirmação?
É verdade. Revejo-me nessa afirmação por uma razão muito simples. Basta pegar em todos os diários nacionais que trazem notícias do Fantasporto e nenhum deles fala dos filmes que passam no festival, só falam do ambiente e das pessoas que estão cá. Onde é que está a crítica? Onde é que está o falar sobre os filmes? Não está. Tirando dois ou três críticos, os outros não gostam de cinema. Dizem sempre mal de tudo e mais alguma coisa. A crítica de cinema a sério terminou, em Portugal, no final dos anos 90. Nessa altura havia um conjunto de pessoas que ainda olhavam para o filme e o enquadravam no país onde era produzido e depois envolviam a sua crítica em torno desses conceitos. Isso não só acontece no cinema, mas também nas artes plásticas, na literatura e em praticamente todas as artes. Ainda há o crítico que diz gosto e não gosto, mas ponto final, acabou. Em termos genéricos, dizer que há um conceito de crítica que permita às pessoas ter uma leitura diferente em relação àquilo que é o produto cultural é uma situação que já não existe. E falo à-vontade porque durante vinte anos fui jornalista da área cultural dos três jornais do Porto.

Imaginando que tinha todos os apoios necessários. A 30ª edição do Fantas vai ter uma programação especial?
Sabemos o que queremos fazer. Agora não vamos anunciar nada porque não tem lógica estar a anunciar aquilo que vamos fazer e, ao mesmo tempo, dizer que pode não haver festival. Por isso, enquanto não tivermos a certeza, não vamos anunciar rigorosamente nada.

Ao fim de quase trinta anos ainda lhe dá gozo organizar o Fantasporto?
Dá muito gozo. A única coisa que acontece é que, cada vez mais, para além dos problemas para obter apoios do Estado, é necessária uma burocracia gigantesca, coisa que não existia no passado. E, ao nível dos privados, estamos a fazer contratos que metem advogados e tudo isto, que era feito com uma certa frescura, transformou-se num monstro burocrático gigante que ocupa as pessoas durante todo o ano. Dizem que sou a cara do festival, mas há mais – a Beatriz Pacheco Pereira e o António Reis. Infelizmente as coisas recaem muito sobre mim, as pessoas querem falar comigo e, nesse aspecto, é complicado porque tenho outras vidas, mas isso já é outra história.

Leia a entrevista integral no RASCUNHO


Tertúlia para correr antes dos vampiros

baile_dos_vampiros-cartaz_2009O concerto dos sintrenses The Profilers, amanhã à noite (23h00), na Tertúlia Castelense serve como vale de desconto no Baile dos Vampiros. Quem pagar os cinco euros para ver o blues-rock de San e companhia, pode adquirir o bilhete para a festa de encerramento do Fantas a preço reduzido — 10 euros.

A iniciativa serve para tentar levar mais público à sala do Castêlo da Maia, utilizando um subterfúgio formal para manter o valor inicial da festa (15 euros) e oferecendo o espectáculo dos vencedores da última edição do Festival de Corroios, à velha maneira do leve dois e pague um. E pode funcionar como alternativa para quem não consiga lugar nas sessões da noite no Rivoli. São 15 minutos para ir (de carro); outros tantos para voltar.

O Baile dos Vampiros com Clã como cabeças de cartaz, incluindo ainda os 4Drums e os dj’s Nacho, Kitten e Luís Machado, abre as portas do Teatro Sá da Bandeira às 23h59.


Crítica: «Idiots and Angels», de Bill Plympton

Um negociante de armas frequenta todos os dias o mesmo bar. Olhos pesados, corcunda, sempre a fumar e a beber: os aspectos físicos denunciam o carácter imoral, corrupto e violento do protagonista. Um belo dia, o homem percebe que lhe está a crescer, nas costas, um par de asas que possui vida própria. A bondade e a justiça das asas fazem o homem tentar livrar-se, sem êxito, daquele fardo que outrora lhe parecera um grande bónus. As asas nascem para aproximar o anti-herói da mulher que ama, a esposa do dono do bar, e acabam por tornar-se o objecto símbolo da redenção do homem.

Bill Plympton constrói um belo filme de animação, no sentido mais clássico e estético a que a palavra belo possa ascender. É uma leitura muito peculiar de fábulas que permeiam a memória colectiva. A construção do enredo até parece uma continuação da alegoria da Parelha Alada, de Platão. Nesta alegoria, o homem fez tantas coisas erradas que as suas asas perderam as forças e, sem elas para o sustentar, o ser humano caiu no mundo das sombras, condenado a pairar apenas pelos espectros da verdade.

Plympton devolve ao homem as asas neste mundo sombrio de excessos – grosseria, perversões sexuais, corrupção, ambição desmedida. E todas essas violações estão subordinadas a uma: o excesso de liberdade leva o ser humano a ignorar os seus próprios limites, o que culmina em solidão e escárnio.

Em termos estilísticos, o filme é sóbrio e elegante. O tom lírico (e por vezes onírico) é preservado em meio a cores mornas e a um traço de desenho denso, com muitos rabiscos e um acabamento prodigioso. A trilha sonora é um espectáculo à parte, inclusive com a participação de Tom Waits.


Fantasporto no Brasil: Rafhael Barbosa

Rafhael BarbosaCom a sua pluralidade temática que vai do thriller ao terror, da ficção científica ao imaginário, o Festival Internacional de Cinema do Porto transpõe os limites do território europeu e aterra no Brasil. O JUP/RASCUNHO teve a curiosidade de saber qual é a repercussão do Fantas do outro lado do oceano. Falámos com Rafhael Barbosa (foto), jornalista especializado em cinema, e inauguramos assim uma série de três entrevistas curtas. Seguem-se Maíra Viana, produtora cultural, e o cineasta Leo Falcão, a publicar nos próximos dias. Moram todos em diferentes regiões do Brasil (Maceió, São Paulo e Recife, respectivamente).

Conhece o Fantasporto? Como?
Conheci o evento através de uma revista de cinema especializada, a Set. Isso já fez muitos anos, uns 10 pelo menos. Desde lá sempre acompanho a programação do festival e fico de olho nos filmes seleccionados, nas críticas, etc.

Por que gostaria de participar no festival?
Bom, eu adoro os festivais. É um lugar onde se respira cinema, onde todo mundo está conectado numa mesma sintonia. No caso do Fantasporto, atrai-me o facto de ser um evento voltado para um género específico, que é o cinema fantástico. Nicho que, por sinal, foi marginalizado por muito tempo, esteve à margem do cinema e só recentemente vem recebendo a atenção que merece, principalmente da crítica. E muito disso graças a filmes que ganharam o mundo depois de passar no Fantasporto.

Qual a importância desses festivais?
Os grandes festivais internacionais, como Cannes, Berlim, Veneza, Fantasporto, Sundance, exercem um papel fundamental dentro do comércio do cinema. Filmes independentes de vários países ganham visibilidade ao serem indicados (ou premiados) nesses festivais, e com isso atraem a atenção dos distribuidores, que podem comprá-los para lançamento no mundo todo. Além disso, eles são uma oportunidade para o público conhecer muitos filmes que não ganharão lançamento comercial. No Brasil, os festivais desempenharam um papel importantíssimo de resistência à crise que assolou nosso cinema no começo dos anos 90. Foram o único refúgio para os cineastas nesse período.


Crítica: «Hansel & Gretel», de Lim Pil-Seong

hansel_gretel_001Um jovem nervoso fala ao telemóvel e tem um acidente de carro. O princípio poderia ser o de uma qualquer banal história de drama. Quando acorda do acidente é conduzido por uma angelical jovem até uma casa onde tudo é demasiado e assustadoramente infantil. Por toda a casa brinquedos, as refeições são sempre doces e quando algo parece correr mal rapidamente é resolvido de forma misteriosa por uma das crianças.

Eun-Soo passa todo o filme a tentar fugir daquela casa mágica mas a floresta trá-lo sempre de volta. Nunca se resignando ao que parece ser o seu destino vai confrontando os miúdos com os acontecimentos que se desenrolam quer no tempo do filme quer pela introdução de histórias em subtexto. A morte de todos os adultos que passam pela casa, os labirintos que se reproduzem da floresta até ao sótão deixam antecipar a trágica história daqueles três irmãos.

hansel_gretelNo fim Eun-Soon percebe que ele próprio é personagem daquela história que salta de um livro infantil para a realidade. Ele próprio herói faz um exercício catártico da sua vida e percebe onde é o seu verdadeiro lugar encontrando assim a fuga daquela casa.

Na base deste filme o imaginário dos contos infantis não só de Grimm mas de toda uma estética associada a este tipo de estórias. Lim Pil-Seong é o realizador deste filme que conseguiu atrair a critica e ser nomeado como o stand-out coreano deste ano. A sugestão de violência é sempre psicológica contrariando o que são alguns exemplos a que estamos habituados a ver do cinema coreano. São 116 minutos bastante intensos e emocionais com um excelente trabalho de fotografia e uma banda sonora que nos embala transportando-nos para dentro do filme.


Fantasporto em fotogramas #06


Crítica: «O’Horten», de Bent Hamer

O’Horten, filme do canadiano Bent Hamer, conta a história de um maquinista, Odd Horten reservado e sem grande vontade de ser o centro das atenções, que está numa nova fase da sua vida, a reforma. Uma reforma muito atribulada, com mais energia, ou mesmo com mais peripécias que a própria vida laboral. A reforma vista como uma libertação que nos deixa, depois de uma fase rotineira da nossa vida, sem chão e por isso procuramos uma ignição para uma nova vida.

ohorten-39A procura de adrenalina na aventura do carro, conduzido por o desconhecido de Odd, com um capuz, ao longo de uns metros, que termina na morte do condutor, como se fosse a última coisa a fazer na vida. Uma vida com responsabilidades, neste filme mostrado com a personagem cão, que depois de tudo foi como de um novo elemento a cuidar a tratar, como se de um filho se tratasse.

Tecnicamente o filme está muito bem feito, antes de mais com muito espaço para a reflexão, espaços que neste filme fazem sentido, devido à componente sócio — reflexiva. A fotografia está muito bem tratada, os brancos e pretos, provocados pela neve e pelos túneis, respectivamente, mostram-nos uma vida monótona, sem grandes surpresas, monotónica emocionalmente. A realização é digna de uma chamada de atenção, pela limpeza, a narrativa é-nos apresentada sem falhas, o que nos convida a entrar na história. Uma cena inicial onde Odd coloca um pano em cima da gaiola do pássaro remete-nos para o O Meu Tio, de Jacques Tati, que quando abria a porta, com o reflexo, fazia a luz chagar a um pássaro que cantava.


Fantasporto em fotogramas #05


Fantasporto em fotogramas #04


Como o JUP viu o Fantasporto em 2001

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Marcelo Galvão: «Temos que fazer bons filmes comerciais»

marcelo_galvaoEm entrevista exclusiva a partir de São Paulo, o realizador Marcelo Galvão fala ao JUP/RASCUNHO sobre o processo de construção de Bellini e o Demónio, a relação entre cinema empreendedor e cinema sustentável, e o intercâmbio de produções cinematográficas entre o Brasil e Portugal.

Galvão é graduado em Propaganda e Marketing pela Fundação Armando Alves Penteado e em Cinema pela New York Film Academy, e já tem na bagagem filmes como Rinha (apresentado no último Festival de Cannes) e Lado B: Como fazer um longa sem grana no Brasil.

O que pode esperar o público de Bellini e o Demónio?
Um filme com imagens fortes e viscerais, onde o demónio não tem rabo nem chifre, mas está presente na loucura dos nossos mais íntimos desejos. Além disso, o público irá perceber um trabalho de direcção de actor intenso, com uma resposta incrível do Fabio Assunção.

Como surgiu o convite para dirigir o filme?
Um grande produtor e amigo meu, Marçal Souza, me apresentou Theodoro Fontes, o produtor de Belline e o Demónio. Depois de uma grande conversa num restaurante, ele contratou-me para escrever o roteiro do filme e para ser o realizador. Acabei no final de tudo sendo também co-produtor, pois tive que colocar dinheiro para terminarmos o filme.

Em algumas entrevistas, você afirma que Bellini e o Demónio possuía um fio condutor mais visceral, no estilo de David Lynch e Cronenberg, e que o produtor descaracterizou essa linha orgânica. Esse é um dos grandes entraves ao ser um realizador contratado?
Depende dos contratos que são feitos. Fui muito ingénuo em aceitar entrar neste filme sem ter a liberdade de poder montá-lo. Desta forma escrevi um roteiro e dirigi um filme para um tipo de montagem que não aconteceu. Resultando assim em algo banal e sem coesão, um filme com imagens fortes, mas desconexas. Quando você repete 10 takes numa cena não é à toa, é porque você sabe que em várias delas houve algum problema. Então, como alguém pode montar um filme sem saber que problemas viu o realizador naqueles takes todos? Às vezes o começo do take 3 e o final do take 2 complementam-se, mas só o realizador sabe disso, é o único que tem o filme todo na cabeça. Outra forma de se fazer filmes é escrever, dirigir e entregar tudo ao produtor, mas sendo muito bem remunerado por isso, o que também não foi o caso.

Os seus dois filmes com maior repercussão internacional (Rinha, que participou do Festival de Cannes, e Bellini e o Demónio, que participa agora do Fantasporto) não seguiram propriamente os seus objectivos ideológicos. Como remar contra a maré, se para se manter é preciso fazer filmes de puro entretenimento ou que mostram pobreza e violência quando, na verdade, o que se quer é produzir filmes que revelem a «podridão da burguesia», como já afirmou?
Rinha ainda não foi lançado nos festivais internacionais. Levámos o filme apenas para o mercado em Cannes para sentir a recepção dos buyers, que por sinal foi muito boa. Terminámos o filme agora e ele está bem diferente, com uma hora a menos e com o som e as imagens totalmente finalizadas. Rinha seguiu os meus objectivos ideológicos: foi feito como imaginei e concebi; ao invés de fazer um filme de luta no estilo O Grande Dragão Branco, desenvolve-se num universo de bizarrices reais e ao mesmo tempo absurdas, servindo de questionamento do status quo dessa sociedade burguesa sem limites. Já Belline [e o Demónio] não seguiu os meus objectivos ideológicos por entrave do produtor, pois foi escrito e filmado para isso.

Como transformar o cinema empreendedor, voltado para o circuito tipicamente comercial, em cinema sustentável, em que não se depende de subsídios estatais nem industriais?
Dentro da realidade brasileira, onde não existe indústria cinematográfica, onde o número de salas de cinema é bem inferior ao de muitos países menores que o nosso, a saída mais rápida é diminuirmos os custos de produção, escolhendo roteiros mais simples e ao mesmo tempo mais interessantes. Um bom exemplo é o meu primeiro filme, o Quarta B, feito com 12 mil dólares, que ganhou a Mostra Internacional de São Paulo pelo júri popular.

Bellini e o Demónio é o único filme brasileiro no Fantasporto 2009. Faltam filmes no Brasil que se adeqúem ao universo do cinema fantástico?
Acredito que a maior parte dos filmes brasileiros fogem a essa temática do universo fantástico, porém temos que lembrar que todo festival tem o seu critério de escolha. Não podemos dizer que por Belline e o Demónio ter sido o único filme brasileiro do Fantasporto 2009, faltam filmes brasileiros que se adeqúem a esse universo.

O filme é uma adaptação do livro homónimo de Tony Bellotto. Quais os aspectos importantes ao fazer-se uma adaptação, tendo em vista que a linguagem literária e a linguagem cinematográfica possuem peculiaridades intransferíveis?
O principal numa adaptação literária é entender bem a narrativa da história, os objectivos e valores de cada personagem e tentar trazer isso para o filme com um ritmo que prenda o espectador. O aval do escritor é uma boa dica de que o caminho está certo.

Bellini e o Demónio é uma sequência de Bellini e a Esfinge, dirigido por Roberto Santucci Filho em 2001. Quando se tem em mãos a continuação de uma obra, as cobranças são maiores por haver comparações?
Acredito que não, a não ser quando a obra anterior se torna uma grande referência.

«Filme de paixões cinéfilas e de livros de cordel», é como se inicia o breve texto sobre o filme no catálogo do Fantas. O cordel é uma tradição originária de Portugal, e agora o filme leva aos portugueses aspectos do cordel sob uma concepção brasileira. Hoje temos uma visão cultural «digerida» daquilo que foi há muito as nossas raízes?
Acho que sim. As informações reciclam-se a todo o momento e desta forma surgem coisas novas, que acabam com o tempo enraizando e tornado-se referências de uma nova sociedade.

De que maneira festivais como o Fantas podem auxiliar no intercâmbio de produções cinematográficas entre o Brasil e Portugal?
Servindo de vitrina para que ambos os países conheçam melhor o cinema que está sendo feito em cada território e assim estreitando relações de co-produção entre os dois países.

Assim como você, muitos cineastas hoje possuem uma formação inicial em Publicidade e Propaganda, começando a carreira como redactores publicitários. Como a bagagem adquirida nessa área intervém na construção de tua linguagem cinematográfica?
Dá experiência na construção de histórias com começo meio e fim, mesmo que estas tenham apenas 30 segundos. Além disso dá-lhe um grande critério com relação ao nível de produção que deverá exigir-se para um filme, cerca-o com enorme repertório das mais diversas referências de linguagem e amplia o seu network com os melhores profissionais da área, já que, no Brasil, praticamente é a publicidade que sustenta os técnicos do cinema.

Em 1999, vendeu o seu carro e foi estudar cinema na New York Film Academy. Para se sustentar, ganhava a vida como lutador de Jiu-Jitsu. A importância dessa experiência está reflectida na visão crítica diante de um cinema cada vez mais afunilado ao entretenimento? Estudar em grandes centros é mais relevante para se aprender a fazer cinema ou para se ganhar projecção?
Acho que o cinema tem que ser sempre entretenimento, pois é feito para que outras pessoas assistam. Isso não quer dizer que por ser um filme comercial tem que ser ruim. Quantos filmes excelentes conhecemos que são líderes de bilheteira: Cidade de Deus, Little Miss Sunshine, Forrest Gump, etc. Não podemos fazer é apenas filmes comerciais, temos que fazer bons filmes comerciais. Quanto à segunda parte da pergunta, estudar é sempre bom, seja em grandes ou pequenos centros, mas só se aprende cinema, fazendo cinema. E quando se faz um cinema bom, aí sim ganha-se projecção.

No universo do fantástico, vê-se cada vez mais filmes em que a linha entre o real e o ficcional é ténue. Isso também pode ser visto nos teus filmes?
Sim, gosto de brincar com o real e o ficcional de forma a fazer com que o espectador participe do filme. Acho que o bom filme só se completa com a interacção do espectador. Não existe um certo ou errado, é como um quadro, cada um interpreta a obra da sua maneira e isso é o que mais gosto no cinema.

Não incomoda muitas vezes um filme ser mais conhecido por ter determinado actor ou actriz do que pela obra em si, com toda a complexidade que uma produção cinematográfica sugere?
Acho que não. Num filme existem inúmeros elementos para serem apreciados. Cabe ao espectador escolher qual ou quais deles lhe agrada mais.


Crítica: «The Listening Project», de Joel Weber e Dominic Howes

«What does the world think of America?» é o mote para o segundo documentário de 76 minutos de Joel Weber e Dominic Howes. Depois de Awakening, em 2005, a dupla proprietária da Rikshaw Films debruça-se sobre a opinião do resto do mundo acerca do impacto planetário inegável dos EUA.

20071213_listen_2Vencedor de quatro prémios de Melhor Documentário em 2008 (Santa Cruz Film Festival, Durango Independent Film Festival, Oxford Film Festival, Omaha Film Festival), The Listening Project faz jus ao nome: é um documentário onde quatro «ouvintes» (listeners) viajam por 14 países (Canadá, México, Brasil, Japão, Palestina, Israel, Rússia, Índia, Afeganistão, Tanzânia, África do Sul, China, França e Reino Unido) e lidam com as estórias e opiniões pessoais de diferentes culturas. Não são jornalistas nem especialistas da área, têm passados completamente diferentes e um ponto comum: as suas vidas sempre cruzaram, de alguma forma, causas sociais.

As opiniões, apesar de diferentes, não são assim tão díspares como poderíamos esperar – não esquecer o passado histórico dos países em questão e as ligações políticas dos mesmos à «Grande Nação». O binómio «amor/ódio» é comum. As acusações roçam os mesmos pontos: a arrogância dos EUA, a manipulação dos mass media, o possível declínio do império americano, a irónica discriminação, ignorância e desrespeito da Nação que mais se orgulha da sua democracia, e outrora melting-pot, pelas outras culturas; o apoio económico americano sempre presente ao longo da história como solução vs. ausência de educação basilar, o desprezo por países que acabam por alimentar as multinacionais americanas lá sediadas.

Visualmente notável, este documentário cuja fotografia e edição (280 horas de captação) merecem elogios, a ênfase conseguida pela edição realça as diferentes culturas investigadas, sem nunca ser o típico doc «talking-head». Com o risco de cair no lugar comum das questões levantadas após o 11/9, o desfecho, que poderia revelar-se desta forma minado, recai sobre a velha questão: a culpabilização das forças político-económicas americanas e não das pessoas.


Crítica: «Sexykiller», de Miguel Marti

001Sexykiller, um filme do espanhol Miguel Marti, mostra-nos uma barbie com trejeitos de Hannibal Lecter. O potencial mortífero é misturado com a delicadeza típica de uma donzela, que neste caso faz justiça com as próprias mãos. O que nos remete a uma crítica furtiva ao cinema americano, onde não é importante o que está por trás da personagem, mas sim o que essa personagem reflecte visualmente.

Deixa, no entanto, muitas questões que não procuram ser definidas ao longo do filme, o que de certa forma nos deixa sem uma ideia concreta sobre o que é esta personagem; uma sátira ou entretenimento visual. Há muitas referências a Fight Club (David Fincher, 1999), ou mesmo aos filmes de Sérgio Leone, onde as armas são manuseadas sem falhas, com um à-vontade digno dos melhores cowboys.

sexykillerTrata-se de um filme que não tem grandes inovações, os efeitos são pouco tratados, procurando uma plasticidade governada pelo jogo de luz americano. A fotografia está tratada como um filme hollywoodesco, extremamente saturada e com um registo de cores muito vivas. Um filme pouco convincente, com muito espectáculo, que não ajuda a clarificar a estória, deixa antes uma indefinição sobre o que é que procura ser.


Fantasporto em fotogramas #03


Como o JUP viu o Fantasporto em 2002

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Hoje no Fantasporto

Moscow, Belgium, de Christophe Van Rompaey, às 21h15 no Grande Auditório.


Como o JUP viu o Fantasporto em 2003

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Crítica: «Breaking and Entering», de Anthony Minghella

breaking_and_enteringBreaking and Entering foi o último filme de Minghella, que viria a morrer dois anos depois da sua produção. Foi também o único filme escrito pelo realizador britânico, para além da sua estreia com Truly, Madly, Deeply. A película, integrada no ciclo Cinema e Arquitectura, tem o seu nexo no personagem de Will (Jude Law). Will tem a mãos uma crise relacional com a sua companheira, agravada pela esponja de atenção e cuidados que é a filha proto-autista desta. Com a sua rotina afectada por repetidos assaltos ao estúdio de construção onde trabalha, acaba por partir numa exploração das suas opções emocionais.

O estúdio onde ele trabalha, a Green Effect, estabelece uma metáfora com a maneira como Will procura resolver os seus problemas emocionais. Começa com a transgressão de instalar o seu armazém numa área devoluta e mal frequentada de Londres, e prossegue com o projecto principal, o de criar um canal na zona que traria de volta a natureza ao centro urbano. Um projecto megalómano e agressivo, que espelha a rudeza e o egocentrismo de Will quando ele procura a sua própria satisfação.

Estamos, porém, perante um filme apenas mediano, com performances bastante preguiçosas (com a notável exceptção de Juliette Binoche), e um tratamento fotográfico sem requinte. Breaking and Entering ainda requer algum esforço para ser entendido como parte da secção Cinema e Arquitectura. Segundo o comissário do ciclo, este compreendia filmes que ilustrassem um comportamento de desafio às noções de urbanidade actuais. Esta noção pode ser encontrada nas breves referências ao projecto da Green Effect, mas percorre todo o filme como avatar dos relacionamentos dos personagens.


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